Quinta emissão do POTEE 2025 inclui 31 obras estratégicas, cria novo hub de 500 kV no Pecém e reforça a rede elétrica em regiões pressionadas por mineração, hidrogênio de baixa emissão e infraestrutura digital
O avanço da digitalização da economia, a expansão de projetos de hidrogênio de baixa emissão de carbono e o crescimento de cargas industriais eletrointensivas estão redefinindo as prioridades do planejamento da transmissão de energia no Brasil. Em resposta a esse movimento, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou a quinta emissão do Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica (POTEE) para o ciclo 2025, incorporando 31 novos empreendimentos destinados a ampliar a capacidade e a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).
O conjunto de obras reúne projetos que serão viabilizados por meio de futuros leilões de transmissão e intervenções autorizadas como reforços e melhorias em instalações existentes. O objetivo é preparar a rede de alta tensão para atender o crescimento acelerado de novos polos de consumo, com destaque para clusters de data centers, projetos industriais de grande porte e iniciativas voltadas à produção de hidrogênio de baixa emissão.
Expansão da transmissão acompanha nova geografia da demanda
A nova emissão do POTEE evidencia uma mudança estrutural no perfil de expansão do sistema elétrico brasileiro. Se, historicamente, o planejamento esteve concentrado na integração de novas fontes de geração, o foco passa a incorporar a crescente demanda por energia de segmentos intensivos em eletricidade e sensíveis à qualidade do fornecimento.
A consolidação de polos tecnológicos, o fortalecimento da atividade mineral e o avanço da indústria de baixo carbono exigem maior capacidade de transporte de energia, controle dinâmico da rede e elevada confiabilidade operacional. Nesse contexto, o planejamento conduzido pelo MME busca antecipar gargalos e reduzir riscos para investimentos de longo prazo.
Pecém se consolida como hub energético e industrial
Um dos principais vetores de expansão da nova emissão do POTEE está concentrado no Nordeste, com foco nos complexos industriais de Pecém, no Ceará, e Parnaíba, no Piauí. A estratégia prevê a criação de uma infraestrutura de transmissão capaz de sustentar a demanda futura de grandes consumidores e viabilizar projetos associados à cadeia do hidrogênio de baixa emissão de carbono.
O principal empreendimento é a implantação da Subestação Pecém IV, em 500 kV, concebida para funcionar como um hub de conectividade energética para novos empreendimentos industriais. Para garantir o escoamento da energia e a flexibilidade operativa da região, o plano inclui a construção de mais de 1.800 quilômetros de linhas de transmissão em 500 kV, interligando os estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte.
A expansão fortalece a competitividade do Nordeste na atração de investimentos vinculados à descarbonização da indústria e à produção de combustíveis de baixo carbono.
Reforços no Pará ampliam segurança para o setor mineral
Na Região Norte, os investimentos têm como foco a crescente demanda energética do Sudeste do Pará, impulsionada pela expansão da atividade mineral.
Estudos conduzidos pela Empresa de Pesquisa Energética identificaram restrições operativas que podem comprometer a estabilidade da rede diante do aumento da carga. Para mitigar esses riscos, o POTEE prevê a implantação da Subestação Ourilândia do Norte, em 230 kV, além da reconfiguração de circuitos de transmissão e da ampliação das interligações entre instalações existentes.
As intervenções buscam aumentar a flexibilidade operativa, melhorar os níveis de tensão e garantir maior segurança no atendimento ao setor mineral, um dos principais consumidores de energia da região.
São Paulo recebe reforços para atender expansão dos data centers
A crescente concentração de data centers na Região Metropolitana de São Paulo também influenciou o planejamento da transmissão.
O aumento da demanda por infraestrutura digital, impulsionado pela expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços de armazenamento de dados, exige redes elétricas com alta disponibilidade e qualidade de energia. Com base em estudos desenvolvidos pela Empresa de Pesquisa Energética, o MME incluiu reforços nas malhas de transmissão em 345 kV, 440 kV e 500 kV, além de obras de modernização em ativos estratégicos.
As intervenções abrangem o recondutoramento de linhas de transmissão e a instalação de novos transformadores nas subestações Embu-Guaçu e Poços de Caldas, substituindo equipamentos com capacidade limitada diante do crescimento da carga.
Tecnologias avançadas reforçam a estabilidade do sistema
Além da ampliação física da rede, o POTEE incorpora tecnologias voltadas ao controle dinâmico do sistema elétrico. Entre as soluções previstas estão a instalação de compensadores síncronos e de dispositivos FACTS (Flexible AC Transmission Systems), capazes de controlar o fluxo de potência e fornecer suporte de potência reativa em tempo real.
Esses equipamentos desempenham papel estratégico em sistemas com elevada concentração de cargas críticas, como data centers, reduzindo riscos de oscilação de tensão e aumentando a resiliência da rede diante de perturbações operativas. A adoção dessas tecnologias reflete uma nova etapa do planejamento da transmissão no Brasil, marcada pela crescente complexidade da operação do SIN e pela necessidade de integrar diferentes perfis de consumo e geração.



