Novo relatório internacional revela salto nas patentes de descarbonização para caminhões e ônibus, mas alerta para gargalo de infraestrutura e concentração tecnológica em poucos países
O transporte rodoviário pesado entrou definitivamente no radar da transição energética global. Um novo relatório lançado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual e pela Agência Internacional de Energia Renovável durante a Cúpula do Fórum Internacional de Transportes, em Leipzig, na Alemanha, mostra que as tecnologias voltadas à descarbonização de caminhões e ônibus vêm atravessando um ciclo de inovação sem precedentes, puxado principalmente pela eletrificação e pelo avanço do hidrogênio.
O estudo “Patent Landscape Report on Heavy-Duty Road Transport Decarbonization” mapeou mais de 158 mil famílias de patentes registradas entre 2000 e 2024 em quatro grandes eixos tecnológicos: fontes de energia de baixa emissão, infraestrutura energética, eficiência veicular e digitalização de frotas. O levantamento contou ainda com contribuições da International Road Transport Union e do World Economic Forum.
Os dados reforçam que a descarbonização do transporte pesado deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar uma disputa estratégica de inovação industrial, segurança energética e liderança tecnológica entre países e montadoras globais.
Caminhões e ônibus entram no centro da transição energética
Apesar de historicamente menos visível que o segmento de veículos leves, o transporte rodoviário pesado concentra uma parcela relevante das emissões globais. O relatório destaca que caminhões e ônibus respondem, respectivamente, por cerca de 31% e 9% das emissões do setor de transportes, enquanto o transporte de cargas consome aproximadamente 40% de toda a energia utilizada no segmento.
O problema ganha maior relevância diante da forte dependência de combustíveis fósseis. Atualmente, cerca de 94% do transporte pesado mundial ainda opera com diesel e derivados de petróleo.
Nesse contexto, o relatório aponta que o volume de patentes ligadas à descarbonização cresceu de apenas 7% do total de registros do setor em 2000 para aproximadamente 20% em 2024, demonstrando uma mudança estrutural na direção dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
Eletrificação domina corrida tecnológica
As baterias elétricas surgem como a principal aposta tecnológica da indústria global. Em 2024, as soluções de eletrificação representaram sozinhas 73% de todas as patentes relacionadas a fontes de energia de baixa emissão no transporte pesado.
O avanço não ficou restrito aos veículos. A infraestrutura energética associada também apresentou forte aceleração. As patentes ligadas a carregamento elétrico e redes inteligentes cresceram mais de 2.200% no período analisado, refletindo a necessidade de adaptação sistêmica para suportar a nova demanda energética.
O movimento acompanha a estratégia de governos e montadoras para acelerar a substituição gradual do diesel em operações urbanas, corredores logísticos e sistemas de transporte coletivo. Ainda assim, o relatório alerta que a expansão tecnológica não vem sendo acompanhada no mesmo ritmo pela infraestrutura física necessária para sustentar a transição.
Hidrogênio ganha espaço em aplicações de longa distância
Embora ainda distante da escala alcançada pelas baterias, o hidrogênio começa a consolidar espaço estratégico no transporte pesado, especialmente em operações de longa distância.
Segundo o levantamento, as patentes relacionadas a células de combustível e infraestrutura de hidrogênio praticamente dobraram entre 2019 e 2024. A expectativa é de que a tecnologia atue de forma complementar à eletrificação, principalmente em rotas onde autonomia, peso das baterias e tempo de recarga continuam sendo desafios operacionais relevantes.
A avaliação técnica apresentada pela IRENA indica que o hidrogênio poderá ocupar nichos específicos da logística pesada, dependendo da evolução dos custos de produção, distribuição e abastecimento.
China lidera inovação; Índia acelera crescimento
O relatório também escancara a concentração geográfica da inovação no setor. A China aparece como líder absoluta em volume de patentes, saltando de apenas 11 registros anuais em 2000 para cerca de 7,3 mil em 2024. Na sequência aparecem Estados Unidos, Japão, Alemanha e Coreia do Sul, consolidando um eixo tecnológico dominado por grandes potências industriais.
A Alemanha e a Suécia foram destacadas pela elevada especialização em tecnologias voltadas ao transporte pesado, refletindo o peso histórico de suas fabricantes de caminhões e ônibus no mercado global. Já a Índia desponta como o país com maior ritmo de crescimento em novas tecnologias, impulsionada principalmente por programas públicos de eletrificação de ônibus urbanos.
Montadoras ampliam domínio tecnológico
O estudo mostra que a corrida pela descarbonização está fortemente concentrada nas grandes montadoras globais. A Toyota lidera o ranking global de patentes, seguida por Volkswagen, Hyundai, Ford e General Motors.
O levantamento chama atenção para outro dado relevante: nenhuma universidade ou instituição pública aparece entre os principais detentores de patentes, evidenciando o caráter altamente industrial e corporativo da inovação nesse segmento.
Infraestrutura ainda é principal gargalo
Embora o ambiente tecnológico avance rapidamente, o relatório destaca que a infraestrutura continua sendo o principal obstáculo para a descarbonização em larga escala.
Dados citados do Conselho Internacional de Transporte Limpo apontam que apenas a União Europeia precisará instalar entre 60 mil e 80 mil carregadores públicos para veículos pesados até 2030. Atualmente, existem cerca de 1,5 mil unidades em operação.
A análise da IRENA conclui que a eletrificação tende a permanecer como principal vetor da transição no curto e médio prazo, mas reforça que o sucesso dependerá de políticas públicas coordenadas, expansão da infraestrutura elétrica, novos modelos de negócios e desenvolvimento de mão de obra qualificada.
O relatório também destaca que operadores logísticos e transportadoras ainda enfrentam desafios relacionados a custos operacionais, financiamento, autonomia energética e adaptação de frotas, fatores que podem definir a velocidade real da transformação global do transporte pesado.



