Por Ricardo Cifu, Vice-presidente para América Latina na GEF Capital Partners
A contratação de armazenamento em baterias pode destravar mais de R$ 10 bilhões em investimentos e indicar se o Brasil está preparado para integrar novas tecnologias ao sistema elétrico
Discutir o sistema elétrico pode parecer algo técnico e distante, mas, na prática, a forma como o setor é planejado impacta diretamente a dinâmica para os consumidores e, mais do que isso, a captação de novos investimentos para o país. É um fato que o Brasil já é um protagonista global em energia limpa, mas corremos o risco de travar o desenvolvimento da nossa própria economia verde se não resolvermos as incertezas regulatórias.
Nesse cenário, o Leilão de Reserva de Capacidade, previsto para acontecer em breve, merece atenção especial. Para entender sua importância, basta pensar nele como uma espécie de seguro para a nossa rede elétrica. Diferente dos leilões comuns, que contratam a energia que usamos no dia a dia, este foca na potência: ele contrata usinas e sistemas que ficam de prontidão para entrar em ação em momentos críticos do sistema que acontecem diariamente, como picos de demanda e vales de geração. É o mecanismo que garante que o país tenha uma reserva imediata para evitar apagões e o chamado curtailment, cenário no qual estamos, literalmente, jogando energia limpa fora.
E essa iniciativa surge justamente em um momento que é preciso mudarmos a forma como garantimos essa segurança. Isso porque, por muito tempo, o Brasil contou com uma bateria natural: os reservatórios das hidrelétricas, que equilibravam o sistema com relativa facilidade. Só que essa realidade mudou. Hoje, temos um esgotamento do potencial de novas hidrelétricas de grande escala e uma expansão enorme de fontes renováveis, como solar e eólica, mas que são intermitentes e altamente dependentes do clima. Ou seja, o sol se põe e o vento nem sempre sopra quando o consumo dispara – isso ficou evidente, como por exemplo, no apagão que a Espanha sofreu em 2025 – o sistema precisa de inércia que hidrelétricas, termelétricas e baterias conseguem prover, mas que solar e eólicas ficam devendo. É por isso que tecnologias de armazenamento de energia, como as baterias, passaram a ser centrais em todo o mundo para cumprir esse papel de reserva que antes era exclusivo das águas e térmicas.
Mas o que acontece a partir disso? Esse é um ponto relevante, porque estamos enxergando possibilidades econômicas importantes para o país e isso começa na expectativa de contratação de cerca de 8-10 GWh de armazenamento em forma de baterias. Em termos de investimento, estamos falando de um potencial de mais de R$10 bilhões em novos projetos para o Brasil.
Mas o significado disso também vai além do dinheiro. O leilão é um teste para a nossa capacidade de atualizar as regras do jogo. Hoje, um grande obstáculo para esse recurso entrar no país não é a falta de tecnologia, mas a indefinição regulatória com as sucessivas postergações do leilão e a indefinição sobre modelos de contratação. O capital que busca previsibilidade acaba represado à espera de uma definição.
Se essa contratação vier acompanhada de avanços nas regras para o armazenamento, podemos destravar investimentos relevantes e acelerar a modernização do nosso sistema elétrico. Do contrário, continuaremos presenciando a inovação acontecer lá fora enquanto o Brasil permanece em compasso de espera.
Não podemos esquecer que o capital é global e ágil, ainda mais em tempos de elevada incertezas geopolíticas e que afetam também os custos e disponibilidades de operação de termelétricas. Por esse ponto de vista, o leilão representa uma oportunidade enorme de trazer maior segurança e resiliência para o setor e país, além de incentivar as energias renováveis e a redução de emissões de CO2.
No fim das contas, essa discussão não é apenas sobre fios ou baterias. É sobre o crescimento das empresas, sobre a conta de luz das famílias, descarbonização e sobre a segurança energética do Brasil. O futuro da nossa energia precisa ser construído com a agilidade e importância que o tema merece.


