Reforma do setor elétrico via medida provisória acende alerta para risco de retrocessos ambientais e legais

Instituto E+ critica ausência de debate público e aponta risco de “jabutis” que favorecem térmicas; mudanças na CDE e tarifas dinâmicas são vistas como avanços pontuais

A possibilidade de que a tão esperada reforma do setor elétrico brasileiro seja encaminhada pelo governo federal por meio de medida provisória (MP) vem gerando fortes críticas entre especialistas e instituições ligadas à transição energética. O Instituto E+ Transição Energética, um dos think tanks mais atuantes no setor, manifestou preocupação com a escolha do instrumento legislativo, apontando riscos significativos à qualidade e à coerência da proposta.

Segundo a diretora-executiva do E+, Rosana Santos, o uso da MP — que tem tramitação acelerada e restrições ao debate público — amplia as chances de inclusão de dispositivos estranhos ao tema central, os chamados “jabutis”. Esses adendos legislativos, muitas vezes inseridos sem transparência, podem desvirtuar os objetivos da reforma e comprometer os compromissos ambientais do Brasil.

“A renovabilidade da nossa matriz elétrica é uma vantagem estratégica no contexto da transição energética global. Incluir jabutis que incentivem a geração térmica, por exemplo, coloca essa posição em risco e pode comprometer nossa competitividade na exportação de produtos de baixo carbono”, alerta Santos.

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Risco de retrocessos ambientais

A crítica à possível inclusão de estímulos à geração térmica no texto da reforma tem base concreta. Ao longo dos últimos anos, diversas medidas legislativas introduziram subsídios ou benefícios a fontes fósseis de energia, o que contraria as metas de descarbonização assumidas pelo Brasil no Acordo de Paris e nos fóruns internacionais do clima.

Na visão do Instituto E+, um processo de reforma do setor elétrico que ignore o papel central das renováveis e não avance no reconhecimento de atributos essenciais — como a flexibilidade operacional — está fadado a gerar desequilíbrios econômicos, técnicos e ambientais.

Ausência de mecanismos para valorização da flexibilidade

Um dos pontos mais criticados pelo E+ é o silêncio da proposta sobre a remuneração dos serviços de flexibilidade, prestados por fontes capazes de responder rapidamente às variações de oferta e demanda, algo cada vez mais necessário em um sistema com alta penetração de energia solar e eólica.

“Não basta gerar energia limpa. É preciso garantir que ela esteja disponível nos momentos certos. Isso exige mecanismos modernos de remuneração, capazes de valorizar tecnologias que prestam esse tipo de serviço ao sistema”, ressalta Rosana Santos.

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Avanços pontuais: nova CDE e tarifas dinâmicas

Apesar das críticas, o Instituto reconhece alguns pontos positivos na proposta de reforma. Um deles é o fim da aplicação do critério de faixa de tensão no rateio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), mecanismo que financia políticas públicas no setor elétrico. Na prática, a mudança permite uma redistribuição mais justa dos encargos entre os consumidores, seguindo o princípio da equidade tarifária.

“Essa correção é histórica e muito bem-vinda. Tarifas mais justas fortalecem a confiança dos consumidores no setor elétrico e ampliam a sustentabilidade do modelo”, destaca a diretora do E+.

Outro aspecto avaliado positivamente é a previsão de tarifas diferenciadas, que permitem ajustar os preços de acordo com o horário de consumo. Essa medida pode incentivar o deslocamento da demanda para fora dos horários de pico, contribuindo para maior eficiência do sistema elétrico e redução de custos.

A urgência da transparência e do diálogo público

O Instituto E+ reforça que uma reforma estrutural do setor elétrico deve ser construída com ampla participação social, diálogo técnico e base em evidências. Reformar o setor por medida provisória, além de arriscado, pode gerar instabilidade jurídica e econômica.

“Precisamos de uma reforma que olhe para o futuro, com compromisso com a descarbonização, segurança energética e justiça social. Isso só será possível com transparência, planejamento e escuta ativa da sociedade civil”, conclui Rosana Santos.

Enquanto o texto da proposta segue em fase de construção, a decisão de optar por uma MP em vez de um projeto de lei coloca em xeque o processo democrático de construção das políticas públicas energéticas. O Brasil, protagonista na produção de energia limpa, não pode desperdiçar essa liderança por atalhos legislativos.

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