Aval da agência garante importação de até 15 milhões de m³/dia de GNL em Santa Catarina, enquanto indefinição sobre retorno do navio regaseificador pode levar à hibernação temporária da infraestrutura
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) renovou a autorização de importação de Gás Natural Liquefeito (GNL) da NFE Power Latam, subsidiária da norte-americana New Fortress Energy, para operação no Terminal Gás Sul (TGS), em São Francisco do Sul (SC). A medida preserva, no plano regulatório, a capacidade de movimentação de até 15 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural regaseificado, mantendo o ativo apto a operar dentro da estratégia de expansão da infraestrutura de gás no Sul do país.
Apesar da renovação da outorga, o terminal enfrenta um impasse operacional relevante: a ausência de uma Unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação (FSRU), equipamento indispensável para a recepção, estocagem e regaseificação do GNL. Sem a embarcação, o terminal permanece tecnicamente incapaz de realizar operações comerciais, situação que passou a ser monitorada de perto pela ANP.
A indefinição sobre o retorno de um novo navio regaseificador abre uma frente de incerteza para o ativo catarinense, justamente em um momento em que o mercado brasileiro busca ampliar a segurança energética e fortalecer a diversificação do suprimento de gás natural.
ANP avalia manutenção da autorização operacional
A renovação foi formalizada por meio da Autorização SIM-ANP nº 256, publicada no Diário Oficial da União. O ato garante a continuidade da habilitação regulatória da NFE Power Latam para importar GNL pelo Terminal Gás Sul, localizado na Baía da Babitonga. No entanto, a superintendência responsável pela fiscalização da infraestrutura de movimentação de gás avalia os impactos da desmobilização do FSRU anteriormente alocado no projeto. A embarcação foi retirada após o adiamento sucessivo de projetos termelétricos que dariam sustentação econômica à operação contínua do terminal.
Hoje, a companhia trabalha com dois cenários para retomada da infraestrutura. O primeiro prevê a chegada de um novo FSRU em julho de 2026, permitindo o início da operação comercial no mês seguinte. Já o cenário alternativo projeta o reposicionamento da embarcação apenas em julho de 2027, ampliando significativamente o período de ociosidade do terminal.
A própria ANP reconheceu que a extensão desse hiato operacional pode provocar medidas administrativas mais duras sobre a infraestrutura: “A depender do cronograma da empresa, a ANP avalia se a autorização para operação do terminal poderá continuar vigente, ou se será necessária uma desativação temporária da instalação.”
O posicionamento sinaliza que a agência busca evitar a manutenção indefinida de ativos sem efetiva operacionalidade, especialmente em um segmento sensível para a segurança de abastecimento nacional.
Terminal nasceu para reduzir dependência do Gasbol
Inaugurado em 2024, o Terminal Gás Sul foi concebido como um dos principais projetos de diversificação de suprimento da Região Sul, reduzindo a dependência estrutural do gás importado da Bolívia pelo Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol).
A proposta original da New Fortress Energy previa transformar Santa Catarina em uma nova porta de entrada de GNL para abastecimento industrial, geração termelétrica e reforço do sistema regional de gás natural. O projeto ganhou relevância estratégica em meio ao avanço da interiorização do consumo de gás e ao aumento da demanda térmica no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Na modelagem inicial, a viabilidade econômica do terminal estava diretamente conectada à contratação de usinas termelétricas em leilões de capacidade promovidos pelo Ministério de Minas e Energia (MME). O atraso recorrente desses certames, entretanto, deteriorou a lógica financeira do empreendimento.
Sem demanda contratada firme para sustentar os custos de afretamento do FSRU, a companhia optou por redirecionar a embarcação para mercados internacionais com maior previsibilidade de receita.
LRCAP recoloca ativo no radar estratégico
A realização do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP), em março de 2026, alterou novamente o cenário do ativo catarinense. A New Fortress Energy saiu vencedora no produto com início de suprimento em 2031, por meio da comercialização da usina termelétrica Lins II.
Na prática, o resultado do leilão devolve previsibilidade de longo prazo ao projeto, criando uma âncora futura de demanda para o consumo de gás natural importado pelo terminal. Ainda assim, existe um descasamento temporal relevante entre a contratação da térmica e a necessidade de manter a infraestrutura ativa até o início efetivo do fornecimento de potência ao sistema. Esse intervalo obrigará a companhia a negociar com a ANP mecanismos que preservem a validade regulatória do terminal sem comprometer as exigências operacionais da agência.
O caso também evidencia um dos principais desafios da expansão da infraestrutura de gás no Brasil: alinhar o cronograma de investimentos privados em ativos logísticos com os ciclos de contratação do setor elétrico.
Mercado acompanha risco regulatório para terminais de GNL
O desdobramento envolvendo o Terminal Gás Sul passou a ser acompanhado com atenção por agentes do mercado de gás natural e investidores em infraestrutura energética. A eventual suspensão temporária da autorização operacional poderia criar um precedente relevante para outros projetos dependentes de contratos futuros de geração térmica. Além disso, o episódio reforça o debate sobre a necessidade de maior coordenação entre políticas de expansão do setor elétrico, segurança energética e desenvolvimento da infraestrutura de gás natural liquefeito no país.
Em um cenário de crescimento das fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, os terminais de GNL e as usinas térmicas flexíveis continuam sendo vistos como ativos estratégicos para garantir estabilidade operativa ao SIN, sobretudo em períodos de estresse hidrológico ou restrição de oferta.
A capacidade do Terminal Gás Sul de permanecer regulatoriamente ativo até a entrada em vigor dos contratos do LRCAP poderá se tornar um teste importante para o modelo brasileiro de integração entre os mercados de gás e energia elétrica.



