MME articula política nacional de terras raras para transformar Brasil em polo industrial da transição energética

Governo busca atrair capital estrangeiro com estabilidade regulatória e aposta na verticalização da cadeia mineral após avanço da Serra Verde com a USA Rare Earth

O Ministério de Minas e Energia (MME) intensificou as articulações para consolidar uma política nacional voltada ao desenvolvimento da cadeia de terras raras no Brasil, mirando a expansão industrial associada à transição energética global. Em reunião realizada nesta terça-feira (19), o ministro Alexandre Silveira recebeu o CEO Global do Grupo Serra Verde, Thras Moraitis, e o presidente de operações da companhia no Brasil, Ricardo Grossi Neves, para discutir os próximos passos do projeto mineral de Minaçu, em Goiás, atualmente o único ativo brasileiro em operação comercial dedicado à produção de elementos terras raras pesadas em larga escala.

A movimentação ocorre em meio ao aumento da disputa internacional por minerais críticos utilizados na fabricação de turbinas eólicas, motores elétricos, sistemas de armazenamento de energia e tecnologias de defesa. O governo federal tenta posicionar o Brasil como um fornecedor estratégico de materiais críticos para mercados ocidentais, mas com foco em agregar valor industrial ao minério extraído no país.

A estratégia em discussão no MME prevê a criação de um ambiente regulatório capaz de atrair investimentos estrangeiros para etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva, incluindo refino químico, separação de óxidos e produção de materiais magnéticos avançados.

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Governo quer romper lógica de exportação de commodities minerais

O encontro entre o governo e a Serra Verde reforça uma mudança de direcionamento da política mineral brasileira. A intenção da União é evitar que o país permaneça restrito à exportação de concentrados minerais de baixo valor agregado enquanto outros mercados capturam as etapas mais rentáveis da industrialização tecnológica.

A sinalização ganhou força após a fusão da Serra Verde com a norte-americana USA Rare Earth, operação considerada estratégica pelo governo por ampliar o acesso da mineradora a capital, tecnologia e cadeias globais de fornecimento fora da influência chinesa.

Durante a audiência, Alexandre Silveira destacou que a política em elaboração busca transformar os investimentos estrangeiros em instrumentos de desenvolvimento industrial doméstico: “O Brasil está aberto ao capital americano e de qualquer outro país que respeite a nossa soberania, essa é a mensagem que o presidente Lula deixou ao presidente dos Estados Unidos e a todo o mundo. Todos conhecem as nossas potencialidades e riquezas minerais, por isso estamos trabalhando na construção de uma política para que estes investimentos internacionais, como o da Serra Verde, se consolidem como um ativo estratégico para o desenvolvimento industrial e mineral nacional, fazendo com que o nosso país deixe de ser apenas um exportador de commodities”.

A leitura dentro do setor mineral é de que o governo tenta aproveitar o atual rearranjo geopolítico das cadeias globais para inserir o Brasil como alternativa estratégica ao domínio asiático sobre os minerais críticos.

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Separação química é principal gargalo da cadeia de terras raras

Apesar do avanço da produção mineral brasileira, a etapa de separação química dos elementos terras raras ainda representa um dos maiores desafios tecnológicos e financeiros para a consolidação da cadeia no país.

Atualmente, a unidade da Serra Verde em Minaçu já realiza o processamento mineral até a produção do Carbonato de Terras Raras, etapa considerada relevante na agregação de valor industrial. O próximo salto tecnológico, porém, envolve a capacidade de separar individualmente elementos como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, insumos fundamentais para ímãs permanentes de alta performance utilizados na indústria de energia limpa.

Essa etapa é historicamente concentrada na China, que domina grande parte da infraestrutura global de refino e processamento avançado desses minerais. Diante desse cenário, o MME busca estruturar mecanismos regulatórios e financeiros para reduzir a percepção de risco dos investidores internacionais interessados em instalar plantas industriais de maior complexidade tecnológica no Brasil.

Alexandre Silveira reforçou que o governo pretende oferecer previsibilidade institucional para sustentar projetos de longo prazo no segmento mineral: “Queremos garantir toda a estabilidade ao investimento estrangeiro, tanto do ponto de vista regulatório, ambiental e econômico. Sabemos das condições geopolíticas favoráveis do Brasil, por isso os investidores podem confiar no Brasil”, concluiu Silveira.

Serra Verde avalia novas tecnologias após fusão com empresa americana

A integração da Serra Verde com a USA Rare Earth abriu uma nova frente tecnológica para o projeto brasileiro. A companhia avalia incorporar soluções mais avançadas de processamento mineral, ampliando a verticalização da produção dentro do território nacional.

O CEO Global do grupo, Thras Moraitis, sinalizou que a empresa pretende analisar novas possibilidades industriais a partir da combinação de expertise operacional brasileira com tecnologias de separação e refino acessadas após a fusão corporativa: “Saudamos a confirmação do Ministro sobre a abertura do Brasil ao investimento privado, no interesse de desenvolver o significativo potencial do Brasil no fornecimento global de materiais críticos. Investimos valores substanciais de capital privado ao longo de 15 anos, o que nos permitiu processar nosso minério em um carbonato de alto valor. Nossa combinação com a USA RE nos proporciona acesso a novas tecnologias que podem agregar ainda mais valor ao nosso produto no Brasil, o que estamos comprometidos em avaliar”.

A expectativa do governo é que a política para minerais críticos avance nos próximos meses com participação de bancos públicos de fomento, criação de linhas de financiamento específicas e eventual formulação de regimes tributários diferenciados para plantas de processamento avançado.

Brasil tenta ocupar espaço estratégico na transição energética global

O avanço da agenda de terras raras coloca o Brasil em posição estratégica dentro da corrida internacional por segurança de suprimento de minerais críticos. Com reservas relevantes, estabilidade geológica e forte potencial de expansão mineral, o país aparece como candidato natural a fornecedor de insumos para a cadeia global de energia limpa.

Ao mesmo tempo, o desafio brasileiro será transformar disponibilidade mineral em capacidade industrial e tecnológica. Sem essa verticalização, especialistas avaliam que o país corre o risco de repetir o modelo histórico de exportação primária de commodities sem captura significativa de valor agregado.

A construção de uma política coordenada entre mineração, indústria, energia e inovação tecnológica passa a ser vista como um elemento-chave para inserir o Brasil na nova geografia econômica da descarbonização global.

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