Impulsionado pelo avanço da moagem de cana-de-açúcar, biocombustível recua 3,83% na segunda semana de maio e chega a R$ 4,48 o litro, aponta o Monitor Veloe/Fipe.
O avanço da safra de cana-de-açúcar na região Centro-Sul do país começou a desenhar uma nova dinâmica de preços nas bombas brasileiras, alterando temporariamente a competitividade dos biocombustíveis no mercado de transporte leve. Na segunda semana de maio de 2026, o preço do etanol hidratado registrou a queda mais intensa entre os principais combustíveis automotivos, atingindo o menor patamar nominal do ano.
De acordo com o mais recente relatório do Monitor de Preços de Combustíveis, desenvolvido pela Veloe em parceria técnica com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o preço médio nacional do litro do etanol recuou 3,83% na comparação direta com a última semana de abril, fixando-se em R$ 4,48. No mesmo intervalo de comparação, a gasolina comum e o óleo diesel S-10 registraram retrações consideravelmente mais modestas, operando em estabilidade técnica com quedas de 0,27% e 1,27%, respectivamente.
Pressão de oferta e o comportamento do mix sucroenergético
A descompressão observada nos preços do hidratado reflete o ganho de ritmo nas usinas do Centro-Sul, principal polo produtor do biocombustível no mundo. A maior disponibilidade física de produto no mercado spot interno vem se sobrepondo à curva de demanda das últimas semanas, consolidando um vetor baixista que se estende desde o fechamento do mês anterior.
Os analistas responsáveis pelo levantamento estrutural da Veloe e da Fipe detalham essa tendência de arrefecimento e a diferenciação de comportamento frente aos derivados de petróleo: “Os dados do Monitor de Preços de Combustíveis da Veloe, elaborado com apoio técnico da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), mostram um comportamento distinto entre os combustíveis. Enquanto gasolina e diesel S-10 passaram por uma acomodação parcial após as altas registradas entre o fim de março e o início de abril, o etanol aprofundou o movimento de queda iniciado ainda na segunda semana de abril, reforçando a influência da maior oferta do biocombustível sobre os preços.”
Desde o pico de preços verificado em meados de abril, quando o biocombustível flertou com tetos históricos na entressafra, o valor médio nacional do hidratado acumulou uma retração de 7,0%, o que representa um alívio nominal de R$ 0,34 por litro nos postos de abastecimento.
Paridade atinge 69,7% e altera indicador de competitividade
O principal desdobramento técnico desse recuo acentuado é a inversão na atratividade econômica do biocombustível para a frota de veículos flex. Tradicionalmente, o mercado adota a linha de corte de 70% na relação de preços entre o etanol e a gasolina como o limite matemático para definir qual combustível oferece o melhor rendimento financeiro por quilômetro rodado.
A equipe macroeconômica do projeto quantifica os reflexos práticos dessa nova correlação de forças na média dos estados: “Desde o pico observado em meados de abril, o preço médio nacional do etanol recuou cerca de 7,0%, passando de R$ 4,82 para R$ 4,48 por litro, uma redução acumulada de R$ 0,34 por litro. O movimento reforça a leitura de que o avanço da safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul e o consequente aumento da oferta do biocombustível vêm exercendo pressão baixista sobre os preços. Esse comportamento também melhorou a atratividade relativa do etanol em relação à gasolina: a relação entre os preços dos dois combustíveis caiu de 71,7% na última semana de abril para 69,7% na segunda semana de maio, retornando a um patamar inferior à referência de 70% tradicionalmente utilizada como parâmetro aproximado para veículos flex. Na prática, isso sugere que o etanol voltou a apresentar uma pequena vantagem econômica na média nacional, embora essa relação possa variar conforme o estado, o veículo e as condições locais de preço.”
| Combustível | Preço Médio Nacional (R$/L) | Variação Percentual |
| Etanol Hidratado | R$ 4,48 | -3,83% |
| Gasolina Comum | R$ 6,76 | -0,27% |
| Diesel S-10 | R$ 7,21 | -1,27% |
Impacto regionalizado e vetor geográfico das quedas
O movimento deflacionário do biocombustível não ocorreu de forma homogênea pelo território nacional, concentrando-se de maneira estratégica nas franjas produtoras e nos grandes centros logísticos de distribuição do Sudeste e do Centro-Oeste.
O mapeamento detalhado por unidades federativas aponta quais mercados lideraram as maiores contrações absolutas no valor do litro comercializado na ponta final da cadeia: “A queda do etanol também apareceu de forma disseminada entre importantes mercados consumidores e produtores do biocombustível. Em termos absolutos, as maiores reduções no preço médio por litro foram observadas em Goiás (-R$ 0,24), Distrito Federal (-R$ 0,22), São Paulo (-R$ 0,21), Minas Gerais (-R$ 0,20) e Mato Grosso (-R$ 0,19). A presença de estados do Centro-Oeste e do Sudeste entre os principais recuos reforça a influência do avanço da safra no Centro-Sul e da maior disponibilidade do produto sobre os preços finais.”
O mercado de transição e combustíveis renováveis mantém agora o monitoramento voltado para variáveis exógenas que podem ditar a sustentabilidade dessa tendência de baixa. Entre os fatores de risco mapeados pelos agentes do setor estão as oscilações do barril de petróleo do tipo Brent, a volatilidade cambial do dólar frente ao real e a flexibilidade industrial das usinas na definição de seu mix de produção, que calibra a destinação da matéria-prima entre o mercado internacional de açúcar e o abastecimento doméstico de biocombustíveis.



