A transmissão de energia como vetor do crescimento dos data centers

Por Juan Collado, Country Manager da Redinter no Brasil

O Nordeste brasileiro tornou-se um dos destinos mais disputados do mundo para a instalação de data centers, e a infraestrutura de transmissão elétrica ainda corre para alcançar essa realidade. Em janeiro deste ano, o Google declarou publicamente que o maior gargalo para expandir sua infraestrutura de inteligência artificial não são os chips, nem os engenheiros, nem o capital, mas a energia elétrica. Mais especificamente, a capacidade de transmiti-la até onde estão os servidores. O alerta não foi direcionado ao Brasil, mas deveria ser lido aqui com atenção redobrada.

As solicitações de conexão de data centers à rede elétrica brasileira alcançaram 26,2 GW em novembro de 2025, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Para efeito de comparação, o Brasil inteiro consome menos de 100 GW no horário de pico. Esses projetos, se viabilizados, representariam mais de um quarto de toda a demanda elétrica nacional. E o país hoje tem menos de 1 GW de data centers em operação.

A combinação de uma matriz 90% renovável, incentivos fiscais por meio do Redata, o programa estadual de incentivos fiscais para data centers no Nordeste (*), e a posição estratégica nos cabos submarinos que conectam a América do Sul à Europa e à África colocaram o Nordeste no mapa global da infraestrutura digital. No entanto, há um problema que os comunicados de imprensa raramente mencionam. A subestação de 500 kV que alimentará cada um desses projetos ainda precisa ser construída. E isso leva um tempo que o mercado não tem.

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O estado gera mais de 4 GW de energia renovável e consome menos de 1,5 GW. Sobra energia. E, ainda assim, os dois primeiros data centers aprovados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para conexão direta à Rede Básica de Transmissão no Nordeste só entrarão em operação a partir de janeiro de 2027. O motivo é simples e contundente. A subestação Pecém III, em 500 kV, ainda não existe.

Enquanto um data center hyperscale fica pronto em dois a três anos, uma linha de transmissão leva, em média, sete anos desde o estudo até a operação, segundo a própria EPE. Esse descompasso é o verdadeiro gargalo. Não é falta de vento, de sol ou de intenção política, é infraestrutura.

Segundo Thiago Barral, ex-Secretário Nacional de Transição Energética do Ministério de Minas e Energia (MME), o mundo tem aumentado de forma acelerada o volume de dados processados e isso pressiona a demanda por energia. E o Brasil, com seu grande potencial de energia limpa e renovável, tem atraído o interesse para a instalação de data centers. Esse crescimento já aparece de forma clara no planejamento da transmissão.

A situação brasileira espelha o que ocorre em nível global. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que o consumo mundial de data centers dobrará, alcançando 945 TWh até 2030. Nos Estados Unidos, a expansão dos data centers já representa mais de 2% de crescimento anual na demanda elétrica, o dobro da média da última década. O gargalo da transmissão não é uma especificidade brasileira, é o maior problema de infraestrutura da era da inteligência artificial.

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Um data center tradicional operava com densidades de 5 a 10 kW por rack. Os clusters modernos de treinamento de inteligência artificial, com unidades de processamento gráfico de última geração, demandam entre 40 e 120 kW por rack. Essa mudança transforma os data centers em cargas industriais pesadas, comparáveis a siderúrgicas e fábricas de alumínio. Essas cargas precisam de conexão direta à rede básica de transmissão, não à rede de distribuição local.

A EPE mapeou 53 GW de novas cargas potenciais no país até 2038, com os data centers no centro dessa projeção. Seu cenário viável aponta para até 16 GW de demanda real do segmento nesse período. A diferença entre os 26 GW solicitados hoje e os 16 GW considerados viáveis se explica parcialmente por especuladores. Executivos da Scala Data Centers já denunciaram publicamente agentes que reservam entre 300 e 500 MW em subestações estratégicas apenas para vender o direito de conexão no futuro, distorcendo a fila do ONS.

Mesmo desconsiderando a demanda inflada, o volume real é transformador. Para atendê-lo, a EPE já recomendou R$ 1,6 bilhão em reforços de transmissão apenas para São Paulo, com potencial de liberar 4 GW de margem de conexão. Para o Nordeste, a meta é adicionar 4 GW de capacidade de conexão para grandes cargas. O Leilão 01/2026 da Aneel prevê 888 km de novas linhas, com R$ 5,8 bilhões em investimentos.

Há algo que quem opera transmissão no Nordeste sabe por experiência própria e que não consta em nenhuma planilha de viabilidade. Construir linhas de alta tensão no sertão cearense, piauiense ou maranhense é diferente de construir em qualquer outra região do país. Não é impossível, é específico e exige logística adaptada, relacionamento com comunidades locais, conhecimento do terreno e experiência acumulada em decisões de obra que não existem em nenhum manual.

Esse conhecimento não se importa, não se contrata em seis meses e muito menos se aprende no primeiro projeto. E é exatamente esse tipo de ativo intangível que vai separar quem conseguirá entregar infraestrutura de transmissão no Nordeste no prazo de quem aprenderá enquanto tenta fazê-lo.

Este momento representa uma convergência rara. A missão histórica de levar energia a regiões remotas encontra a nova fronteira da economia digital. As torres que cruzam o sertão não foram construídas pensando em inteligência artificial. Mas é exatamente isso que elas vão sustentar.

O Nordeste tem o que o mundo precisa. A energia está disponível. As linhas já cruzam o sertão. O que vai determinar quem transforma essa janela em realidade não é capital nem intenção, é a capacidade de entregar infraestrutura de transmissão onde e quando se precisa. Para isso, não existe atalho. Existem aqueles que já estão lá, operam e sabem como fazer.

(*) Programa criado por Medida Provisória que isentava IPI, PIS/COFINS e imposto de importação na compra de equipamentos de TIC para data centers em troca de investimento no mercado nacional e adoção de boas práticas de sustentabilidade. A MP foi aprovada pela Câmara dos Deputados em 25 de março, mas não foi votada pelo Senado dentro do prazo e expirou em 26 de março, restabelecendo a cobrança dos tributos. O Ministério da Fazenda declarou recentemente que estuda meios jurídicos para reativar os incentivos sem ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal.

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