Em cenário de afluência mais severa, estoque energético da principal “caixa d’água” do país terminará dezembro 11,3 p.p. acima do registrado no ano passado
O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) analisou as novas projeções de atendimento eletroenergético para o segundo semestre de 2026, apresentadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Os dados revelam um panorama de segurança para o Sistema Interligado Nacional (SIN) durante o período seco, impulsionado pela passagem recente de frentes frias e massas de ar polar pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Esta condição meteorológica provocou chuvas e queda nas temperaturas, elevando a precipitação nas bacias dos rios Iguaçu, Tietê, Grande, Paranaíba e na área incremental da usina de Itaipu para patamares acima da média mensal histórica.
Apesar do alívio térmico e úmido na abertura da estiagem, o Operador alertou que o volume pluviométrico esperado para os próximos meses é estruturalmente baixo, característico do inverno e início da primavera. Enquanto a bacia do rio Iguaçu, no Sul, mostra franca recuperação face aos primeiros meses de 2026, a maioria das demais bacias hidrográficas do SIN caminha dentro da normalidade, com vazões próximas à média histórica.
Cenários prospectivos e níveis de armazenamento no Sudeste e Centro-Oeste
As simulações do ONS para o horizonte de julho a dezembro apontam que a Energia Natural Afluente (ENA) do sistema flutuará entre 91% e 125% da Média de Longo Termo (MLT). Para a principal caixa d’água do país, o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, a modelagem menos otimista indica afluências abaixo da média histórica em praticamente todos os meses do período crítico, com uma reversão estimada apenas para novembro.
A resiliência física do parque gerador, contudo, mostra-se superior à observada no fechamento do ano anterior. Caso se confirme o cenário inferior (91% da MLT, que figuraria como a 38ª pior marca em 96 anos de histórico), a Energia Armazenada (EAR) do Sudeste/Centro-Oeste terminará dezembro em 53,4%, um montante 11,3 pontos percentuais acima do patamar de dezembro de 2025. Se o cenário superior prevalecer (125% da MLT, o 12º maior registro do histórico), o estoque energético da região findará o ano estável em 63,7%, superando em 21,6 pontos percentuais o balanço do ano passado.
| Variável Energética (Estudos até 31/12/2026) | Cenário Inferior (91% MLT) | Cenário Superior (125% MLT) |
| Nível de Armazenamento SE/CO (31/07/2026) | 62,3% | 63,8% |
| Nível de Armazenamento SE/CO (31/12/2026) | 53,4% | 63,7% |
| Nível de Armazenamento do SIN (31/12/2026) | 55,9% | 67,0% |
Ao avaliar o comportamento das variáveis na abertura do período de estiagem, o diretor-geral do ONS, Marcio Rea, ponderou sobre a postura técnica adotada pela entidade: “A recuperação das condições hidrológicas observada na região Sul foi um sinal positivo para a operação do sistema. Ainda assim, considerando o período seco, que apresenta menores afluências, o ONS segue no acompanhamento das condições gerais do SIN e tomará as eventuais medidas adicionais para garantir a segurança do SIN caso sejam necessárias”
Configuração do El Niño e impactos na geração renovável
Outro ponto focal da reunião do CMSE foi a consolidação do fenômeno meteorológico El Niño, configurado oficialmente em junho, com tendência de fortalecimento entre a primavera e o verão. O ONS enfatizou que a intensidade do fenômeno não guarda correlação linear direta com o volume exato de chuvas ou com desvios térmicos absolutos, exigindo cautela nas análises preditivas.
Historicamente, os desdobramentos do El Niño no Brasil evidenciam-se nas extremidades do mapa: acentuando as chuvas na Região Sul e reduzindo a pluviosidade nas faixas Norte e Nordeste. Para o subsistema Nordeste, projeta-se o predomínio de céu aberto e aumento na velocidade dos ventos, variáveis que devem impulsionar recordes de geração nas usinas solares fotovoltaicas e nos complexos eólicos. O reverso da medalha será o registro de termômetros acima da média e o risco de ondas de calor frequentes. Nas regiões centrais do país (Sudeste e Centro-Oeste), a previsibilidade estatística quanto ao volume e ao início do período chuvoso permanece baixa.
Planejamento de Longo Prazo: Divulgação do PEN até 2030
Em paralelo à conjuntura climática imediata, o ONS apresentou os resultados estruturais do Plano da Operação Energética (PEN), documento que baliza os critérios de garantia de suprimento, potência e energia no horizonte de planejamento até 2030.
A apresentação preliminar ocorreu simultaneamente a uma rodada de alinhamento com os agentes do mercado livre e regulado. O cronograma oficial do Operador prevê que os relatórios técnicos finais do PEN sejam disponibilizados publicamente no site institucional e no portal SINtegre no dia 31 de julho.



