Encontro do Setor Elétrico em Cuiabá reforça protagonismo do estado na expansão renovável brasileira; novos projetos de transmissão e programa MT Trifásico devem destravar conexões e impulsionar biogás, armazenamento e industrialização no campo
O Mato Grosso consolidou nesta semana sua posição como uma das principais fronteiras de expansão energética do Brasil. Durante o Encontro da Indústria do Setor Elétrico 2026, realizado em Cuiabá, representantes do governo, reguladores e empresas anunciaram medidas voltadas à ampliação da infraestrutura de transmissão e distribuição de energia, em uma tentativa de resolver gargalos que vinham limitando novos investimentos em geração renovável no estado.
O evento, promovido pelo Sindenergia-MT e encerrado na terça-feira (13), reuniu mais de 1,2 mil participantes e concentrou discussões sobre segurança energética, expansão da rede elétrica, armazenamento, biogás, hidrogênio e modernização do sistema de distribuição em regiões agrícolas. A sinalização de novos empreendimentos de transmissão a partir de 2027 foi interpretada pelo mercado como um passo decisivo para reabrir capacidade de conexão a projetos que estavam represados por limitações estruturais do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Transmissão volta ao centro da estratégia energética
A principal preocupação do setor em Mato Grosso nos últimos anos vinha sendo a dificuldade de conexão de novos ativos de geração, especialmente projetos solares, de biomassa e biogás. O crescimento acelerado da economia estadual e da demanda industrial ampliou a pressão sobre a infraestrutura existente, reduzindo a margem operacional para expansão da matriz elétrica local.
A retomada de investimentos em transmissão foi tratada como prioridade durante o encontro. A expectativa do setor é que o novo ciclo de expansão, previsto para começar em 2027, permita destravar projetos atualmente paralisados por ausência de capacidade de escoamento.
Ao avaliar o cenário apresentado durante o evento, o presidente do Sindenergia-MT, Carlos Garcia, ressaltou que os anúncios representam uma mudança importante para o ambiente de negócios do estado: “A principal notícia foi o avanço da rede de transmissão do Estado. A gente estava sem espaço para conectar novos empreendimentos e isso começa a mudar com os investimentos que foram anunciados.”
Garcia destacou ainda que a articulação entre agentes privados e órgãos reguladores tem sido fundamental para recolocar Mato Grosso no radar estratégico da expansão elétrica nacional: “Estamos conseguindo construir soluções para retomada de conexões que estavam paradas e chamando atenção para a importância estratégica de Mato Grosso como fornecedor de energia renovável para o país.”
Energisa e governo estadual ampliam aportes na distribuição
Além da expansão da transmissão, o evento também foi marcado pelo anúncio de um pacote de R$ 9 bilhões em investimentos da Energisa para modernização da rede de distribuição. Os recursos devem ser direcionados à ampliação da qualidade do fornecimento, digitalização do sistema e reforço da infraestrutura em áreas urbanas e rurais.
O governo estadual também confirmou novos aportes no programa MT Trifásico, que prevê R$ 700 milhões para expansão de redes trifásicas no interior. A iniciativa busca aumentar a confiabilidade energética nas regiões agrícolas e criar condições para industrialização mais próxima da produção rural.
A estratégia atende diretamente setores intensivos em consumo elétrico, como irrigação, armazenagem, processamento de grãos, frigoríficos e bioenergia, segmentos que vêm ampliando a demanda por energia de qualidade no estado.
Biomassa, biogás e armazenamento ganham protagonismo
O encontro também evidenciou o avanço da discussão sobre novas tecnologias associadas à transição energética. Com uma das maiores produções agropecuárias do país, Mato Grosso possui elevada disponibilidade de resíduos orgânicos para produção de biogás e biometano, tema que dominou parte dos painéis técnicos do evento.
Especialistas defenderam que o estado reúne condições para se transformar em um polo nacional de energia renovável associada à biomassa, integrando geração distribuída, armazenamento por baterias e soluções voltadas à descarbonização industrial.
O sócio-administrador da Sinep Engenharia, Dêib Martins, avaliou que o ambiente técnico do evento mostrou uma mudança de maturidade do setor energético regional: “Saio daqui com muito aprendizado. O evento mostrou desafios, mas também muitas oportunidades para desenvolver tecnologia e aplicar soluções que atendam o crescimento do estado.”
Na avaliação do executivo, o aproveitamento energético dos resíduos agroindustriais ainda representa uma fronteira pouco explorada economicamente: “Mato Grosso tem recurso, tem demanda e tem potencial. O importante agora é transformar isso em projetos bem executados e sustentáveis.”
Setor elétrico amplia peso econômico no estado
Os dados apresentados durante o encontro mostram que o setor elétrico já ocupa posição estratégica na economia mato-grossense. Informações do Observatório da Indústria indicam que a atividade elétrica gerou R$ 1,55 bilhão em arrecadação de ICMS no último ano, além de manter mais de 7,2 mil empregos formais em operação.
Com mais de 300 empresas ativas ligadas à cadeia energética, o estado começa a consolidar um ecossistema que combina expansão renovável, infraestrutura elétrica e industrialização associada ao agronegócio.
O avanço da transmissão e da distribuição aparece agora como condição essencial para sustentar a próxima etapa desse crescimento. Para agentes do setor, o desafio deixa de ser apenas ampliar a oferta de geração renovável e passa a envolver a capacidade de integrar esses ativos ao sistema com segurança, previsibilidade regulatória e eficiência operacional.
Nesse contexto, o Encontro da Indústria do Setor Elétrico 2026 serviu não apenas como fórum técnico, mas como uma sinalização clara de que Mato Grosso pretende disputar protagonismo na nova geografia energética brasileira.



