Para associação, plano inédito de redução coordenada com distribuidoras mitiga riscos de colapso no SIN e acelera transição para operação de redes inteligentes
O avanço acelerado da MMGD no Brasil alcançou um novo patamar de interface com a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). Em movimento inédito, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) implementou um plano organizado para a redução da geração solar distribuída por meio das concessionárias de distribuição. O procedimento é visto pelo mercado como um marco operacional relevante, inaugurando uma etapa de coordenação estreita entre os agentes para salvaguardar a segurança eletroenergética em momentos de criticidade.
Na avaliação da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE), a iniciativa demonstra de forma prática a necessidade urgente de adaptação das regras operativas à crescente descentralização da matriz. Mais do que uma ação isolada, a associação enxerga na medida um precedente regulatório e operacional importante para situações em que seja necessário preservar a confiabilidade do sistema elétrico diante de riscos de instabilidade.
Procedimento difere dos cortes na geração centralizada
A dinâmica de atuação desenhada pelo operador nacional possui características técnicas e jurídicas totalmente distintas dos tradicionais cortes de geração, os chamados curtailments, que costumam ser aplicados diretamente às grandes usinas centralizadas conectadas à Rede Básica.
Ao analisar o desenho dessa iniciativa, o diretor-presidente da ABCE, Alexei Vivan, destaca o papel intermediário e indispensável das concessionárias de distribuição, que detêm a gestão dos ativos de rede onde esses pequenos geradores estão conectados: “O ONS implementou, pela primeira vez de forma organizada, um plano de redução da geração solar distribuída pelas concessionárias de distribuição. Diferentemente dos curtailments da geração centralizada, essa é uma geração que não é controlada diretamente pelo ONS, mas sim pelas distribuidoras de energia, pois são elas que têm visibilidade do montante de geração distribuída e podem atuar de forma coordenada com o ONS para evitar riscos de instabilidade no sistema”.
O posicionamento da entidade patronal põe em evidência uma guinada na governança setorial. À medida que o volume de geração distribuída se expande, o equilíbrio instantâneo entre a oferta e a demanda de energia passa a exigir mecanismos de monitoramento, comando e controle muito mais sofisticados do que os disponíveis atualmente.
Evolução para o modelo de DSO (Distributed System Operator)
O teste operacional executado pelo ONS acaba por acelerar uma das tendências regulatórias mais debatidas pelo segmento de distribuição nos últimos anos: a transformação das concessionárias em operadoras dos sistemas distribuídos, replicando o conceito internacional de Distributed System Operator (DSO). Sob essa ótica, as empresas expandem suas responsabilidades para além do transporte e da entrega física do elétron.
Ao abordar essa transformação estrutural pela qual passa o segmento de fios, Alexei Vivan afirma que as distribuidoras deverão assumir um protagonismo técnico crescente na administração ativa de suas redes: “Essa iniciativa caminha no sentido de uma nova função para as distribuidoras, o que chamamos de DSO (Distributed System Operator, ou Operadora do Sistema Distribuído). Elas deixam de atuar apenas como distribuidoras de energia e passam a operar seus sistemas de distribuição de forma mais organizada, contribuindo para o equilíbrio entre geração e consumo”.
A migração para o modelo de DSO alinha o Brasil às práticas de mercados internacionais maduros que registram elevada penetração de fontes renováveis intermitentes e descentralizadas. O arranjo exige maior inteligência de rede, investimentos em digitalização e integração sistêmica profunda entre o operador nacional e os centros de operação das distribuidoras.
Ação preventiva foca na segurança eletroenergética
Embora os parâmetros técnicos e os impactos do plano ainda estejam sob análise conjunta entre o ONS e as distribuidoras participantes, a ABCE valida o resultado preliminar do teste como uma estratégia adequada para gerenciar a volatilidade decorrente da forte inserção da fonte solar na base de consumo.
O entendimento institucional da associação é que cortes preventivos e coordenados desse tipo devem ser encarados como instrumentos legítimos de segurança sistêmica, blindando a rede contra flutuações severas de carga e geração.
Ao comentar o episódio sob a ótica da governança de riscos, Alexei Vivan reforça a legitimidade técnica da intervenção: “Pelas informações disponíveis até o momento, trata-se de uma iniciativa responsável e correta do ONS para reduzir o risco de um colapso do sistema elétrico. É uma medida preventiva, alinhada aos desafios trazidos pela crescente participação da geração intermitente e distribuída na matriz brasileira”.
O desfecho do teste acentua a necessidade de uma célere adaptação institucional e normativa. Com milhões de sistemas fotovoltaicos distribuídos influenciando diretamente a estabilidade das redes, a coordenação em tempo real entre o ONS e os futuros DSOs passa a ser o eixo central da segurança do setor elétrico nacional.



