Fabricante de pás eólicas corta R$ 24 milhões em despesas operacionais no 1T26, melhora EBITDA em R$ 33 milhões e prepara reativação de linhas industriais com carteira de 1,4 GW em novos contratos
A crise que atingiu a cadeia eólica brasileira nos últimos dois anos começa a apresentar sinais de estabilização para a Aeris Energy (AERI3). A fabricante cearense de pás para aerogeradores encerrou o primeiro trimestre de 2026 com melhora operacional relevante, sustentada por cortes de despesas, crescimento das exportações e novos contratos que podem destravar uma retomada gradual da produção no país.
Os resultados divulgados pela companhia mostram uma estratégia clara de preservação de caixa e readequação industrial em meio ao ambiente ainda pressionado pelo curtailment, pela desaceleração de novos projetos e pela retração dos investimentos domésticos em geração eólica. Apesar do prejuízo líquido de R$ 138 milhões no período, a empresa conseguiu reduzir em R$ 24 milhões suas despesas operacionais em relação ao quarto trimestre de 2025 e registrar uma evolução de R$ 33 milhões no EBITDA.
O desempenho reforça a tentativa da Aeris de atravessar o ciclo de baixa do setor com uma estrutura mais enxuta e menos dependente exclusivamente do mercado brasileiro.
Exportações ganham protagonismo na estratégia da Aeris
Com o mercado doméstico ainda afetado pelas restrições operacionais impostas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as exportações passaram a desempenhar papel central na sustentação da receita da fabricante.
A companhia registrou R$ 77,2 milhões em exportações no primeiro trimestre de 2026, avanço de 237,6% na comparação anual. O movimento ajudou a impulsionar a receita operacional líquida para R$ 105,6 milhões no período.
A estratégia evidencia uma mudança estrutural no posicionamento da Aeris, que busca reduzir sua exposição às incertezas regulatórias e operacionais do setor elétrico brasileiro. A diversificação geográfica tornou-se uma alternativa para compensar a desaceleração da contratação de novos parques eólicos no mercado nacional.
O cenário brasileiro ainda é impactado pelos cortes de geração renovável, principalmente no Nordeste, região que concentra grande parte da capacidade eólica instalada do país. O avanço do curtailment reduziu previsibilidade para investidores e afetou diretamente fabricantes da cadeia produtiva.
Novos contratos indicam retomada gradual da demanda
Mesmo em um ambiente ainda desafiador, a Aeris avalia que os primeiros sinais de recuperação começam a surgir no pipeline de projetos.
A companhia anunciou a captura de aproximadamente 1,4 GW em novos contratos para o período entre 2026 e 2027, volume que dará suporte à reativação gradual de quatro linhas de produção anteriormente desmobilizadas. Hoje, a empresa opera com apenas duas linhas maduras ativas, reflexo da forte retração enfrentada pela indústria nos últimos anos.
Ao comentar as perspectivas para o mercado eólico brasileiro, o CEO da Aeris Energy, Alexandre Negrão, destacou a preparação da companhia para um possível novo ciclo de expansão: ““O setor eólico brasileiro ainda atravessa um período de baixa atividade, mas começamos a observar sinais que podem indicar uma retomada gradual da demanda nos próximos trimestres. A captura de aproximadamente 1,4 GW em novos projetos e a previsão de reativação progressiva de linhas de produção refletem nossa preparação para esse novo momento do mercado.””
Parte relevante dos contratos está ligada a projetos da Casa dos Ventos e de outros grupos que retomaram investimentos em geração renovável no fim de 2025. Além disso, a fabricante monitora negociações avançadas que podem acrescentar mais 0,7 GW ao portfólio.
Disciplina financeira vira prioridade na indústria eólica
A melhora operacional da Aeris também reflete um esforço rigoroso de racionalização de custos. A empresa reduziu despesas com pessoal, serviços e gastos comerciais, além de eliminar impactos não recorrentes que haviam pressionado os resultados anteriores.
A preservação de liquidez passou a ocupar posição central na estratégia corporativa diante da volatilidade do setor. Na avaliação da companhia, manter disciplina na alocação de capital será determinante para atravessar o período de baixa atividade e garantir competitividade quando o mercado voltar a acelerar.
Ao detalhar as prioridades financeiras da fabricante, Alexandre Negrão reforçou o foco em eficiência e resiliência operacional: “Seguimos avançando em iniciativas voltadas à eficiência operacional, à otimização da estrutura de custos e ao fortalecimento da posição financeira da companhia, mantendo disciplina na alocação de capital e foco na construção de uma operação mais resiliente e preparada para capturar a retomada gradual do setor no médio e longo prazo.”
Cadeia eólica ainda enfrenta desafios estruturais
Embora os números indiquem melhora operacional, o ambiente para a indústria eólica brasileira segue desafiador. O setor ainda convive com excesso de oferta de energia renovável em determinadas regiões, gargalos de transmissão e dificuldades para viabilizar novos contratos no mercado regulado.
Ao mesmo tempo, o avanço da demanda por energia limpa, a necessidade de expansão da infraestrutura elétrica e o crescimento da eletrificação da economia mantêm perspectivas positivas para o longo prazo. Nesse contexto, fabricantes como a Aeris tentam equilibrar sobrevivência financeira no curto prazo com posicionamento estratégico para capturar a próxima onda de investimentos em transição energética.
A reativação das linhas produtivas e o avanço das exportações indicam que a empresa busca sair da crise mais diversificada, eficiente e menos vulnerável aos ciclos do mercado interno.



