Países favoráveis ao Net-Zero Framework isolam tentativa liderada pelos EUA de enfraquecer metas climáticas do transporte marítimo internacional
A disputa em torno da descarbonização do transporte marítimo global ganhou um novo capítulo estratégico durante a 84ª sessão do Comitê de Proteção do Meio Ambiente Marinho (MEPC84), da Organização Marítima Internacional (IMO), em Londres. Em meio à pressão de países produtores de petróleo para enfraquecer o Net-Zero Framework (NZF), a maioria das nações participantes manteve apoio à criação de um mecanismo global de precificação de carbono para o setor marítimo.
Embora os Estados Unidos e aliados tenham conseguido adiar a adoção definitiva do acordo para uma nova rodada de negociações ainda este ano, a tentativa de retirar o preço do carbono e flexibilizar metas de intensidade de carbono não obteve apoio político suficiente para desmontar a estrutura já construída dentro da IMO.
O resultado das negociações reforça a crescente polarização geopolítica em torno da transição energética no transporte marítimo, setor responsável por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, e amplia a pressão sobre armadores, operadores logísticos e fornecedores de combustíveis para acelerar investimentos em soluções de baixo carbono.
Coalizão pró-descarbonização ganha força
Durante o encontro em Londres, 55 países defenderam explicitamente a manutenção do mecanismo de precificação de carbono e dos instrumentos de financiamento previstos no Net-Zero Framework. Entre eles estão Brasil, União Europeia, Reino Unido, Austrália, Canadá, México, Colômbia, Quênia, Namíbia, África do Sul e diversos pequenos Estados insulares.
Na prática, esses países sustentam que a criação de um preço global para emissões do transporte marítimo é essencial para reduzir a competitividade dos combustíveis fósseis tradicionais e acelerar a adoção de alternativas como hidrogênio verde, amônia verde, metanol renovável e eletrocombustíveis.
Do outro lado da negociação, 51 países liderados pelos Estados Unidos defenderam a reabertura do acordo para alterações estruturais. O grupo inclui Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Rússia, Argentina e Venezuela.
As propostas apresentadas por esse bloco envolvem a retirada do mecanismo de precificação de carbono e o enfraquecimento dos limites de intensidade de carbono dos combustíveis marítimos, medidas que, na avaliação de especialistas, prolongariam a dependência global de bunker fóssil.
Net-Zero Framework segue como única base oficial de negociação
Apesar do impasse político, os países concordaram em manter o Net-Zero Framework como o único texto oficialmente nomeado e reconhecido dentro do processo de negociação da IMO.
A decisão foi considerada estratégica por observadores do setor, porque impede que propostas alternativas substituam formalmente o NZF como referência principal para o avanço regulatório.
Um relatório do UCL Shipping & Oceans Research Group aponta que o saldo das negociações vai além da simples manutenção do acordo: o NZF voltou a se consolidar como a única plataforma viável para destravar um consenso global sobre descarbonização marítima.
Entre as novas propostas apresentadas nas discussões estão:
- Uma proposta de Fiji para criação de uma taxa global de carbono caso o acordo seja reaberto;
- Uma proposta do Japão para eliminar o componente de precificação de carbono;
- Uma proposta conjunta de Panamá e Libéria para remover o preço do carbono e flexibilizar os limites de intensidade de carbono dos combustíveis.
Guerra no Oriente Médio amplia pressão sobre transição energética
As discussões ocorreram simultaneamente à conferência da Colômbia sobre eliminação gradual dos combustíveis fósseis e em um momento de forte pressão sobre os preços globais do bunker marítimo, impactados pela escalada do conflito no Oriente Médio.
Com o aumento dos custos operacionais da navegação internacional, o debate climático deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a incorporar uma dimensão econômica cada vez mais relevante para armadores e operadores logísticos.
A volatilidade dos combustíveis fósseis reforça a percepção de que a diversificação energética e a eletrificação parcial da cadeia logística marítima podem representar ganhos de competitividade e previsibilidade de custos no médio prazo.
Países insulares pressionam por avanço do acordo
Entre os países mais ativos na defesa do Net-Zero Framework estão pequenos Estados insulares, considerados altamente vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.
“Fiji, juntamente com outros Estados do Pacífico, veio a Londres com um mandato claro de apoiar a adoção do Net-Zero Framework este ano. Como um pequeno Estado insular em desenvolvimento já afetado pelas mudanças climáticas, ouvimos atentamente as preocupações levantadas por outros países nas últimas duas semanas. Com o Framework agora avançando como texto base para uma nova reunião, Fiji continua confiante de que o NZF pode ser adotado este ano como está”, disse Aseri Driu, diretora de Transporte do Ministério do Comércio, Turismo e Transporte de Fiji.
Para especialistas ligados à agenda de transição energética, o resultado das negociações trouxe alívio diante da tentativa de enfraquecimento do acordo.
“Diante de alarmismo e desinformação de certos Estados petroleiros, uma coalizão da África, Europa, América Latina e Pacífico defendeu o NZF como o caminho para a transição energética do transporte marítimo”, observa Joe Williams, da Green Hydrogen Organization. “A mudança para eletrocombustíveis baseados em energias renováveis é ainda mais importante diante do conflito no Oriente Médio, que expôs o enorme custo da dependência de combustíveis fósseis.”
Mercado aguarda sinal regulatório definitivo
O avanço do Net-Zero Framework é acompanhado de perto por investidores, tradings, fornecedores de bunker, estaleiros e desenvolvedores de combustíveis sustentáveis para navegação.
A expectativa do mercado é que a definição de regras obrigatórias de redução de emissões e de precificação de carbono crie um sinal econômico claro para destravar investimentos bilionários em infraestrutura portuária, produção de combustíveis verdes e renovação de frotas.
“O Net Zero Framework, que deve tornar obrigatórias as reduções de emissões no transporte marítimo global, está no caminho para adoção este ano. Não podemos deixar esse momento passar”, afirma Manuel Pulgar-Vidal, líder global de clima e energia do WWF, presidente da COP20, no Peru. “O sinal para os mercados deve ser inequívoco, navios mais limpos, combustíveis mais limpos e reduções reais de emissões ainda nesta década.”
Caso a IMO consiga consolidar o acordo ainda em 2026, o transporte marítimo internacional poderá entrar em uma nova fase regulatória, marcada pela precificação global das emissões e pela aceleração da corrida tecnológica por combustíveis de baixo carbono.



