Solução desenvolvida pela Fu2re aplica visão computacional e análise preditiva para elevar ‘hit rate’ de inspeções em áreas de alta complexidade de perdas.
As perdas não técnicas permanecem entre os principais desafios estruturais enfrentados pelas distribuidoras de energia no Brasil. Além de comprometerem a sustentabilidade financeira das concessionárias, os furtos de energia impactam a qualidade do fornecimento, dificultam o planejamento da operação das redes e acabam refletindo, em parte, nas tarifas pagas pelos consumidores regulares.
Em um cenário de fraudes cada vez mais sofisticadas, a digitalização dos processos de fiscalização tem se consolidado como uma alternativa para elevar a eficiência das distribuidoras. Soluções baseadas em inteligência artificial, análise de dados e visão computacional começam a substituir modelos tradicionais de inspeção, permitindo identificar com maior precisão as unidades consumidoras com maior probabilidade de irregularidades.
É nesse contexto que a startup carioca Fu2re desenvolveu o EnergyWatch, plataforma que utiliza algoritmos preditivos para apoiar concessionárias na identificação de fraudes. A solução foi selecionada como um dos cases de destaque do painel de medição inteligente do Congresso de Inovação na Distribuição de Energia Elétrica (CIDE), realizado em São Paulo.
O Impacto Financeiro das Perdas não Técnicas
O combate aos chamados “gatos” de energia continua sendo uma prioridade regulatória e financeira para o setor elétrico brasileiro. De acordo com dados da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), o país registrou o desvio de mais de 22,5 bilhões de kWh em 2024. Em termos financeiros, as perdas não técnicas provocaram um prejuízo estimado em R$ 10 bilhões para as distribuidoras em 2025.
Além do impacto direto sobre o caixa das concessionárias, parte dessas perdas acaba sendo incorporada aos processos tarifários promovidos pela Aneel, influenciando o custo final da energia para consumidores que utilizam o sistema de forma regular. Esse cenário exige investimentos adicionais em fiscalização, deslocamento de equipes técnicas e recuperação de receita, elevando as despesas operacionais (OPEX) das distribuidoras.
Modelos Preditivos Substituem Amostragem Tradicional
Com o crescimento do volume de dados disponibilizados pela expansão dos medidores inteligentes, ferramentas baseadas em inteligência artificial vêm transformando a forma como as inspeções são planejadas pelas concessionárias. O EnergyWatch foi concebido para cruzar informações de consumo histórico, faturamento, variáveis operacionais da rede elétrica e imagens obtidas por sistemas de visão computacional.
A partir dessa combinação de variáveis, os algoritmos classificam as unidades consumidoras conforme a probabilidade de ocorrência de fraude, permitindo que as equipes de campo concentrem esforços nos casos considerados mais críticos.
O fundador e sócio-diretor da Fu2re, André Sih, avalia que as abordagens puramente convencionais apresentam limitações severas diante da complexidade atual das fraudes: “Abordagens convencionais de direcionamento de inspeções de campo não conseguem processar muitos dados, fazendo um filtro deficiente e tendo uma priorização ineficaz do trabalho de campo.”
Assertividade em Campo e Resultados na Região Metropolitana
Os resultados operacionais obtidos em áreas de concessão da Região Metropolitana do Rio de Janeiro demonstram o potencial da tecnologia para apoiar a recuperação de receita. Integrada aos sistemas comerciais das distribuidoras, a plataforma realiza o ranqueamento geográfico das áreas prioritárias, organiza o direcionamento das equipes e recebe informações de campo em tempo real por meio de um aplicativo próprio.
Ao apresentar os indicadores operacionais alcançados pela solução, André Sih detalha os resultados consolidados de assertividade em campo: “Integrada aos sistemas comerciais, nossa plataforma é totalmente personalizável, realiza a seleção de alvos geográficos, direciona mais capacidade de recuperação de receita e disponibiliza um aplicativo exclusivo de denúncias com recepção de reclamações em campo em tempo real. Na área metropolitana do Rio de Janeiro, o EnergyWatch já alcançou 28% na taxa de Taxa de Acerto (Hit Rate) e 120% no TOI [Termo de Ocorrência e Inspeção] médio de 4.289 kWh.”
Digitalização e a Redução de Custos Operacionais
A adoção de soluções baseadas em inteligência artificial acompanha uma transformação digital mais ampla vivida pelas distribuidoras brasileiras, impactando a eficiência das operações comerciais e reduzindo custos logísticos de transporte das equipes. A inteligência de dados aplicada permite que as distribuidoras otimizem o deslocamento de equipes apenas para localidades com alta probabilidade de desvio massivo de energia, conforme explica André Sih: “Realizamos a priorização inteligente de inspeções, aumentamos a quantidade de energia recuperada e diminuímos a energia requerida. Dessa forma, as equipes de campo são direcionadas apenas para as localidades e Unidades Consumidoras com maior probabilidade de grande volume de fraude, o que aumenta a eficiência operacional.”
À medida que o setor elétrico amplia seus investimentos em redes inteligentes (smart grids), ferramentas de análise preditiva tendem a desempenhar um papel cada vez mais estratégico na redução das perdas comerciais. Além de contribuir para a sustentabilidade financeira das distribuidoras, essas tecnologias fortalecem a gestão dos ativos de rede e mitigam um dos principais fatores de pressão tarifária sobre o consumidor final no Brasil.



