Serviço Geológico do Brasil propõe no Congresso uma estratégia nacional para transformar o país em fornecedor global de insumos da transição energética com maior agregação de valor e cadeia verticalizada
O avanço da transição energética global e a corrida internacional por minerais críticos colocaram o Brasil no centro de uma disputa geoeconômica estratégica. Em audiência pública realizada na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) defendeu a criação de uma política nacional voltada às terras raras e aos minerais estratégicos, com foco na industrialização da cadeia produtiva e no fortalecimento da soberania mineral brasileira.
O debate reuniu representantes do governo, especialistas, pesquisadores e agentes do setor mineral para discutir mecanismos regulatórios e industriais capazes de posicionar o país de forma mais competitiva no mercado global de insumos essenciais à descarbonização da economia.
A discussão ocorre em um momento de crescente pressão internacional sobre a oferta de minerais como neodímio, praseodímio, lítio e cobalto, matérias-primas fundamentais para a fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias e sistemas de armazenamento de energia.
Brasil quer sair da posição de exportador de minério bruto
O principal eixo do debate no Congresso girou em torno da necessidade de o Brasil abandonar um modelo concentrado apenas na exportação de commodities minerais e avançar na agregação de valor industrial. Atualmente, embora possua reservas relevantes e elevado potencial geológico, o país ainda participa de forma periférica das cadeias globais de fornecimento de produtos de alta tecnologia derivados das terras raras. O processamento químico, a separação mineral e a fabricação de componentes magnetizados continuam concentrados em mercados asiáticos, especialmente na China.
Ao apresentar o posicionamento institucional do Serviço Geológico do Brasil, o diretor-presidente da autarquia, Vilmar Simões, destacou que o país precisa transformar seu potencial geológico em vantagem industrial e estratégica: “O Serviço Geológico do Brasil tem a missão de desenvolver, integrar e disseminar o conhecimento geológico do país e, desde a década de 1980, realiza pesquisas relacionadas às terras raras, acumulando avanços importantes ao longo dos anos. Diante da crescente relevância geopolítica dos minerais críticos, entendemos que o Brasil precisa avançar na regulamentação de políticas voltadas ao setor e aproveitar a oportunidade estratégica de fortalecer sua posição global”.
A avaliação predominante entre os participantes da audiência é que a segurança energética do futuro dependerá não apenas da expansão das fontes renováveis, mas também da capacidade dos países de controlar cadeias de suprimento de minerais críticos.
Verticalização industrial entra na pauta do Congresso
A proposta defendida pelo SGB vai além da ampliação da pesquisa mineral. O órgão argumenta que o Brasil precisa estruturar uma cadeia produtiva verticalizada capaz de transformar minério em insumos industriais de maior valor agregado. Esse movimento envolve o desenvolvimento de tecnologia nacional para processamento, purificação e refino de terras raras, etapa considerada um dos maiores gargalos globais do setor.
Hoje, o mercado internacional de materiais processados derivados de terras raras movimenta aproximadamente US$ 8 bilhões anuais. A maior parte desse valor, entretanto, está concentrada em etapas industriais e tecnológicas nas quais o Brasil ainda possui baixa participação.
Ao abordar a necessidade de integração entre pesquisa geológica, inovação e política industrial, Vilmar Simões reforçou o papel estratégico da cooperação institucional: “Nesse contexto, o Serviço Geológico do Brasil tem muito a contribuir para o desenvolvimento da pesquisa geológica nacional, em um effort conjunto com o Executivo, a academia e instituições de pesquisa para desenvolver tecnologia brasileira e consolidar uma cadeia produtiva verticalizada no país”.
Minerais críticos ganham protagonismo na transição energética
O avanço da mobilidade elétrica, da geração renovável e dos sistemas de armazenamento elevou a importância estratégica dos minerais críticos em todo o mundo. Ímãs permanentes utilizados em turbinas eólicas dependem de elementos de terras raras como neodímio e praseodímio. Já baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento utilizam lítio, níquel, manganês e cobalto em larga escala.
Nesse contexto, governos passaram a tratar a mineração estratégica como tema de segurança nacional e industrial. Estados Unidos, União Europeia e China vêm ampliando programas de incentivo à exploração, processamento e nacionalização dessas cadeias produtivas.
O Brasil aparece nesse cenário como um dos países com maior potencial de expansão mineral, especialmente diante da abundância de reservas e da crescente demanda global por matérias-primas ligadas à descarbonização.
Aerogeofísica e inteligência geológica atraem investimentos
O Serviço Geológico do Brasil também destacou que a expansão da mineração estratégica depende diretamente do aprofundamento do conhecimento geocientífico sobre o território nacional. Para reduzir riscos exploratórios e ampliar a atratividade do país junto a investidores, o órgão vem intensificando campanhas de aerogeofísica, mapeamento geológico regional e levantamentos geoquímicos de alta resolução.
Essas ferramentas permitem identificar novas províncias minerais e oferecer maior previsibilidade técnica para empresas interessadas em desenvolver projetos de exploração e beneficiamento. Na avaliação de representantes do setor produtivo presentes na audiência pública, a disponibilidade de dados geológicos confiáveis tornou-se um dos principais fatores de atração de capital para projetos de minerais críticos.
O movimento legislativo em curso na Câmara dos Deputados busca justamente conectar esse banco de dados geocientíficos a mecanismos de incentivo econômico, financiamento e política industrial de longo prazo.
Segurança mineral passa a integrar estratégia energética brasileira
A audiência pública evidenciou que o debate sobre minerais críticos já ultrapassou a esfera da mineração e passou a integrar diretamente a agenda de segurança energética e transição energética do país.
O entendimento predominante entre especialistas é que a expansão da infraestrutura renovável brasileira dependerá da capacidade de assegurar fornecimento doméstico de insumos estratégicos, reduzindo a exposição a cadeias globais concentradas e vulneráveis a tensões geopolíticas.
Ao mesmo tempo, o país tenta aproveitar a janela de oportunidade aberta pela reconfiguração global das cadeias industriais para se posicionar não apenas como fornecedor de minério bruto, mas como um polo industrial associado à economia de baixo carbono.



