Infraestrutura para IA movimentou US$ 69 bilhões em M&A em 2025 e reposiciona energia, data centers e infraestrutura elétrica entre os ativos mais estratégicos para investidores globais
A inteligência artificial está redefinindo o mercado global de fusões e aquisições (M&A). Se nos últimos ciclos tecnológicos o capital se concentrou em empresas de software e plataformas digitais, a nova corrida dos investidores passou a mirar a infraestrutura que viabiliza o funcionamento dos modelos de IA em larga escala. Data centers, sistemas elétricos, conectividade, armazenamento e soluções de eficiência energética ganharam espaço nas estratégias de fundos de investimento e grandes grupos corporativos.
A mudança reflete uma necessidade operacional. O avanço da inteligência artificial exige capacidade crescente de processamento, armazenamento de dados e fornecimento contínuo de energia, tornando esses ativos essenciais para sustentar a expansão do setor. Como consequência, operações envolvendo infraestrutura digital atingiram volumes recordes nos últimos anos e tendem a permanecer no centro das estratégias de investimento.
Infraestrutura supera software nas teses de investimento
Para especialistas do mercado de M&A, o interesse dos investidores deixou de se concentrar apenas nas empresas que desenvolvem aplicações de inteligência artificial e passou a abranger toda a cadeia responsável por suportar essa tecnologia.
O sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, Jefferson Nesello, afirma que essa mudança já altera o perfil das operações realizadas no mercado: “O movimento já altera o mapa global de fusões e aquisições (M&A). Data centers, fabricantes de componentes, fornecedores de conectividade, tecnologia de refrigeração, infraestrutura elétrica e sistemas de energia passaram a ocupar posição prioritária nas teses de investimento de fundos, grupos estratégicos e grandes corporações.”
Além dos operadores de data centers, fabricantes de painéis elétricos, fornecedores de cabeamento estruturado, empresas de climatização, automação industrial, monitoramento, segurança física e eficiência energética passaram a integrar o universo de ativos considerados estratégicos.
Ao explicar a lógica por trás dessa transformação, Nesello faz uma analogia com um dos maiores ciclos econômicos da história: “A lógica é semelhante à corrida do ouro do século XIX. Nem sempre quem enriqueceu foi quem procurou ouro. Muitas vezes foram os fornecedores de ferramentas e infraestrutura para exploração.”
Mercado de data centers registra recorde histórico de M&A
O interesse pela infraestrutura digital já se reflete nos números do mercado. Dados da S&P Global Market Intelligence mostram que o segmento de data centers movimentou mais de US$ 69 bilhões em operações de fusões e aquisições em 2025, distribuídas em 113 transações concluídas, o maior volume já registrado pelo setor.
Na avaliação do sócio da Zaxo M&A Partners, Leonardo Grisotto, o comportamento acompanha outros momentos de transformação tecnológica vividos pela economia global: “Historicamente, os grandes ciclos de fusões e aquisições acompanham transformações estruturais da economia. Foi assim com telecomunicações, internet, e-commerce e computação em nuvem. A inteligência artificial parece estar inaugurando um novo capítulo. Para investidores, fundos e empresas em busca de crescimento, a pergunta já não é mais quem desenvolverá a próxima inteligência artificial, mas sim quem controlará a infraestrutura necessária para alimentá-la.”
Esse movimento também é respaldado por estudos da consultoria White & Case, que apontam os data centers entre os ativos de infraestrutura com maior potencial de expansão no mundo. A expectativa é de crescimento médio de aproximadamente 15% ao ano na capacidade instalada global, ritmo que ainda pode ser insuficiente para atender à demanda projetada pela inteligência artificial e pela computação em nuvem.
Brasil amplia relevância na infraestrutura digital
O mercado brasileiro acompanha essa tendência. Levantamento da Arizton Advisory & Intelligence estima que os data centers movimentaram aproximadamente US$ 6,7 bilhões no Brasil em 2025. A expansão da computação em nuvem, a presença de hyperscalers internacionais e o avanço das aplicações de inteligência artificial consolidaram o país como o principal polo de infraestrutura digital da América Latina.
Na avaliação de Leonardo Grisotto, a valorização dos ativos físicos representa uma mudança estrutural nas estratégias de investimento: “Estamos vendo uma mudança estrutural nas teses de investimento. Durante muitos anos, o valor estava concentrado no software. Agora, o mercado passou a olhar para a infraestrutura que sustenta esse software. Data centers, conectividade, energia e todos os seus adjacentes se tornaram ativos estratégicos.”
O novo cenário também impulsionou operações de grande porte. Entre elas, destacam-se a venda da Aligned Data Centers, avaliada em cerca de US$ 40 bilhões, a aquisição da plataforma asiática AirTrunk pela Blackstone e parceiros por aproximadamente US$ 16,1 bilhões e a compra de dez data centers da Cogent pela I Squared Capital, que desembolsou US$ 225 milhões e anunciou mais US$ 1 bilhão para expansão da plataforma.
Crescimento da IA amplia demanda por energia
O avanço dos data centers também reposiciona o setor elétrico como peça central da economia digital. Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que o consumo de eletricidade destinado aos data centers deverá superar 1.000 TWh em 2030, mais que o dobro dos cerca de 460 TWh registrados em 2024.
Segundo a agência, o consumo energético dos data centers cresceu 17% apenas em 2025, enquanto a demanda dos centros dedicados exclusivamente à inteligência artificial avançou em ritmo ainda mais acelerado.
Nos Estados Unidos, a Energy Information Administration (EIA) projeta novos recordes de consumo elétrico em 2026 e 2027. Pela primeira vez, o consumo de energia do setor comercial deverá ultrapassar o residencial, impulsionado principalmente pela expansão dos data centers voltados à IA.
Esse cenário amplia o interesse por ativos ligados à geração de energia, transmissão, infraestrutura elétrica, armazenamento e eficiência energética, segmentos considerados fundamentais para garantir a expansão da capacidade computacional.
Matriz renovável fortalece posição brasileira
A disponibilidade de energia passou a ser um dos principais critérios para definição de novos investimentos em infraestrutura digital. Nesse contexto, o Brasil reúne características que podem ampliar sua competitividade internacional. A elevada participação de fontes renováveis na matriz elétrica, a disponibilidade de recursos energéticos e a posição geográfica estratégica tornam o país um candidato natural para receber novos empreendimentos voltados à economia digital.
Jefferson Nesello avalia que as oportunidades não se restringem às grandes empresas de geração elétrica: “Quando falamos de energia, não estamos olhando apenas para as grandes geradoras. Existem oportunidades relevantes em eficiência energética, geração distribuída, infraestrutura elétrica e soluções que permitam suportar a expansão dos data centers. É um mercado que tende a ganhar cada vez mais protagonismo nas discussões de M&A.”
À medida que a inteligência artificial amplia sua presença na economia global, a disputa por infraestrutura tende a se intensificar. Mais do que desenvolver novos modelos de IA, investidores buscam controlar os ativos que garantem capacidade computacional, disponibilidade energética e segurança operacional, elementos que passam a definir a competitividade dos próximos ciclos de investimento.



