Plano da Operação Energética 2026-2030 projeta crescimento de 17,9% da carga até o fim da década e aponta armazenamento, térmicas e hidrelétricas como pilares da confiabilidade do SIN.
O avanço acelerado da geração renovável continuará transformando a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) ao longo desta década. A avaliação é do Plano da Operação Energética (PEN) 2026-2030, divulgado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que projeta crescimento médio anual de 4,2% da carga e reforça a necessidade de incorporar novas fontes capazes de fornecer potência e flexibilidade ao sistema.
Embora os estudos indiquem atendimento adequado aos requisitos energéticos no horizonte analisado, permanecem violações dos critérios de suprimento de potência a partir de 2027. Para o operador, os Leilões de Reserva de Capacidade (LRCap) realizados em 2026 melhoram o cenário, mas não eliminam a necessidade de novas contratações nos próximos anos.
Solar e MMGD mudam a dinâmica operacional do SIN
As projeções do ONS indicam que a carga nacional deverá atingir 98,8 GW médios em 2030, crescimento acumulado de 17,9% em relação ao início do período analisado. No mesmo horizonte, a capacidade instalada do SIN deverá alcançar aproximadamente 287 GW.
A expansão será liderada pela geração solar centralizada e pela Micro e Minigeração Distribuída (MMGD). Juntas, as duas modalidades deverão responder por 31,7% da matriz elétrica brasileira ao final da década. Somente a MMGD deverá atingir 67,5 GW de capacidade instalada, consolidando uma mudança estrutural no perfil operacional do sistema elétrico brasileiro.
Flexibilidade torna-se atributo estratégico para a confiabilidade
Com o crescimento das fontes intermitentes, aumenta a necessidade de recursos despacháveis capazes de responder rapidamente às oscilações da geração solar e eólica ao longo do dia.
Ao apresentar o estudo, o diretor-geral do ONS, Marcio Rea, destacou a importância desse atributo para a segurança operativa do sistema: “O SIN tem demandado cada vez mais requisitos de flexibilidade. Desta forma, o ONS precisa ter à disposição soluções despacháveis adequadas às rápidas variações de potência requeridas para atender a variação da demanda e das fontes intermitentes ao longo do dia. O sistema deverá continuar requerendo amplitudes diárias de geração flexível nos próximos anos.”
As hidrelétricas seguem desempenhando papel central nesse equilíbrio, mas o planejamento aponta crescimento gradual da participação de termelétricas, sistemas de armazenamento e outras tecnologias capazes de fornecer serviços ancilares e suporte operacional. O documento também recomenda o aprofundamento das discussões sobre mecanismos de maior controlabilidade da geração distribuída conectada às redes de distribuição.
Leilões de capacidade seguem no centro do planejamento
Mesmo considerando a entrada em operação dos empreendimentos contratados nos leilões realizados este ano, o PEN mantém o alerta para déficits estruturais de potência a partir de 2027. Na avaliação do operador, a realização de leilões anuais de capacidade será fundamental para garantir a incorporação contínua de recursos flexíveis e despacháveis ao sistema.
O estudo destaca ainda que futuros certames destinados ao armazenamento em baterias poderão desempenhar papel relevante na redução desse desequilíbrio estrutural.
Curtailment continuará fazendo parte da operação
Pela primeira vez, o planejamento incorporou análises probabilísticas para os cortes de geração renovável, conhecidos como curtailment. Os estudos indicam que os maiores volumes continuarão associados ao excesso de geração em relação à demanda, principalmente entre 7h e 15h e em períodos de baixa carga, como domingos e feriados.
Ao detalhar os resultados do estudo, o diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, avaliou que a tendência é de redução gradual das restrições ao longo dos próximos anos: “A edição 2026 do relatório aponta que, considerando as atuais premissas, a projeção de curtailment energético e por confiabilidade reduz ao longo do horizonte avaliado, evidenciando o efeito conjunto do crescimento da demanda, da expansão da rede de transmissão e da redução do ritmo de expansão das fontes eólicas e solares conectadas na rede básica”.
Apesar dessa trajetória, o operador reconhece que o fenômeno continuará presente na rotina operacional do sistema, sobretudo durante a safra dos ventos e nos períodos de elevada produção solar.
Data centers e hidrogênio verde ampliam demanda por potência
O PEN também incorporou cenários associados ao crescimento de cargas especiais, especialmente data centers e projetos de produção de hidrogênio de baixo carbono. Para o ONS, a expansão dessas novas demandas reforça a necessidade de coordenação entre planejamento da transmissão, expansão da oferta flexível e mecanismos de contratação de potência.
Mais do que projetar o crescimento da carga, o planejamento evidencia a mudança estrutural em curso na matriz elétrica brasileira: uma matriz cada vez mais renovável, porém cada vez mais dependente de recursos capazes de garantir flexibilidade, resposta rápida e segurança operativa ao SIN.


