Contrato com a mineradora BHP consolida modelo ‘behind-the-meter’ na América Latina; fabricante posiciona portfólio de alta densidade antes de certame da Aneel.
O mercado de armazenamento de energia em larga escala (Battery Energy Storage Systems – BESS) na América Latina atingiu um novo patamar de escala corporativa. A BHP, uma das maiores mineradoras do mundo e operadora das minas de cobre Escondida e Spence, no norte do Chile, contratou a Sungrow para implantar um complexo integrado que soma 195 MW de geração solar fotovoltaica e 960 MWh de capacidade de armazenamento em baterias na região de Antofagasta.
Os sistemas BESS serão conectados diretamente ao barramento de consumo de eletricidade das instalações de mineração, atuando para mitigar a intermitência da fonte solar e assegurar o suprimento de energia 100% renovável para ambas as operações. O início da operação comercial do conjunto está programado a partir de 2029, consolidando a tendência global de autoprodução industrial sustentável e desvinculação da volatilidade tarifária das redes de transmissão locais.
A estratégia por trás do armazenamento ‘Behind-the-Meter’
A integração de usinas solares a sistemas de baterias diretamente nos centros de carga (behind-the-meter) vem se consolidando como o modelo preferencial de descarbonização para indústrias eletrointensivas, como a mineração, metalurgia e data centers. Além de elevar o índice de resiliência energética diante de distúrbios de frequência e quedas de tensão na rede básica, a solução otimiza a eficiência operativa ao evitar encargos de transporte e perdas elétricas por transmissão profunda.
No contexto chileno, o projeto visa sustentar as metas corporativas de neutralidade de carbono em um momento de elevação da demanda por energia associada à expansão da produção do cobre. O movimento serve como um balizador técnico para o mercado brasileiro, que vivencia dinâmicas semelhantes de expansão de carga industrial e busca por flexibilidade operativa.
Olhar estratégico sobre o marco regulatório brasileiro
A relevância global do megaprojeto no Chile reverbera diretamente na estratégia comercial da Sungrow para o mercado brasileiro. A fabricante acelera seu posicionamento técnico e comercial no país em um momento de inflexão regulatória: os preparativos para o primeiro leilão de reserva de capacidade focado em baterias (LRCAP 2026), programado para dezembro.
Para atender à demanda projetada por este certame, a companhia já disponibiliza no portfólio nacional soluções como o PowerTitan 3.0. O sistema BESS voltado a projetos de grande porte de utilidade pública e plantas industriais combina até 7,14 MWh por unidade modular, operando com uma eficiência de conversão de 92% e arquitetura focada em montagem e implantação aceleradas no canteiro de obras.
Ao analisar as perspectivas de abertura deste novo segmento de contratação regulada e livre no Brasil, o diretor-técnico da Sungrow, Mauro Fernando Basquera Junior, pondera que a tecnologia superou as barreiras iniciais de viabilidade: “O leilão de armazenamento tem potencial para marcar um novo capítulo do setor elétrico brasileiro. Estamos falando de uma tecnologia madura, amplamente validada em mercados internacionais e capaz de aumentar a eficiência e a confiabilidade de um sistema cada vez mais baseado em fontes renováveis.”
O executivo da Sungrow complementa a análise chamando a atenção para a evolução do debate institucional de infraestrutura energética, que migrou da viabilidade conceitual para a expansão em escala: “Há dez anos discutíamos o potencial das baterias. Hoje discutimos escala, competitividade e integração ao sistema elétrico. O Brasil tem a oportunidade de acelerar essa transformação e criar um mercado robusto para uma tecnologia que será fundamental para a segurança energética do futuro.”
Flexibilidade operativa e atração de investimentos
Analistas setoriais apontam que a definição das regras de preços-teto e regras de conexão para o leilão de baterias da Aneel funcionará como um catalisador de aportes bilionários. A inserção de sistemas BESS no Sistema Interligado Nacional (SIN) é classificada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) como prioridade técnica para o gerenciamento da curva de carga na ponta, absorvendo o excesso de geração solar e eólica do Nordeste durante o dia para despachar potência firme nos horários de pico noturnos.
Nesse cenário, grandes desenvolvedores de geração centralizada e comercializadores buscam fechar acordos de fornecimento com players globais de tecnologia de armazenamento para mitigar riscos de suprimento em seus lances em dezembro. A experiência com a BHP no Chile confere à fabricante as credenciais de larga escala necessárias para atuar nos exigentes editais nacionais que começam a desenhar o futuro da infraestrutura do SIN.



