Pesquisas do Serviço Geológico do Brasil identificam concentrações elevadas de neodímio e térbio entre São Paulo e Paraná, ampliando o potencial estratégico do país na cadeia de tecnologias limpas
O Brasil avançou em uma das agendas mais estratégicas da nova economia energética global: a identificação de minerais críticos para a transição energética. Pesquisas conduzidas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) no Cinturão Ribeira revelaram concentrações expressivas de elementos terras raras (ETR) em áreas localizadas entre os estados de São Paulo e Paraná, reforçando o potencial do país para ocupar uma posição relevante na cadeia global de suprimentos de tecnologias limpas.
Os resultados fazem parte da terceira etapa de campo do projeto “Avaliação do Potencial de Terras Raras no Brasil”, concluída em abril. A iniciativa busca ampliar o conhecimento geológico sobre minerais considerados essenciais para setores como mobilidade elétrica, geração renovável, defesa, semicondutores e indústria de alta tecnologia.
A descoberta ganha relevância em um momento de forte disputa global por minerais críticos, impulsionada pela expansão da eletromobilidade, pelo avanço da inteligência artificial e pelo crescimento da geração eólica e solar em larga escala.
Concentrações elevadas colocam área em destaque
As análises geoquímicas e geofísicas realizadas pelo SGB identificaram concentrações superiores a 8.000 ppm (partes por milhão) de terras raras em algumas amostras coletadas no Cinturão Ribeira, valor considerado elevado para esse tipo de ocorrência mineral.
O projeto priorizou áreas previamente selecionadas a partir do Mapa de Potencial de ETR da Faixa Ribeira e da Faixa Brasília Meridional, utilizando técnicas modernas de investigação mineral para reduzir riscos exploratórios e direcionar futuras campanhas de investimento.
O pesquisador do SGB, Guilherme Iolino Troncon Guerra, afirma que os primeiros resultados ampliam significativamente o interesse técnico sobre a região: “Os primeiros resultados são bastante promissores, com a identificação de concentrações bastante elevadas de ETR em diferentes pontos estudados. Em algumas amostras, os teores totais ultrapassam 8.000 ppm (partes por milhão) de TREE (somatória de todos os elementos terras raras), valores considerados altos para esse tipo de ocorrência e que indicam um enriquecimento expressivo.”
Além da concentração total dos elementos, os estudos identificaram presença relevante de minerais magnéticos de alto valor agregado, considerados críticos para a indústria energética global.
Neodímio e térbio ampliam valor estratégico da descoberta
O principal diferencial das ocorrências identificadas está na presença de elementos terras raras magnéticos (MREE), especialmente neodímio e térbio, minerais essenciais para a produção de ímãs permanentes de alta performance. Esses componentes são utilizados em turbinas eólicas, motores elétricos, sistemas de armazenamento, equipamentos eletrônicos e tecnologias ligadas à descarbonização da economia.
Atualmente, a cadeia global de terras raras é altamente concentrada, com forte dependência da produção e do processamento asiático, principalmente da China. Nesse cenário, novas reservas fora desse eixo geopolítico passaram a ser consideradas estratégicas por governos e investidores.
Guilherme Guerra destaca que as amostras encontradas no Brasil possuem perfil compatível com os minerais mais demandados pela indústria tecnológica: “Guerra reforça que há também concentrações superiores a 3.000 ppm de elementos terras raras magnéticos (MREE), como neodímio e térbio em algumas áreas. Justamente esses são os mais valorizados no mercado por seu uso na fabricação de ímãs de alto desempenho, essenciais para tecnologias como motores elétricos e geração de energia renovável.”
Brasil tenta avançar na cadeia de minerais críticos
A identificação de novas ocorrências de terras raras ocorre em um momento em que o Brasil busca ampliar sua participação no mercado global de minerais estratégicos.
Embora o país possua reservas relevantes de diversos minerais críticos, ainda enfrenta desafios relacionados à industrialização da cadeia, processamento mineral, segurança regulatória e agregação de valor tecnológico.
O avanço das pesquisas do SGB pode funcionar como catalisador para futuras rodadas de investimentos privados em mineração e processamento de minerais voltados à transição energética.
Além do potencial econômico, a agenda também ganhou dimensão geopolítica. Estados Unidos, União Europeia e Japão vêm buscando diversificar fornecedores de minerais críticos para reduzir dependência externa em cadeias consideradas estratégicas para segurança energética e industrial.
Próxima etapa amplia mapeamento em São Paulo
As atividades mais recentes do projeto abrangeram municípios paulistas como Itupeva, Alumínio, Capão Bonito, Jacupiranga, além de áreas no Paraná e em Santa Catarina, incluindo Cerro Azul, Castro, Joinville e Garuva.
A próxima etapa das pesquisas será realizada ainda em 2026 e contemplará novas áreas em Sete Barras, Tapiraí, Piedade e Natividade da Serra, em São Paulo. O objetivo do Serviço Geológico do Brasil é aprofundar o detalhamento dos mapas de favorabilidade mineral e disponibilizar novos produtos técnicos que auxiliem políticas públicas e decisões de investimento.
A expectativa do setor é que o avanço do mapeamento fortaleça a posição brasileira na corrida global por minerais críticos, ampliando o protagonismo do país em cadeias ligadas à transição energética, eletrificação e tecnologias de baixo carbono.



