Relatório da OLACDE mostra avanço de 20% na produção regional de petróleo em 2025, impulsionado por Brasil e Guiana, enquanto China consolida liderança como principal destino das exportações latino-americanas
A América Latina e o Caribe reforçaram sua relevância estratégica no mercado global de hidrocarbonetos em 2025. Dados divulgados pela Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (OLACDE) apontam que a região respondeu por aproximadamente 11% da oferta mundial de petróleo e quase 6% da produção global de gás natural, em um cenário marcado pela expansão acelerada da Guiana, pela consolidação do Brasil como principal produtor regional e pela manutenção do peso do México no equilíbrio energético continental.
O levantamento, publicado no relatório “Panorama 2025: Produção e Comércio Exterior de Petróleo e Gás Natural na América Latina e no Caribe”, revela que a produção regional de petróleo avançou 20% em relação a 2024, enquanto a produção de gás natural registrou crescimento de 10%. O desempenho ocorre em meio à reorganização geopolítica do comércio internacional de energia e ao aumento da demanda asiática por petróleo bruto latino-americano.
A análise da OLACDE reforça que, apesar do avanço das fontes renováveis e da eletrificação em diversos países, os combustíveis fósseis continuarão exercendo papel estrutural na matriz energética regional nas próximas décadas. A projeção da entidade indica que petróleo e gás natural deverão manter participação próxima de 26% cada na matriz energética primária da América Latina e do Caribe até meados do século.
Brasil e Guiana lideram nova dinâmica petrolífera regional
O relatório mostra que a expansão da produção petrolífera regional foi fortemente influenciada pela entrada de novos volumes da Guiana, que vem se consolidando como uma das fronteiras offshore mais promissoras do mundo. Paralelamente, o Brasil ampliou sua liderança regional sustentado pela expansão contínua da produção no pré-sal da Bacia de Santos.
Segundo a OLACDE, Brasil, México, Colômbia, Venezuela, Argentina, Guiana e Equador concentram 87% de toda a produção de hidrocarbonetos da América Latina e Caribe, evidenciando a forte concentração geográfica do setor energético regional.
O movimento também reflete a crescente competitividade do petróleo latino-americano no mercado internacional, especialmente em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimento energético e de busca por diversificação de fornecedores fora do eixo tradicional do Oriente Médio.
China amplia influência sobre exportações da região
O relatório evidencia uma mudança estrutural no eixo comercial do petróleo latino-americano. Em 2025, cerca de 46% da produção regional foi destinada à exportação, com a China absorvendo 31% de todo o comércio exterior de petróleo da região, consolidando-se como principal comprador.
Os Estados Unidos aparecem na sequência, com participação de 18%, enquanto a União Europeia respondeu por 15% das exportações regionais. O avanço chinês reforça a crescente integração da América Latina aos mercados asiáticos, tendência que vem se intensificando nos últimos anos em razão da demanda industrial e da necessidade de segurança energética da economia chinesa.
Além do petróleo bruto, o relatório aponta que a dinâmica comercial regional passou a refletir uma estratégia mais agressiva de inserção internacional dos produtores sul-americanos, principalmente diante do aumento da produção offshore em águas profundas.
Gás natural mantém dependência estrutural dos Estados Unidos
Embora a produção regional de gás natural tenha avançado 10% em 2025, a América Latina ainda apresenta elevada dependência de suprimentos externos, sobretudo do mercado norte-americano.
A OLACDE destaca que 59% das importações regionais de gás natural vieram dos Estados Unidos, principalmente em função do abastecimento do México. O dado evidencia a forte integração energética da América do Norte, especialmente através da infraestrutura de gasodutos transfronteiriços e do comércio de gás natural liquefeito (GNL).
A Argentina e Trinidad e Tobago continuam desempenhando papel estratégico como exportadores regionais de gás. No caso específico do GNL, Trinidad permanece como principal polo exportador intrarregional, enquanto o Brasil ampliou sua presença em mercados internacionais, com embarques direcionados principalmente à Turquia.
De acordo com o relatório, 39% das exportações regionais de gás natural foram destinadas ao mercado turco, enquanto 36% permaneceram dentro da própria América Latina e Caribe. Outros 24% seguiram para mercados asiáticos, excluindo a China.
Transição energética convive com expansão fóssil
Apesar do crescimento das renováveis na matriz elétrica latino-americana, a OLACDE avalia que o petróleo e o gás natural continuarão sendo fundamentais para a segurança energética regional, especialmente nos segmentos industriais, de transporte pesado e geração termelétrica.
O estudo destaca que o transporte, a petroquímica e parte da geração elétrica ainda apresentam forte dependência de combustíveis fósseis, o que reduz a velocidade de substituição estrutural dessas fontes.
Ao mesmo tempo, o avanço da produção offshore, o crescimento do gás natural como combustível de transição e a expansão das exportações reforçam a importância econômica do setor de hidrocarbonetos para receitas fiscais, balança comercial e atração de investimentos estrangeiros.
A leitura predominante no setor é de que a América Latina viverá uma transição energética híbrida nas próximas décadas, combinando expansão renovável com aumento da produção de petróleo e gás em mercados considerados competitivos globalmente.
Nesse contexto, Brasil e Guiana despontam como protagonistas da nova geopolítica energética regional, enquanto países produtores buscam equilibrar metas climáticas, segurança energética e geração de receitas em um ambiente internacional cada vez mais pressionado pela agenda de descarbonização.
Para agentes do setor energético, o relatório da OLACDE reforça que a América Latina seguirá ocupando posição estratégica no fornecimento global de hidrocarbonetos, especialmente diante das incertezas geopolíticas internacionais e da crescente demanda asiática por energia.
A principal questão para os próximos anos será como a região conseguirá monetizar sua expansão fóssil sem comprometer os compromissos climáticos assumidos nos fóruns internacionais de transição energética.



