Estudo do MBC e da Pezco Economics mostra que país produz quase três vezes mais gás do que consegue entregar ao mercado; reinjeção offshore já alcança 58,8% e trava redução estrutural dos preços
O avanço da produção de gás natural no Brasil começa a expor, de forma mais evidente, um dos principais gargalos estruturais da infraestrutura energética nacional. Embora o país tenha alcançado níveis recordes de extração, boa parte desse volume permanece distante do mercado consumidor devido às limitações de escoamento, processamento e transporte.
Levantamento divulgado pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) em parceria com a Pezco Economics aponta que o Brasil produziu, em média, 179 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia em 2025. No entanto, apenas 61,92 milhões de m³/dia chegaram efetivamente ao mercado. O restante ficou retido em reinjeção, consumo operacional ou limitações logísticas da cadeia.
O resultado é um paradoxo energético: o país amplia rapidamente sua produção no pré-sal, mas continua convivendo com preços elevados para a indústria e consumidores finais. Em 2025, o gás natural industrial foi comercializado a uma média de US$ 11,32 por milhão de BTUs (MMBTU), valor significativamente acima de mercados mais competitivos.
As projeções do Ministério de Minas e Energia (MME), porém, indicam que o insumo poderia atingir a faixa de US$ 7 por MMBTU caso os gargalos de infraestrutura fossem solucionados.
Reinjeção cresce e evidencia limitações da infraestrutura
O principal desafio da cadeia brasileira está na incapacidade de transformar produção em oferta efetiva. Sem capacidade suficiente de processamento e transporte, operadores acabam reinjetando parte relevante do gás nos reservatórios para manter a pressão dos campos e otimizar a produção de petróleo.
Em 2024, a reinjeção offshore atingiu 58,8% da produção marítima, enquanto nas operações terrestres o índice chegou a 29,4%. A avaliação da Pezco Economics é que o problema deixou de ser geológico ou produtivo e passou a ser essencialmente logístico.
Ao analisar o impacto dessa restrição na competitividade do setor, Maria Eduarda de Paula Fernandes, da Pezco Economics, destaca que o crescimento da produção, sozinho, não resolve o problema estrutural do mercado: “O Brasil já alcançou um nível de produção expressivo, mas o problema é que boa parte desse gás não chega ao mercado. Enquanto os gargalos de escoamento e processamento não forem resolvidos, o aumento da produção não se converte em energia mais barata para a indústria nem para o consumidor final.”
O diagnóstico reforça uma preocupação recorrente da indústria: o país possui reservas abundantes, mas ainda não consolidou uma infraestrutura capaz de transformar esse potencial em competitividade econômica.
Concentração regional pressiona competitividade
O estudo também aponta que a dinâmica concorrencial varia significativamente entre as regiões brasileiras. O Nordeste aparece hoje como o mercado mais competitivo do país, com a participação da Petrobras reduzida a 29%. Já o Norte mantém forte concentração estatal, enquanto Sul e Sudeste ainda apresentam baixa diversificação de agentes na cadeia de suprimento.
As diferenças estruturais refletem diretamente nos preços praticados no mercado não térmico. Enquanto o Norte-Nordeste registrou média de R$ 64,20/MMBTU, o Sul-Centro-Oeste operou em torno de R$ 70,10/MMBTU.
Para o conselheiro executivo do MBC, Rogério Caiuby, o desafio agora deixou de ser ampliar produção e passou a ser garantir eficiência logística e competitividade ao sistema: “O Brasil já mostrou que consegue aumentar a produção. Agora, o desafio é fazer esse gás chegar ao mercado de forma competitiva, ampliando o acesso e reduzindo custos para consumidores e empresas.”
Rota 3 amplia capacidade, mas pressão do pré-sal continua
Parte desse desequilíbrio começou a ser enfrentada com a entrada em operação plena do Sistema Integrado Rota 3 e da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) Boaventura, em Itaboraí (RJ). A infraestrutura adicionou 21 milhões de m³/dia à capacidade nacional de processamento em maio de 2025. Ainda assim, o avanço acelerado da produção do pré-sal já exige novos investimentos em gasodutos, terminais e unidades de processamento.
Além da expansão física da malha, o setor também cobra avanços regulatórios para garantir maior acesso de terceiros às UPGNs e terminais de escoamento. A falta de transparência contratual e a ausência de benchmarks consolidados continuam sendo apontadas como entraves para o amadurecimento do mercado brasileiro de gás natural. Na avaliação do MBC, o elo entre escoamento e processamento concentra atualmente o maior potencial de redução estrutural de custos da cadeia.
Ao detalhar os caminhos para destravar a competitividade do gás nacional, Rogério Caiuby reforça que a agenda regulatória será tão importante quanto os investimentos em infraestrutura: “O elo de escoamento e processamento é justamente o que concentra um dos maiores potenciais de redução de custos da cadeia do gás natural no Brasil. Ampliar a infraestrutura, destravar regulações e aumentar a transparência do mercado será decisivo para transformar o aumento da produção em gás mais competitivo, maior segurança energética e preços mais acessíveis no médio prazo.”
Gás competitivo se torna peça-chave para indústria e transição energética
A redução estrutural do preço do gás natural é considerada estratégica para diversos setores da economia. Além de ampliar a competitividade industrial, o insumo é visto como combustível de transição fundamental para garantir segurança energética, complementaridade às renováveis e redução de emissões em segmentos de difícil eletrificação.
O avanço da produção no pré-sal criou uma oportunidade inédita para o Brasil consolidar um mercado de gás mais robusto e competitivo. No entanto, a ausência de infraestrutura adequada ainda impede que essa expansão se converta em ganhos concretos para consumidores, indústria e geração térmica.
O desafio do setor agora passa menos pela disponibilidade de molécula e mais pela capacidade do país de conectar produção, processamento e consumo em uma cadeia eficiente e integrada.



