Nova lei fortalece o uso de etanol e amplia o marco regulatório dos combustíveis limpos, mas eletrificação ganha fôlego e deve liderar a mobilidade no longo prazo
Enquanto o Brasil reforça sua política de incentivo aos biocombustíveis com a nova Lei do Combustível do Futuro, as vendas de veículos elétricos (VEs) crescem de forma acelerada e indicam uma mudança estrutural no modelo de mobilidade do país. Segundo projeções da BloombergNEF, os carros elétricos superarão os veículos a combustão nas vendas nacionais até 2038, mesmo com o fortalecimento da agenda dos biocombustíveis.
A nova legislação, formalizada como Lei nº 14.993/2024, entrou em vigor em 1º de agosto e elevou a mistura obrigatória de etanol na gasolina de 27% para 30%, com possibilidade de ampliação para até 35%, dependendo da viabilidade técnica. O objetivo central da medida é posicionar os biocombustíveis como instrumento chave para a descarbonização do setor de transportes brasileiro, uma das áreas mais críticas para a meta de neutralidade de carbono.
Demanda por etanol pode crescer 1,6 bilhão de litros até 2026
A nova proporção obrigatória de mistura pode gerar um acréscimo de 1,6 bilhão de litros na demanda por etanol já em 2026, o que representa um impulso importante para o setor sucroenergético nacional. Além disso, a legislação também contempla incentivos ao uso de biodiesel, biometano e combustível sustentável de aviação (SAF), criando um marco regulatório mais abrangente para a transição energética nos transportes.
A história do etanol no Brasil remonta a meados dos anos 1970, quando o país lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), como resposta ao choque do petróleo. Meio século depois, o Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2024, quase 80% dos carros de passeio vendidos no Brasil são modelos flex, capazes de rodar com qualquer mistura de gasolina e etanol, o que demonstra a consolidação da tecnologia no mercado interno.
Veículos elétricos dobram vendas e ganham espaço
Apesar da força dos biocombustíveis, o crescimento dos veículos elétricos no Brasil vem chamando atenção. As vendas praticamente dobraram entre 2023 e 2024, segundo levantamento da BloombergNEF. Ainda que a participação de mercado dos VEs seja pequena no momento, a tendência de expansão é clara, impulsionada por mudanças regulatórias, incentivos fiscais estaduais e avanço da infraestrutura de recarga.
De acordo com o Cenário de Transição Econômica da BloombergNEF, a eletrificação da frota leve vai ultrapassar o modelo a combustão até 2038, marcando uma nova era para a mobilidade urbana no Brasil. O avanço será gradual, com a penetração dos modelos híbridos flex e híbridos plug-in (PHEV) como fases intermediárias até a consolidação dos 100% elétricos (BEVs).
Montadoras apostam em múltiplas tecnologias
A resposta da indústria automotiva ao cenário brasileiro de transição energética tem sido a diversificação. A Toyota, por exemplo, lançou o primeiro modelo híbrido flex do país em 2019. Já a BYD planeja iniciar a produção local de seu modelo PHEV flex até o final de 2025. Esses veículos, que combinam motor elétrico, bateria recarregável e possibilidade de abastecimento com etanol, estão se consolidando como solução de transição viável e com baixa emissão de carbono.
“Ao alinhar eletrificação e uso de biocombustíveis, o Brasil adota uma estratégia híbrida única no mundo”, afirmam os analistas da BloombergNEF. Essa abordagem pode ampliar as opções tecnológicas disponíveis aos consumidores e permitir que a descarbonização do transporte ocorra de forma escalável, respeitando as particularidades da matriz energética e da infraestrutura nacional.
Etanol e eletrificação: caminhos complementares
Apesar das possíveis tensões entre defensores dos biocombustíveis e da eletrificação, os analistas destacam que as duas rotas não são mutuamente excludentes. Pelo contrário, podem coexistir e se complementar, sobretudo em um país com grande disponibilidade de biomassa e crescente produção de energia elétrica de fontes renováveis.
Em termos práticos, a sinergia entre as tecnologias será essencial para que o Brasil atinja suas metas de redução de emissões. O etanol, com sua infraestrutura já consolidada e papel relevante no agronegócio, tende a continuar sendo elemento central no curto e médio prazo. Já os veículos 100% elétricos devem ganhar mais tração a partir de 2030, com aumento da escala de produção, redução de custos e maior densidade da malha de recarga.
Conclusão: um futuro de mobilidade mista e verde
A Lei do Combustível do Futuro reforça a posição do Brasil como referência global em biocombustíveis. No entanto, a curva de adoção dos veículos elétricos indica que o país está prestes a entrar em uma nova fase — mais digital, silenciosa e livre de carbono. A coexistência dessas rotas não apenas é possível, como pode colocar o Brasil na vanguarda da transição energética nos transportes.



