Brasil pode atrair R$ 3,7 trilhões com data centers, mas energia será o fator decisivo

Pesquisa projeta mais de 230 mil empregos permanentes até 2035 e indica que disponibilidade de energia renovável pode transformar o país em um dos principais hubs globais para data centers e inteligência artificial

A disputa global por investimentos em inteligência artificial começa a deslocar o foco das empresas de tecnologia para um elemento muito mais básico: infraestrutura. Se antes a competição estava concentrada no desenvolvimento de softwares e modelos de IA, agora passa pela capacidade de oferecer energia, conectividade, ambiente regulatório estável e infraestrutura física para suportar o crescimento acelerado dos data centers.

Nesse cenário, o Brasil reúne condições para ocupar uma posição estratégica. Um estudo elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a pedido da Scala Data Centers e da Norgás, conclui que o país possui vantagens competitivas relevantes para se consolidar como um hub internacional de infraestrutura digital. No cenário mais otimista analisado, a expansão do setor poderá mobilizar entre R$ 2,3 trilhões e R$ 3,7 trilhões em investimentos até 2035, além de criar mais de 230 mil empregos permanentes.

O levantamento destaca que a combinação entre matriz elétrica predominantemente renovável, disponibilidade territorial, mercado consumidor robusto e localização geográfica favorável coloca o Brasil em posição diferenciada em relação a diversos mercados que já enfrentam limitações para expandir sua infraestrutura de processamento de dados.

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Energia passa a ser ativo estratégico para a economia digital

O avanço da inteligência artificial vem alterando a dinâmica de planejamento do setor elétrico em diversos países. A demanda crescente por processamento computacional aumenta o consumo de eletricidade dos data centers e amplia a necessidade de expansão coordenada da infraestrutura de transmissão, distribuição e geração.

Segundo a FGV, o potencial brasileiro depende justamente da capacidade de sincronizar o crescimento dessas duas agendas. O estudo considera um cenário de ampliação da capacidade instalada de infraestrutura digital de aproximadamente 1 GW para 13,7 GW até 2035. Caso essa expansão seja concretizada, serão necessários investimentos em redes elétricas, sistemas de refrigeração, telecomunicações, construção civil, equipamentos de tecnologia da informação e soluções de armazenamento de dados.

Na prática, a infraestrutura digital deixa de ser apenas um segmento tecnológico e passa a atuar como um novo vetor de demanda para o sistema elétrico nacional.

Cadeia produtiva amplia efeitos sobre a economia

Os impactos projetados pela pesquisa vão muito além da construção dos empreendimentos. A metodologia adotada utiliza a Matriz Insumo-Produto para mensurar os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos investimentos sobre diversos setores econômicos.

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O cenário analisado prevê mais de 230 mil empregos permanentes, dos quais cerca de 59,7 mil serão diretamente ligados à operação dos empreendimentos. Outros 176,5 mil postos deverão surgir ao longo das cadeias produtivas associadas.

Os investimentos também apresentam dimensão significativa. A expansão adicional de 12,7 GW poderá movimentar entre US$ 431,8 bilhões e US$ 698,5 bilhões, considerando obras civis, aquisição de terrenos, sistemas elétricos, infraestrutura predial, equipamentos de refrigeração, redes de telecomunicações, servidores, sistemas de armazenamento e aceleradores voltados às aplicações de inteligência artificial.

Para o gerente executivo de projetos da FGV, Charles Schramm, a análise demonstra que os efeitos econômicos extrapolam o segmento tecnológico: “A pesquisa utiliza uma modelagem de insumo-produto para capturar os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos investimentos em infraestrutura digital, permitindo medir como esses projetos ativam cadeias produtivas inteiras. Os resultados mostram que os impactos não se concentram no setor de tecnologia, mas se disseminam por toda a economia, com efeitos relevantes sobre emprego, renda e produção.”

Competitividade dependerá de ambiente regulatório e expansão da rede elétrica

Embora o estudo identifique vantagens estruturais importantes, também aponta obstáculos que poderão limitar a capacidade do Brasil de competir por investimentos internacionais. Entre eles estão a elevada carga tributária incidente sobre equipamentos tecnológicos, a necessidade de maior coordenação entre políticas públicas e a expansão da infraestrutura elétrica para atender novas cargas de grande porte.

Na avaliação da FGV, o crescimento do mercado dependerá da construção de um ambiente regulatório capaz de oferecer previsibilidade para investimentos de longo prazo. O relatório recomenda uma agenda baseada em quatro pilares:

  • fortalecimento da política industrial para produção de hardware;
  • reconhecimento dos data centers como infraestrutura estratégica para o planejamento energético;
  • estabilidade jurídica dos incentivos fiscais;
  • coordenação entre políticas de energia, indústria, tributação e governança digital.

Também são citados instrumentos como o Redata, a revisão do ICMS incidente sobre equipamentos importados, os regimes de Ex-Tarifário e as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) como mecanismos para reduzir o custo de implantação dos empreendimentos.

Brasil disputa espaço com hubs internacionais

A pesquisa compara o ambiente brasileiro com mercados considerados referências globais em infraestrutura digital, como Virgínia, nos Estados Unidos, Singapura, Dubai, Japão, Canadá, Portugal e o cluster europeu formado por Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin.

Segundo a análise, enquanto esses polos enfrentam restrições relacionadas à disponibilidade de energia, capacidade de conexão às redes elétricas e limitação territorial para novos empreendimentos, o Brasil ainda dispõe de espaço para expansão e de uma matriz elétrica majoritariamente renovável.

Para que esse potencial seja convertido em investimentos, a FGV recomenda a criação de uma instância nacional de coordenação envolvendo União, estados, municípios, reguladores e iniciativa privada, com o objetivo de reduzir sobreposições regulatórias, acelerar licenciamentos e dar maior previsibilidade aos projetos.

Janela de oportunidade exige resposta rápida

A crescente demanda mundial por infraestrutura para inteligência artificial cria uma oportunidade rara para países capazes de combinar disponibilidade energética, ambiente regulatório estável e capacidade de expansão.

Na avaliação de Luciano Fialho, SVP Corporativo da Scala Data Centers, o Brasil reúne atributos que poucos mercados conseguem oferecer simultaneamente: “Os principais mercados de infraestrutura digital do mundo, especialmente Estados Unidos e Europa, enfrentam gargalos crescentes para expandir capacidade, como restrições de energia, conexão à rede e disponibilidade de áreas para novos projetos, enquanto a demanda por processamento de dados e inteligência artificial continua acelerando. Isso abre espaço para o surgimento de novos hubs globais. O Brasil reúne atributos raros para capturar essa oportunidade: energia em escala, matriz predominantemente renovável, potencial de expansão, disponibilidade de território e integração às principais rotas internacionais de dados. Se agir agora, o país pode atrair investimentos em escala sem precedentes, gerar empregos qualificados e se consolidar como um dos principais polos globais de infraestrutura digital.”

Para o setor elétrico, o estudo reforça uma tendência que vem ganhando força internacionalmente: o crescimento da inteligência artificial deixará de representar apenas uma nova demanda por energia e passará a influenciar decisões de planejamento da expansão da rede, investimentos em transmissão, disponibilidade de geração renovável e políticas industriais voltadas à infraestrutura crítica.

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