Companhia amplia receita em 35% mesmo com queda de 21,6% nos ventos no 1T26; Projeto Satoshi e operações no mercado livre ajudam a mitigar restrições de geração e pressão climática
A Renova Energia encerrou o primeiro trimestre de 2026 em um cenário operacional desafiador para o setor eólico brasileiro, marcado por redução significativa do recurso de vento e elevados níveis de curtailment no Nordeste. Ainda assim, a companhia conseguiu ampliar sua receita líquida em 35,3%, reduzir prejuízos e avançar em uma estratégia de diversificação operacional que passa pela integração entre geração renovável, comercialização de energia e infraestrutura digital.
O resultado evidencia uma mudança gradual no posicionamento da empresa, que busca reduzir a dependência exclusiva da geração eólica tradicional em meio ao aumento das restrições de escoamento impostas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
No trimestre, a velocidade média dos ventos caiu de 8,13 m/s para 6,37 m/s, retração de 21,6% na comparação anual. O impacto direto foi uma queda próxima de 25% na geração bruta. Mesmo diante desse cenário, a Renova reduziu o prejuízo consolidado para R$ 33,4 milhões e registrou Ebitda ajustado de R$ 42,4 milhões, avanço de 27,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Data center vira ferramenta contra curtailment
O principal diferencial operacional do trimestre foi a entrada em operação do Projeto Satoshi, iniciativa que conecta demanda intensiva de processamento digital diretamente aos ativos de geração da companhia. Na prática, o projeto utiliza infraestrutura de data center como mecanismo para absorção local da energia produzida, reduzindo a exposição da companhia às limitações de transmissão da rede básica.
O movimento representa uma mudança importante na lógica de monetização dos ativos renováveis no Brasil. Em vez de depender exclusivamente do despacho no SIN, a empresa passa a criar uma demanda física próxima da geração, mitigando perdas provocadas pelos cortes operacionais.
O índice de curtailment da Renova recuou de 51% para 39% da geração bruta na comparação anual, um dos principais indicadores operacionais acompanhados pelo mercado.
Ao detalhar a estratégia da companhia para investidores, o CFO e diretor de Relações com Investidores da Renova, João Cunha, afirmou que o Projeto Satoshi representa uma nova etapa no modelo de negócios da empresa, ampliando sua atuação para além da geração tradicional de energia.
Cunha destacou ainda que o empreendimento já operava com aproximadamente metade da capacidade instalada em abril e deve ampliar gradualmente sua contribuição financeira ao longo do segundo semestre, conforme a demanda computacional avance até a carga total prevista.
Comercialização impulsiona receita em cenário de PLD elevado
Outro vetor importante para os resultados do trimestre veio da área de comercialização de energia. O segmento registrou crescimento de 37,8% no faturamento, alcançando R$ 88,4 milhões, beneficiado pela forte valorização do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
No período, o PLD avançou 94% no submercado Sudeste e disparou 392% no Nordeste, movimento impulsionado pela combinação entre restrições operacionais, condições climáticas e maior volatilidade hidrológica.
Apesar do ganho financeiro no mercado de curto prazo, a administração da companhia mantém cautela sobre a sustentabilidade desse cenário. Isso porque o curtailment continua impondo custos relevantes às geradoras renováveis, especialmente em momentos de preços elevados.
Mesmo com receita adicional na comercialização, a energia não injetada no sistema obriga a liquidação de contratos de lastro a valores de mercado mais altos, reduzindo parte do benefício operacional. O episódio reforça um problema estrutural do setor elétrico brasileiro: o avanço acelerado da expansão renovável sem crescimento proporcional da infraestrutura de transmissão.
Baterias e hibridização entram no radar estratégico
A Renova também sinalizou avanço nos estudos para implantação de sistemas de armazenamento por baterias (BESS) e projetos híbridos envolvendo geração solar associada aos parques eólicos existentes. A estratégia busca reduzir a volatilidade operacional causada pela intermitência climática e ampliar a previsibilidade de receita da companhia.
A viabilidade desses investimentos, contudo, depende diretamente do desenho regulatório que será definido pelo Ministério de Minas e Energia (MME), especialmente no âmbito do próximo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap).
A expectativa do setor é que o certame abra espaço para contratação de potência proveniente de sistemas de armazenamento, criando uma nova frente de monetização para ativos renováveis no país.
João Cunha indicou que a companhia acompanha de perto a evolução regulatória do leilão e vê no armazenamento uma oportunidade relevante para reduzir a exposição estrutural aos ciclos de vento e às restrições de transmissão.
Reestruturação financeira melhora resiliência operacional
No campo financeiro, a Renova também colheu efeitos positivos da reestruturação de capital concluída anteriormente. Os encargos da dívida recuaram 26,4% no trimestre, contribuindo para aliviar a pressão sobre o resultado líquido.
A companhia atribui parte da melhora operacional à disciplina na gestão de custos e ao planejamento das manutenções preventivas durante o período de menor intensidade dos ventos. A estratégia busca preservar a máxima disponibilidade operacional para o segundo semestre, período historicamente mais favorável para geração eólica no Nordeste.
Em um cenário marcado por sobreoferta renovável, restrições de transmissão e crescente pressão por flexibilidade no sistema elétrico, a Renova passa a reposicionar seus ativos em direção a um modelo mais integrado entre energia, infraestrutura digital e armazenamento, movimento que começa a ganhar relevância entre geradoras renováveis expostas ao avanço do curtailment no Brasil.



