Geopolítica dos minerais críticos: terras raras colocam o Brasil no centro da disputa entre EUA e China

Com a segunda maior reserva global, país enfrenta o desafio urgente de estruturar uma política industrial própria que supere o modelo de mera exportação de matéria-prima bruta.

O acirramento da corrida global por insumos essenciais à transição tecnológica e energética reposicionou o Brasil em uma das frentes mais complexas do tabuleiro geopolítico internacional. O avanço na disputa pelo controle dos minerais críticos, com ênfase nas terras raras, elementos químicos indispensáveis para a fabricação de ímãs de alta potência, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas avançados de defesa, acendeu o alerta sobre o papel estratégico que o país pode desempenhar na reorganização das cadeias globais de suprimentos.

A atual conjuntura exige que o governo e o setor privado estabeleçam diretrizes claras e marcos regulatórios robustos. A grande meta é garantir que o potencial geológico brasileiro seja convertido em inovação tecnológica, empregos qualificados e adensamento industrial interno, evitando que o país atue apenas como fornecedor periférico de commodities de baixo valor agregado. O redesenho desse mercado global indica que a competição entre as grandes potências superou os limites da atividade extrativa convencional.

O foco das superpotências agora se concentra no domínio das etapas subsequentes, que envolvem o refino e o desenvolvimento de componentes tecnológicos de alto valor, conforme analisa o especialista em energia e mudanças climáticas, Eric Fernando Boeck Daza: “O mundo já não disputa apenas minério bruto. A disputa é por contratos, tecnologia e capacidade industrial. O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta, mas ainda participa muito pouco da cadeia global de valor.”

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O paradoxo da abundância mineral e o monopólio de refino

O cenário brasileiro é marcado por um profundo descompasso entre a riqueza subterrânea e a capacidade de processamento industrial. Dados de mercado apontam que, embora o território nacional abrigue a segunda maior reserva de terras raras do planeta, a participação do país no mercado consumidor internacional é residual.

Ao avaliar os fatores estruturais que consolidaram a hegemonia de players asiáticos nesse segmento, o especialista Eric Daza pontua que a liderança chinesa não foi construída apenas pela disponibilidade geológica, mas pela consolidação de uma cadeia industrial completa, envolvendo refino, separação química, metalurgia e fabricação de ímãs de alta tecnologia.

Essa concentração de mercado gerou uma forte reação no Ocidente. Em resposta ao quase monopólio asiático, a Casa Branca e governos europeus passaram a desenhar políticas de nearshoring e friendshoring para mitigar vulnerabilidades em suas linhas de produção de alta tecnologia. O movimento de Washington inclui a injeção de subsídios estatais e a busca por novos parceiros comerciais na América Latina.

A estratégia norte-americana ganhou contornos mais incisivos nos últimos meses, uma vez que os Estados Unidos também passaram a adotar uma postura mais agressiva para reduzir sua dependência da China, com participação direta do governo no setor, investimentos bilionários e contratos estratégicos de longo prazo.

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Uma agenda estratégica para o processamento local

Diante do assédio das duas maiores economias do mundo, o principal desafio do planejamento estratégico brasileiro é romper com o ciclo histórico de economia agroexportadora ou puramente extrativista. O debate regulatório atual gira em torno da criação de mecanismos que obriguem ou incentivem o beneficiamento químico desses minerais dentro das fronteiras nacionais.

Para contornar as pressões bilaterais e focar no desenvolvimento doméstico, Eric Daza sinaliza o caminho que a diplomacia corporativa e o governo devem adotar: “O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos ou China. O ponto central é construir uma estratégia própria, que transforme o potencial mineral em processamento local, geração de tecnologia, empregos qualificados e competitividade industrial.”

A implementação dessa estratégia soberana de longo prazo depende de reformas estruturais na política de mineração do país. Entre as ações de curto e médio prazo consideradas prioritárias, destacam-se a formulação de regras específicas para contratos de longo prazo envolvendo minerais críticos, a imposição de cotas ou exigências de processamento em território nacional e a criação de sistemas de transparência sobre o destino, preços e uso estratégico da produção mineral brasileira.

O cronograma para a tomada dessas decisões é considerado apertado pelos analistas do setor de energia e infraestrutura. Com as cadeias globais se reconfigurando rapidamente por meio de novos acordos bilaterais, o Brasil tem um espaço de tempo limitado para se impor como um polo industrial avançado.

Ao projetar o impacto das decisões regulatórias atuais sobre o futuro econômico do país, o especialista Eric Daza reforça o caráter emergencial da pauta: “A janela de oportunidade é curta. Os próximos meses serão determinantes para definir se o Brasil continuará apenas exportando base material ou se conseguirá transformar essa riqueza em capacidade industrial, avanço tecnológico e geração de renda.”

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