ABRAPCH e Abragel mudam comando sob pressão de cortes na geração hídrica

Transição entre Alessandra Torres e Lucas Pimentel reconfigura o comando das associações em junho, em meio ao debate sobre remuneração de atributos hídricos na ANEEL.

O segmento brasileiro de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) inicia um novo ciclo de articulação política e regulatória em um momento de crescente complexidade para a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). A Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (ABRAPCH) confirmou uma mudança estratégica em sua diretoria executiva: após mais de uma década à frente da entidade, Alessandra Torres de Carvalho deixará a presidência da associação em junho de 2026. O comando passará ao advogado e especialista em regulação Lucas Pimentel.

A movimentação ocorre em um ambiente marcado pela reconfiguração estrutural da matriz elétrica brasileira, pela escalada dos cortes de geração renovável, o chamado curtailment, e pela crescente pressão das fontes hidrelétricas de menor porte para que seus atributos sistêmicos sejam reconhecidos em futuras modelagens de contratação de potência e flexibilidade.

A saída de Alessandra da ABRAPCH, contudo, não representa afastamento do núcleo decisório do setor. A executiva assumirá a presidência da Abragel, mantendo protagonismo institucional nas discussões envolvendo geração renovável, segurança energética e expansão da infraestrutura elétrica nacional.

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Transição preserva linha institucional da associação

A sucessão foi estruturada em formato de continuidade administrativa. Em reunião extraordinária, o conselho da entidade aprovou por unanimidade a ascensão de Lucas Pimentel, até então vice-presidente, para a presidência da diretoria executiva da ABRAPCH. O engenheiro Daniel Faller assumirá a vice-presidência, completando a composição da gestão até o encerramento do mandato 2024-2027.

A mudança ocorre em um período considerado decisivo para o posicionamento das PCHs dentro do novo desenho regulatório do setor elétrico. O avanço acelerado da geração solar e eólica alterou profundamente a dinâmica operativa do SIN, aumentando a necessidade de fontes despacháveis, armazenamento e capacidade de resposta rápida, atributos tradicionalmente associados às hidrelétricas.

Durante sua trajetória na entidade, Alessandra Torres consolidou a presença institucional da associação nos debates conduzidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Ministério de Minas e Energia (MME), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e Congresso Nacional. Ao comentar sua saída da entidade, a executiva destacou o fortalecimento político do segmento ao longo dos últimos anos: “Foi uma jornada de muito aprendizado, desafios e conquistas. Tenho profundo orgulho de tudo o que construímos coletivamente ao longo desses anos na ABRAPCH. Tivemos avanços importantes para o reconhecimento das PCHs e CGHs dentro do setor elétrico brasileiro e, principalmente, fortalecemos a união do segmento. Sou extremamente grata pela confiança, parceria e oportunidade de representar um sector tão estratégico para o país”

Curtailment e sobreoferta renovável elevam pressão sobre pequenas hidrelétricas

A nova gestão assume a entidade em um momento particularmente delicado para os pequenos geradores hidrelétricos. O aumento da penetração de fontes renováveis intermitentes, especialmente solar fotovoltaica e eólica, ampliou episódios de restrição de despacho impostos pelo ONS em diferentes regiões do país.

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O chamado curtailment, redução compulsória da geração por limitações elétricas ou operativas, tornou-se uma das principais preocupações financeiras do segmento. Embora o fenômeno afete diferentes fontes, as PCHs vêm argumentando que a atual modelagem do sistema não remunera adequadamente atributos como regularidade operativa, capacidade de resposta e suporte à estabilidade da rede.

Na avaliação de agentes do setor, o avanço da discussão sobre serviços ancilares, armazenamento e potência tende a recolocar as hidrelétricas de pequeno porte em posição estratégica dentro da transição energética brasileira. Além do curtailment, a entidade acompanha discussões consideradas prioritárias para o setor, como os Leilões de Reserva previstos na Lei nº 14.182/2021, a regulamentação das Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs) e os mecanismos de remuneração da flexibilidade operativa.

Nova gestão terá foco em regulação e fortalecimento regional

Lucas Pimentel chega à presidência da ABRAPCH com forte atuação jurídica e regulatória no setor elétrico. Nos bastidores do mercado, a expectativa é de intensificação da agenda institucional da entidade junto à ANEEL e ao MME, especialmente em pautas ligadas à modernização do desenho de mercado e ao reconhecimento econômico dos atributos das fontes hídricas.

Ao assumir o cargo, o executivo indicou que a associação buscará ampliar sua atuação regional e aprofundar a interlocução com os principais órgãos setoriais: “Assumo a presidência da ABRAPCH com muito entusiasmo e com foco nos desafios jurídicos, regulatórios e institucionais que teremos nos próximos meses. Juntos, iremos fortalecer ainda mais as PCHs, as CGHs e a própria Associação, inclusive por meio da ampliação e consolidação de seu posicionamento regional”

A chegada de Pimentel coincide com um momento em que o setor elétrico brasileiro discute uma revisão mais ampla dos sinais econômicos da expansão energética. Com o avanço das renováveis intermitentes e a crescente preocupação com segurança sistêmica, agentes ligados às pequenas hidrelétricas avaliam que o mercado tende a reconhecer, de forma mais explícita, o valor da capacidade firme, da flexibilidade e da estabilidade operacional fornecida pelas usinas hídricas.

Pequenas hidrelétricas tentam recuperar protagonismo na transição energética

Apesar da expansão acelerada das fontes solar e eólica nos últimos anos, o segmento de PCHs tenta reposicionar sua narrativa dentro da agenda de transição energética. A defesa do setor é que pequenas usinas hidrelétricas oferecem uma combinação relevante entre baixa emissão, previsibilidade operacional e suporte à rede elétrica.

Nesse contexto, o debate sobre remuneração por capacidade e serviços ao sistema ganhou centralidade para os agentes hídricos. A percepção predominante entre executivos do setor é que a simples comercialização de energia deixou de capturar o valor real entregue por determinadas tecnologias ao SIN.

A reorganização das lideranças associativas ocorre justamente em meio a essa mudança estrutural do setor elétrico brasileiro, no qual atributos como armazenamento, estabilidade, flexibilidade e segurança energética passaram a ocupar posição equivalente, ou até superior, ao custo marginal puro da geração.

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