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ONS reduz despacho térmico e reforça estratégia para preservar reservatórios do Sudeste antes do período seco

ONS reduz despacho térmico e reforça estratégia para preservar reservatórios do Sudeste antes do período seco

Operador projeta junho com baixa necessidade de geração termelétrica, avanço do armazenamento no Sul e exportações de energia acima de 1 GW para a Argentina

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) entrou em junho com uma estratégia operacional centrada na preservação dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste e na redução do acionamento termelétrico no Sistema Interligado Nacional (SIN). A diretriz foi apresentada durante a reunião do Programa Mensal da Operação (PMO), realizada nesta quinta-feira (28), em meio à melhora das condições hidrológicas observadas nas últimas semanas e à desaceleração sazonal da carga.

A avaliação técnica do operador indica que o sistema elétrico brasileiro atravessa um momento de maior conforto energético, sustentado pela combinação entre recuperação parcial dos reservatórios, avanço da geração renovável e queda no consumo provocada pela redução das temperaturas nas principais regiões consumidoras do país.

O cenário permitiu ao ONS estruturar uma operação mais conservadora do ponto de vista hídrico, priorizando o armazenamento de água nas principais bacias do Sudeste para enfrentar o período seco do segundo semestre sem ampliação relevante do despacho térmico.

Sudeste preserva água enquanto Sul assume papel estratégico

A engenharia operacional desenhada pelo operador reforça uma lógica de complementaridade entre os subsistemas do SIN. Com temperaturas mais amenas e menor pressão sobre a demanda, o ONS conseguiu reduzir a geração hidráulica no Sudeste, preservando os reservatórios da principal região de armazenamento do país. Na prática, o Sudeste continuará operando com geração calibrada para atendimento da ponta de carga, controle de nível dos reservatórios e estocagem de recursos hídricos para os próximos meses.

O movimento ganhou sustentação com a recuperação hidrológica observada no Sul, especialmente na bacia do Iguaçu, beneficiada pela passagem de frentes frias entre o fim de abril e maio. O avanço das afluências permitiu ampliar a participação energética da região no equilíbrio operacional do sistema.

A estratégia também prevê maior aproveitamento dos recursos do Norte durante o período noturno, enquanto o Nordeste seguirá condicionado à disponibilidade de geração renovável e aos intercâmbios energéticos entre subsistemas.

Armazenamento do SIN mantém trajetória de recuperação

As projeções apresentadas no PMO mostram que o Sistema Interligado Nacional deve encerrar maio com Energia Natural Afluente (ENA) equivalente a 82% da Média de Longo Termo (MLT), consolidando uma recuperação importante da segurança de suprimento ao longo do primeiro semestre.

No detalhamento regional, o Sudeste/Centro-Oeste deve fechar o mês com 85% da MLT, enquanto o Sul alcançará 101%. Já o Norte e o Nordeste seguem em condição mais restritiva, com previsão de 78% e 54% da MLT, respectivamente. Apesar das assimetrias hidrológicas entre as bacias, o ONS avalia que houve melhora consistente do quadro energético desde fevereiro, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste.

O maior destaque ficou justamente com o subsistema Sul. O armazenamento equivalente da região avançou 25,8 pontos percentuais em relação ao fim de abril, elevando o nível do reservatório equivalente para 54% da Energia Armazenável Máxima (EARmáx).

No Sudeste, embora o crescimento tenha sido marginal, alta de apenas 0,2 ponto percentual no mês, o subsistema permanece em condição considerada confortável, com 66% da EARmáx, funcionando como principal colchão de segurança do SIN para o segundo semestre. No consolidado nacional, o sistema deve encerrar maio com armazenamento equivalente de 72% da capacidade máxima.

Despacho térmico cai para níveis residuais

A melhora hidrológica e o crescimento estrutural da geração renovável reduziram significativamente a necessidade de acionamento de usinas termelétricas nos últimos meses. Dados apresentados pelo ONS mostram uma trajetória contínua de queda da geração térmica média no SIN. O despacho recuou de 7,8 GW médios em março para 6,3 GW médios em abril e deve fechar maio em aproximadamente 5,4 GW médios.

A maior parte da geração térmica atualmente em operação está associada à inflexibilidade contratual das usinas, sem necessidade de despacho adicional por garantia energética. O operador também informou redução expressiva dos acionamentos por ordem de mérito e unit commitment, refletindo o ambiente de sobra estrutural de energia no sistema.

Na avaliação do ONS, a combinação entre melhora das condições do Sul, redução da carga e expansão da oferta renovável permitiu preservar os reservatórios do Sudeste sem elevar os custos sistêmicos associados ao despacho termelétrico.

Exportações para Argentina ultrapassam 1 GW

O excedente energético disponível no sistema brasileiro ampliou o fluxo de exportações para países vizinhos ao longo de maio, especialmente para a Argentina. Segundo o ONS, o Brasil chegou a exportar até 1,1 GW ao país vizinho, tanto em caráter comercial quanto emergencial, limite atualmente permitido em função da manutenção da conversora de Garabi 2.

As exportações ganharam intensidade durante a segunda quinzena do mês, com médias diárias superiores a 1 GW em diversos períodos. Também houve fornecimento ao Uruguai, com despacho máximo de 246 MW registrado em 27 de maio. A expectativa do operador é que a capacidade de intercâmbio com a Argentina volte a atingir 2,2 GW após a conclusão da modernização da conversora, prevista para agosto.

O ONS também informou que seguirá monitorando a ocorrência de Energia Vertida Turbinável (EVT), principalmente em horários de carga reduzida, o que pode ampliar ainda mais as oportunidades de exportação regional.

El Niño entra no radar do planejamento do segundo semestre

Apesar do cenário atual de maior conforto operacional, o ONS mantém atenção voltada às condições climáticas para o segundo semestre, especialmente diante da possibilidade de formação de um evento El Niño entre junho e julho. As projeções monitoradas pelo operador indicam probabilidade superior a 60% de ocorrência de um fenômeno de intensidade forte ou muito forte ao longo da segunda metade do ano.

Historicamente, episódios de El Niño tendem a aumentar as chuvas na região Sul e reduzir as precipitações nas regiões Norte e Nordeste, alterando significativamente o comportamento hidrológico das principais bacias do país.

A evolução desse cenário climático deverá influenciar diretamente as estratégias de armazenamento, controle de cheias, intercâmbio energético e despacho de geração ao longo dos próximos meses, especialmente no planejamento do período úmido de 2026.