Digitalização ganha força com aplicações em gestão de ativos, rastreabilidade, contratos inteligentes e certificação de energia, enquanto regulação passa a incorporar tecnologias emergentes
Blockchain, inteligência artificial (IA), internet das coisas (IoT) e computação em nuvem começam a ampliar sua presença na cadeia energética brasileira, com aplicações que vão da gestão de ativos à rastreabilidade de energia e combustíveis renováveis. O avanço tecnológico, combinado à evolução do ambiente regulatório, abre espaço para novos modelos de transação, tokenização e automação de contratos no setor.
O tema foi discutido nesta terça-feira (11), durante a Rio Innovation Week 2026, no painel “Blockchain e IA na Cadeia da Matriz Energética Brasileira”. O debate reuniu representantes dos setores de tecnologia, energia, óleo e gás e direito, sob mediação de João Carvalho, CEO e fundador da Mentors Energy Consulting.
A discussão ocorre em um momento de transformação do setor elétrico, marcado pela expansão das fontes renováveis, descentralização da geração, digitalização das redes e necessidade de maior flexibilidade operacional. Nesse cenário, tecnologias capazes de processar grandes volumes de dados e automatizar transações ganham relevância estratégica.
Resolução da Aneel abre espaço para tecnologias digitais
Um dos principais pontos abordados no painel foi a Resolução Normativa nº 1.150 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), publicada em janeiro de 2026. A norma reconheceu tecnologias emergentes, como blockchain, inteligência artificial, internet das coisas, medidores inteligentes e computação em nuvem, como instrumentos com potencial para aplicação no setor elétrico.
A mudança amplia o espaço regulatório para soluções digitais voltadas à eficiência operacional, gestão de ativos, automação e desenvolvimento de novos modelos de negócio.
Ao avaliar os efeitos da regulamentação sobre o processo de digitalização, João Carvalho apontou a criação de uma base regulatória para aplicações que já vinham sendo desenvolvidas pelo mercado: “A Resolução 1.150 marca um avanço regulatório ao reconhecer blockchain, inteligência artificial, internet das coisas, medidores inteligentes e computação em nuvem como tecnologias capazes de criar novas soluções e modelos de negócio no setor elétrico.”
A incorporação dessas ferramentas, contudo, depende de requisitos relacionados à maturidade tecnológica, segurança operacional e confiabilidade dos sistemas. O desafio passa a ser integrar inovação e regulação sem comprometer a segurança da operação e a proteção dos agentes e consumidores.
Tokenização pode ampliar gestão e rastreabilidade
Entre as aplicações discutidas está a tokenização de ativos e certificados relacionados ao setor energético. A tecnologia permite representar digitalmente determinados direitos ou ativos, criando registros que podem ser utilizados em plataformas digitais.
No mercado de energia, uma das possibilidades é utilizar blockchain para aumentar a rastreabilidade de transações, registrar a procedência da energia e automatizar processos de liquidação.
Carvalho destacou que a tecnologia também pode modificar a forma como contratos e transações são executados no ambiente energético: “A blockchain pode permitir registros mais seguros e transparentes, além de contratos inteligentes capazes de automatizar pagamentos, liquidações e compensações entre os agentes do mercado.”
Os chamados smart contracts funcionam a partir de regras previamente programadas e podem executar determinadas etapas de uma operação automaticamente quando as condições estabelecidas são atendidas. No setor elétrico, a aplicação pode alcançar processos de contratação, certificação, pagamentos e compensações.
A adoção em escala, entretanto, exige interoperabilidade entre plataformas, padrões técnicos e segurança cibernética, além de definição clara sobre responsabilidades e validade jurídica dos registros digitais.
Blockchain também avança sobre biometano
A digitalização não se limita à eletricidade. O avanço das tecnologias de registro e rastreabilidade também alcança mercados de gás natural, biometano e combustíveis renováveis. Durante o painel, os participantes discutiram a Lei do Combustível do Futuro, de 2024, seu decreto regulamentador de 2025 e o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano.
Nesse ambiente, o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) aparece como um instrumento relevante para comprovar a origem renovável do combustível. A digitalização dos registros pode contribuir para aumentar a transparência das transações e facilitar o acompanhamento da cadeia de produção e comercialização.
A convergência entre eletricidade, gás natural, biometano e créditos ambientais amplia a importância da infraestrutura digital. Diferentes produtos energéticos passam a depender de mecanismos de certificação, rastreabilidade e gestão de dados para comprovar atributos ambientais e viabilizar novos mercados.
Governança será determinante para expansão
Apesar do potencial tecnológico, a aplicação de blockchain e IA no setor energético depende de uma estrutura de governança capaz de acompanhar a velocidade das inovações. A necessidade de integração entre empresas, reguladores, fornecedores de tecnologia e demais agentes foi apontada como um dos principais desafios para a expansão das soluções digitais.
Carvalho avaliou que o próximo estágio da transformação passa justamente pela construção desse ambiente institucional e tecnológico: “O desafio agora é aproximar inovação, regulação e os agentes do setor para construir um ambiente seguro, interoperável e transparente, capaz de acompanhar a velocidade da transformação tecnológica.”
A preocupação ganha relevância à medida que sistemas digitais passam a assumir funções críticas na operação de ativos e na realização de transações. Quanto maior a integração entre plataformas, maior também a necessidade de padrões comuns, mecanismos de segurança e regras para tratamento e compartilhamento de dados.
Tecnologia deixa fase experimental
A discussão sobre blockchain no setor energético brasileiro não é recente. Carvalho idealizou o 1º Fórum Brasileiro Blockchain em Energia, realizado em 2019, e participou de iniciativas relacionadas à aplicação da tecnologia no segmento.
A diferença agora está no ambiente em que essas soluções avançam. A combinação entre amadurecimento tecnológico, maior disponibilidade de dados e evolução regulatória cria condições para que aplicações antes restritas a projetos experimentais sejam incorporadas a processos comerciais e operacionais.
Para o setor elétrico, a tendência ocorre simultaneamente à transformação do modelo de operação. A expansão da geração distribuída, o crescimento das fontes renováveis variáveis, o armazenamento de energia e a abertura do mercado exigem maior capacidade de processamento de informações e coordenação entre agentes.
Nesse contexto, blockchain e inteligência artificial podem atuar de formas distintas, mas complementares: enquanto a IA amplia a capacidade de análise, previsão e automação, a blockchain pode reforçar mecanismos de registro, rastreabilidade e validação de transações.
O avanço dessas tecnologias, portanto, não representa apenas uma mudança nos sistemas utilizados pelas empresas. A tendência é que a digitalização passe a influenciar a própria arquitetura dos mercados de energia, criando novas formas de administrar ativos, certificar atributos ambientais e executar operações.



