Por Ian Herbison, CEO do Speyside Group
Na mineração, costumamos pensar primeiro em geologia, engenharia, financiamento e preços das commodities. No entanto, poucos projetos fracassam porque o corpo mineral desaparece. Muito mais projetos enfrentam dificuldades devido a fatores políticos, licenciamento, oposição das comunidades ou mudanças regulatórias. Atualmente, alguns dos riscos mais significativos da mineração estão acima da superfície, e são eles que cada vez mais determinam se o capital será direcionado para um projeto e se uma empresa manterá sua licença para operar.
O cenário mudou. Antes, os investidores concentravam sua atenção no recurso mineral, no teor do minério e no financiamento. Essas questões continuam sendo fundamentais, mas agora dividem espaço com outras. O projeto conseguirá obter as licenças necessárias? Será capaz de resistir a mudanças políticas? Contará com o apoio das comunidades?
Diversos fatores impulsionam essa transformação. Os minerais críticos tornaram-se ativos estratégicos, e os controles de exportação passaram a ser instrumentos de política pública. A China refina 19 dos 20 minerais mais estratégicos, e seu regime de licenciamento para gálio, germânio, grafite e terras raras foi suspenso temporariamente no fim de 2025, mas não desmantelado. Ao mesmo tempo, a demanda continua crescendo: a Agência Internacional de Energia projeta que a demanda por lítio aumentará cerca de sete vezes e a de cobre aproximadamente duas vezes até 2035. Ainda assim, o capital tornou-se mais seletivo. Na região Ásia-Pacífico, a Indonésia já responde por mais de 60% da produção mundial de níquel extraído e voltará a adotar cotas de produção a partir de 2026.
A due diligence técnica agora precisa ser acompanhada por uma avaliação igualmente rigorosa dos riscos acima da superfície. Eu proponho três perguntas. O projeto conseguirá obter as licenças necessárias? Será capaz de manter sua legitimidade social? E o ambiente operacional permanecerá estável ao longo das décadas em que a mina estará em operação? Foram essas as questões que destaquei durante a Mining Asia 2026, em Singapura, e as discussões realizadas no evento apenas reforçaram sua relevância.
Dois projetos ilustram bem esse ponto. Em Juukan Gorge, em 2020, uma empresa agiu dentro da legalidade, mas destruiu abrigos rochosos insubstituíveis contrariando a vontade dos Proprietários Tradicionais, o que custou o cargo de seu diretor-presidente, de sua alta liderança e uma perda significativa de confiança. Já em Oyu Tolgoi, na Mongólia, consultas transparentes e uma infraestrutura compartilhada de abastecimento de água sustentaram, durante anos, uma sólida licença social para operar, embora as alíquotas de impostos e royalties tenham sido revisadas. O fluxo de lama ocorrido em Grasberg, em 2025, que provocou a morte de sete pessoas, é um lembrete de que os riscos mais caros raramente aparecem no modelo financeiro.
É por isso que a licença para operar se tornou hoje o conceito mais importante para a indústria. A licença técnica representa o direito formal de operar. Já a licença social corresponde à aceitação contínua de um projeto pelas comunidades do entorno e tornou-se tão decisiva quanto a licença técnica. Ela pode ser perdida mesmo quando todas as exigências legais são cumpridas. Construí-la exige engajamento desde as fases iniciais, mapeamento de stakeholders, consistência e comunicação, tratados como capacidades centrais do negócio. Se uma empresa não contar sua própria história, outra pessoa fará isso por ela.
Olhando para o futuro, a confiança se tornará uma vantagem competitiva. A rastreabilidade da origem dos materiais está se consolidando como uma condição para acesso aos mercados, desde o Passaporte Digital para Baterias da União Europeia, que passa a ser aplicado a partir de 2027, até plataformas de rastreabilidade como Re|Source e Circulor. À medida que os governos adotam estratégias de friend-shoring, os vencedores não serão aqueles que possuem os maiores recursos minerais ou os menores custos de produção, mas sim aqueles mais capazes de construir confiança e gerenciar riscos.
Durante a maior parte da história da mineração, o sucesso foi determinado pelo que estava sob a superfície. Hoje, ele depende, na mesma medida, do que acontece acima dela. A licença para operar deixou de ser apenas uma questão de conformidade. Tornou-se um ativo estratégico.



