Empresas aceleram investimentos em energia limpa, mas riscos e barreiras freiam a transição, aponta pesquisa da WTW

Estudo global revela que companhias planejam ampliar em 34% os aportes em tecnologias renováveis, mas preocupações com cadeia de suprimentos, riscos geopolíticos e condições climáticas desafiam a expansão

A transição energética já não é mais uma escolha futura: é uma realidade presente e estratégica para empresas de diversos setores. No entanto, apesar do avanço nos planos e na percepção de oportunidades, o caminho para uma matriz mais limpa continua repleto de obstáculos. É o que revela a pesquisa Global Clean Energy Survey 2025, realizada pela consultoria de riscos e corretora de seguros WTW em parceria com a Coleman Parkes Research.

O levantamento ouviu 450 executivos de alto nível nas áreas de risco, sustentabilidade e operações, abrangendo setores de energia renovável, petróleo, gás e produtos químicos, mineração e metais, além de energia e serviços públicos. Os dados indicam que 63% das empresas enxergam a transição para energias limpas como uma oportunidade de crescimento, um movimento que vem se traduzindo em investimentos robustos. Em média, as companhias planejam ampliar em 34% os aportes em tecnologias e infraestrutura de energia limpa no próximo ano fiscal, passando de US$ 185 milhões em 2024-2025 para US$ 249 milhões.

Segundo Paulo Mantovani, diretor de Recursos Naturais da WTW no Brasil, o interesse é claro, mas a cautela é inevitável. “A análise indica que há o interesse das empresas em investir em energias renováveis e menos agressivas ao planeta, mas o movimento exige cautela, principalmente por conta dos riscos e desafios”, explica.

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Crescimento desigual entre setores e regiões

A pesquisa mostra que os planos de investimento variam de acordo com o segmento. O setor de mineração e metais lidera, com expectativa de aumento de 51%, enquanto petróleo e gás registram uma expansão mais modesta, de 29%. Regionalmente, a América do Norte se destaca: 20% das empresas planejam investir entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão. Em contrapartida, no Oriente Médio, apenas 5% das companhias pretendem aportar valores dessa magnitude.

Mantovani avalia que essas diferenças refletem a maturidade dos mercados e a urgência da agenda climática em cada região. “Alguns países já estão mais avançados em políticas de descarbonização, o que incentiva investimentos em escala, enquanto outros ainda enfrentam barreiras regulatórias e estruturais”, observa o executivo.

Principais riscos e barreiras

Apesar do otimismo, os riscos continuam sendo um freio para decisões mais ousadas. 79% dos entrevistados apontaram a quebra na cadeia de suprimentos como a maior preocupação, seguida de riscos geopolíticos (78%). Questões climáticas também pesam: 61% temem interferências relacionadas a condições climáticas, como falta de vento, luz solar ou chuva – fatores que podem comprometer modelos de geração eólica, solar e hídrica e causar perdas financeiras. Já 50% mencionaram os riscos climáticos físicos como uma das principais apreensões.

A combinação desses fatores exige estratégias de mitigação sofisticadas, nas quais o mercado segurador tende a desempenhar papel cada vez mais relevante. No entanto, o setor também enfrenta desafios internos para atender à demanda crescente. Entre os maiores obstáculos para a transferência de riscos ao mercado de seguros, a pesquisa destaca exclusões amplas ou excessivas (53%), duração limitada ou inflexibilidade dos seguros (48%) e falta de produtos adequados (47%).

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Diferentes estágios da transição energética

Embora todas as empresas de recursos naturais ouvidas tenham declarado possuir uma estratégia de energia limpa, a maturidade varia significativamente. Entre as companhias de energias renováveis, 71% já estão em fase de implementação ou com planos totalmente implementados. Em contraste, apenas 63% das empresas de energia, 43% das de mineração e metais e 36% das de petróleo e gás avançaram nesse nível.

Essa diferença também se reflete nas prioridades de investimento. No curto e médio prazo, 51% dos executivos apontam a energia solar como prioridade, enquanto 61% miram soluções de armazenamento de baterias e captura e armazenamento de carbono no médio e longo prazo. Já em um horizonte de dez anos, fontes geotermais e hidrogênio surgem como áreas de alta prioridade.

Para Mantovani, a mudança de foco é um sinal de pragmatismo. “A transição energética é algo urgente, mas já ficou visível que os grandes projetos de engenharia ficaram em segundo plano, com as empresas apostando em algo mais ‘simples’ e rápido. Além disso, formas de armazenamento também são um motivo de preocupação, o que requer investimentos e pesquisas”, finaliza.

Seguro como peça-chave da nova matriz energética

O estudo da WTW reforça que a indústria de seguros terá papel central na viabilização da transição energética, mas para isso precisa superar barreiras estruturais. Franquias elevadas, períodos de carência e exigências de engenharia de risco ainda limitam a contratação de apólices específicas para projetos renováveis. A criação de produtos mais flexíveis e adaptados às novas demandas será fundamental para dar segurança a investidores e acelerar o ritmo da descarbonização.

Com investimentos em expansão, riscos complexos e a necessidade de novas soluções financeiras, o setor de energia limpa vive um momento de oportunidades e desafios em igual medida. A próxima década será decisiva para transformar estratégias em resultados e garantir que o avanço da transição energética não fique preso às barreiras identificadas pela pesquisa.

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