Após recuperação financeira e melhora operacional, distribuidora inicia nova fase com foco em digitalização, redução de perdas e fortalecimento da infraestrutura elétrica
A Light inicia um novo capítulo em sua trajetória no setor elétrico brasileiro após a renovação de sua concessão de distribuição por mais 30 anos, oficializada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) na última sexta-feira (8). A decisão, respaldada por recomendação técnica da ANEEL, encerra um dos períodos mais delicados da história recente da companhia e abre espaço para um ciclo de investimentos estimado em R$ 10 bilhões nos próximos cinco anos.
O novo contrato consolida a recuperação operacional e financeira da distribuidora após o processo de recuperação judicial iniciado em 2023 e reforça a estratégia do governo federal de preservar a continuidade dos serviços de distribuição em áreas críticas do país. A concessão da Light atende 4,3 milhões de unidades consumidoras em 31 municípios do estado do Rio de Janeiro, abrangendo cerca de 12 milhões de pessoas.
A renovação ocorreu após a companhia atender aos critérios estabelecidos pelo Decreto nº 12.068/2024, que definiu parâmetros mais rígidos para continuidade do serviço, sustentabilidade econômico-financeira e desempenho operacional das distribuidoras brasileiras.
Plano bilionário prioriza modernização e digitalização da rede
Com a concessão renovada, a Light pretende acelerar um dos maiores programas de modernização de infraestrutura elétrica já realizados no estado do Rio de Janeiro. O plano prevê investimentos médios de R$ 2 bilhões por ano até 2030, mais que dobrando o ritmo histórico de aportes da companhia.
O foco principal estará na renovação de ativos depreciados, automação da rede, digitalização operacional e ampliação da capacidade de resposta diante de eventos climáticos extremos, que vêm pressionando distribuidoras em todo o país.
Ao detalhar a nova fase da companhia, o CEO da Light, Alexandre Nogueira, destacou que a reestruturação financeira foi decisiva para viabilizar a retomada dos investimentos: “O plano de investimentos reafirma nosso compromisso com a modernização da rede elétrica e a melhoria contínua da qualidade do serviço para os cidadãos cariocas e fluminenses. Isso só foi possível devido à redução drástica de endividamento promovida pela negociação junto aos credores, além de avanços robustos nos indicadores operacionais. A gestão pautada no caixa, saneamento da operação e busca de um contrato que observe condições importantes na área de concessão foi vital para alcançar este marco”.
A companhia também pretende ampliar o uso de tecnologias voltadas para automação de redes, monitoramento remoto e inteligência operacional, reduzindo interrupções e aumentando a eficiência das equipes de campo.
Recuperação judicial dá lugar à agenda de crescimento
A renovação da concessão representa um marco simbólico para a Light após anos de deterioração financeira e operacional. Em maio de 2023, a companhia entrou em recuperação judicial em meio ao aumento do endividamento, perdas não técnicas elevadas e pressão sobre o caixa.
A homologação do Plano de Recuperação Judicial em junho de 2024 marcou o início da reestruturação da distribuidora, permitindo renegociação de passivos e reorganização da estrutura financeira.
De acordo com a companhia, a dívida da distribuidora foi reduzida em 44% após a conclusão do processo de reestruturação, passando de R$ 10,8 bilhões para R$ 6 bilhões em valor justo no âmbito do plano de recuperação.
Alexandre Nogueira afirmou que a empresa estruturou sua recuperação em três pilares estratégicos: sustentabilidade financeira, eficiência operacional e estabilidade regulatória: “Realizamos, nos últimos anos, um trabalho com resultados expressivos em uma área de concessão complexa, com a segunda maior base de ativos do país e a mais depreciada. O novo contrato dá à Light sustentabilidade para realizar esses investimentos, seguir melhorando o serviço e voltar a remunerar os acionistas”.
Indicadores operacionais mostram avanço da distribuidora
A melhora operacional foi um dos fatores centrais para a renovação da concessão. A Light conseguiu reduzir significativamente indicadores de interrupção e atendimento ao consumidor, em linha com as exigências regulatórias da ANEEL.
A duração equivalente das interrupções por consumidor (DEC) encerrou o acumulado de 12 meses em 6,53 horas, abaixo do limite regulatório de 6,80 horas. Já a frequência equivalente de interrupções (FEC) ficou em 3,27 vezes, 27,3% inferior ao teto estabelecido pela agência reguladora. A empresa também registrou redução de aproximadamente oito pontos percentuais nas interrupções superiores a 24 horas em 2025 na comparação com o ano anterior.
Outro indicador que apresentou melhora relevante foi o Tempo Médio de Atendimento (TMA), que caiu de 1.251 minutos em dezembro de 2023 para 567 minutos em dezembro de 2025. O avanço foi impulsionado pela ampliação das equipes de campo, reforço logístico e adoção de soluções como motoatendimento e callback automatizado.
Áreas de risco e perdas seguem como principal desafio estrutural
Apesar da melhora operacional, a Light ainda enfrenta desafios históricos relacionados às perdas técnicas e comerciais em sua área de concessão, especialmente em regiões classificadas como áreas de risco. O novo modelo contratual prevê tratamento regulatório diferenciado para essas localidades, tema que ainda será regulamentado pela ANEEL ao longo de 2026.
Na avaliação da companhia, a criação de mecanismos tarifários específicos poderá reduzir impactos de furtos de energia e inadimplência sobre a sustentabilidade financeira da distribuidora: “A possibilidade de uma tarifa específica para áreas de risco, trazida no novo arcabouço contratual, é fundamental para redução de furto e inadimplência”, afirma o CEO.
Capitalização deve acelerar saída definitiva da recuperação judicial
Como parte da estratégia para consolidar a recuperação financeira, o Plano de Recuperação Judicial prevê ainda um aumento de capital entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão nos próximos 90 dias, com suporte dos acionistas de referência. Os recursos serão destinados à renovação de ativos, expansão da rede, combate às perdas, investimentos em tecnologia da informação e reforço patrimonial.
Segundo Alexandre Nogueira, a capitalização representa a etapa final do processo de reorganização iniciado há dois anos: “Os trabalhos intensos realizados nos últimos anos tiveram o objetivo de arrumar a casa e renovar a concessão. Estes investimentos de agora são o último ato para que a empresa finalmente saia da recuperação judicial e encerre esse ciclo”, ressalta Nogueira.
O mercado agora acompanha a capacidade da distribuidora de transformar a melhora operacional recente em estabilidade de longo prazo, especialmente em um ambiente regulatório mais rigoroso e pressionado por eventos climáticos extremos, crescimento da demanda elétrica e avanço da digitalização da economia.



