Governo estabelece meta mínima de resíduos para biocombustíveis e acelera agenda de SAF e diesel verde

Nova portaria define uso obrigatório de óleos e gorduras residuais na produção de biodiesel, combustível sustentável de aviação e HVO a partir de 2028

O governo federal deu mais um passo na regulamentação da Lei do Combustível do Futuro ao estabelecer metas mínimas para utilização de óleos e gorduras residuais (OGR) na produção de biocombustíveis avançados no Brasil.

Publicada nesta terça-feira (13/5) pelos Ministérios de Minas e Energia (MME) e do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a Portaria Interministerial nº 3/2026 fixa percentual mínimo de 1% de resíduos, como óleo de cozinha usado e outras gorduras residuais, em relação ao total de matérias-primas renováveis utilizadas na fabricação de biodiesel, diesel verde (HVO) e combustível sustentável de aviação (SAF).

A medida cria um novo marco regulatório para o aproveitamento energético de resíduos no setor de transportes e reforça a estratégia brasileira de descarbonização baseada em economia circular, reaproveitamento de passivos ambientais e ampliação da oferta de combustíveis de baixo carbono.

- Advertisement -

O cronograma estabelecido pelo governo prevê período de adaptação para a indústria. Entre 2026 e 2027, o cumprimento da meta será voluntário. A obrigatoriedade entra em vigor a partir de 1º de janeiro de 2028.

A avaliação do mercado é que a iniciativa antecipa uma reorganização estrutural da cadeia de coleta, rastreabilidade e processamento de resíduos oleosos no país, especialmente diante da expectativa de crescimento acelerado da demanda por SAF e HVO nos próximos anos.

Governo amplia foco da transição energética para economia circular

A regulamentação do uso de OGR representa uma mudança importante na estratégia nacional de biocombustíveis. Até agora, a expansão da produção brasileira esteve fortemente associada ao uso de matérias-primas agrícolas convencionais, como soja, cana-de-açúcar e milho. Com a nova política, o governo passa a incentivar explicitamente o reaproveitamento de resíduos urbanos e industriais como insumo energético.

A medida aproxima o Brasil das principais diretrizes internacionais de combustíveis sustentáveis, especialmente no segmento de aviação e transporte pesado, onde cresce a pressão global por redução da intensidade de carbono.

- Advertisement -

No caso do SAF, o uso de resíduos é considerado um dos principais caminhos para atender critérios internacionais de sustentabilidade exigidos por companhias aéreas, investidores e programas regulatórios internacionais.

Além do componente ambiental, o aproveitamento de óleos residuais reduz dependência de matérias-primas virgens e fortalece a diversificação da cadeia nacional de biocombustíveis.

ANP terá papel central na fiscalização e rastreabilidade

Com a publicação da portaria, o próximo passo regulatório ficará sob responsabilidade da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A agência deverá regulamentar os mecanismos de comprovação, rastreabilidade, monitoramento e fiscalização do cumprimento das metas.

O desafio regulatório é considerado relevante porque o mercado brasileiro de coleta e destinação de óleo residual ainda opera de forma pulverizada e, em grande parte, informal. A expectativa do governo e da indústria é que a obrigatoriedade futura estimule investimentos em logística reversa, sistemas de coleta estruturados, pré-tratamento de resíduos e certificação da cadeia de fornecimento.

O avanço dessa infraestrutura é tratado como condição essencial para garantir escala industrial e segurança operacional à produção de combustíveis avançados, especialmente no caso do SAF, cuja especificação técnica exige elevado grau de controle sobre origem e qualidade das matérias-primas.

Medida também mira impactos ambientais no saneamento

A política de aproveitamento energético de resíduos gordurosos possui efeitos que vão além do setor de combustíveis. O descarte irregular de óleo de cozinha é considerado um dos principais problemas operacionais dos sistemas urbanos de saneamento, provocando entupimentos de redes de esgoto, aumento de custos de manutenção e contaminação de corpos hídricos.

Ao transformar esse resíduo em insumo energético, o governo busca reduzir impactos ambientais urbanos e estimular a criação de uma cadeia estruturada de reaproveitamento. A medida também incorpora dimensão social relevante dentro da agenda da transição energética.

A portaria reconhece cooperativas e associações de catadores como agentes estratégicos para organização da cadeia de fornecimento de OGR, criando potencial de inclusão socioeconômica dentro do mercado de combustíveis renováveis.

Nos bastidores do setor, a avaliação é que o avanço da economia circular pode gerar novas oportunidades de renda, formalização e integração produtiva para segmentos historicamente marginalizados da cadeia de resíduos.

SAF e diesel verde ampliam protagonismo no Brasil

A regulamentação chega em um momento de forte expansão das discussões globais sobre combustíveis sustentáveis para aviação e transporte pesado. O SAF é apontado atualmente como uma das principais alternativas para redução das emissões da aviação comercial, segmento considerado de difícil descarbonização.

Já o diesel verde (HVO) ganha espaço como solução de baixo carbono para substituição parcial do diesel fóssil em veículos pesados, logística e operações industriais. Com elevada disponibilidade de biomassa, resíduos agroindustriais e capacidade agrícola, o Brasil é visto como um dos países com maior potencial competitivo para produção desses combustíveis em larga escala.

Ao incorporar resíduos à estratégia nacional de biocombustíveis, o país fortalece sua posição como fornecedor global de soluções energéticas de baixo carbono e amplia o alinhamento às metas internacionais de transição energética.

A regulamentação também sinaliza ao mercado que o governo pretende consolidar uma política de longo prazo para combustíveis renováveis avançados, criando previsibilidade regulatória para novos investimentos industriais no setor.

Destaques da Semana

Brasil condiciona acordo com EUA sobre terras raras à aprovação de marco legal no Senado

Governo busca acelerar parceria estratégica com os Estados Unidos...

Câmara aprova marco dos minerais críticos e coloca Brasil na corrida global da transição energética

Projeto cria política nacional para terras raras e minerais...

Petrobras garante R$ 4,5 bi anuais com térmicas e assegura expansão do gás em Sergipe

Contratação total de usinas no leilão de reserva e...

GD + Armazenamento + Mercado Livre: o triângulo que pode redesenhar a tarifa

Por Marcelo Figueiredo, CEO da Iquira Energy Innovation O debate...

Artigos

Últimas Notícias