Por Eric Fernando Boeck Daza, Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas
O clima expõe um sistema em que geração e consumo já não estão no mesmo mapa.
Em setembro, o Norte brasileiro produziu menos eletricidade do que consumiu e precisou importar o restante de outras regiões. No Nordeste ocorreu o contrário: a geração ficou muito acima da carga local, a região exportou energia e, ainda assim, houve momentos em que parques eólicos e solares não conseguiram entregar tudo o que poderiam produzir. No Sul, a abundância de água completou um mapa de contrastes.
O El Niño torna essa diferença particularmente visível. E se projeta que o evento alcance intensidade muito forte até o fim do ano. Seus efeitos sobre chuva e vazões serão diferentes de uma região para outra. Mas o fenômeno climático, sozinho, não explica o que está acontecendo no sistema elétrico brasileiro.
A mudança mais importante é estrutural: geração e consumo já não estão no mesmo mapa.
Durante grande parte da industrialização brasileira, a lógica era relativamente clara. As fábricas, cidades e grandes mercados consumidores estavam concentrados em determinados lugares. O sistema encontrava recursos energéticos onde eles existiam, construía usinas e levava a eletricidade até esses centros por milhares de quilômetros de rede.
A expansão eólica e solar manteve essa lógica, porém trouxe novos desafios.
O Nordeste passou a concentrar uma parcela crescente da nova oferta elétrica brasileira porque reúne alguns dos melhores recursos renováveis do país. Sua demanda, porém, não cresceu na mesma escala da capacidade instalada. Durante boa parte do tempo, essa diferença é absorvida pelo Sistema Interligado e a energia viaja para outras regiões. Em outras horas, há geração disponível demais para o consumo existente naquele momento.
É aí que um problema aparentemente elétrico começa a se transformar em uma questão de política industrial.
A resposta tradicional para uma região que produz mais energia do que consome é aumentar a capacidade de transportá-la. O Brasil continuará precisando fazer isso. Uma rede continental é uma das grandes vantagens do seu sistema elétrico.
Mas transmissão não precisa ser a única forma de aproximar geração e consumo. Existe outra possibilidade: parte da nova demanda pode se aproximar da energia.
Essa inversão importa pouco para atividades em que eletricidade representa parcela pequena dos custos. Para setores eletrointensivos, pode mudar a decisão de investimento. Hidrogênio e derivados, fertilizantes, siderurgia de baixo carbono, processamento de minerais e grandes instalações digitais têm uma característica em comum: consomem eletricidade em escala suficiente para que disponibilidade, custo e conexão deixem de ser detalhes operacionais.
Por isso a concentração de projetos desse tipo no Nordeste não é apenas resultado de incentivos ou de uma nova narrativa de desenvolvimento regional. Existe uma lógica econômica por trás dela.
Um investimento industrial permanece no mesmo lugar por vinte ou trinta anos. Ao longo desse período, diferenças persistentes no custo e na disponibilidade da energia podem representar centenas de milhões de reais. Se uma região dispõe de grande oferta renovável, acesso portuário, infraestrutura e possibilidade de expansão da rede, a eletricidade passa a participar da escolha geográfica do investimento.
Esse movimento já deixou o plano teórico. Estudos recentes consideram a conexão de até 4 GW de novas cargas eletrointensivas no Ceará e no Piauí, acompanhadas da infraestrutura necessária para atendê-las. Mais importante do que o número é o que ele representa: pela primeira vez em escala relevante, o planejamento da nova geração e o da nova demanda começam a se aproximar.
Mas nem todo megawatt de consumo produz o mesmo efeito.
O Nordeste não precisa atrair qualquer indústria simplesmente porque dispõe de energia renovável. Tampouco energia será suficiente para determinar onde uma fábrica deve estar. Água, porto, matéria-prima, mão de obra, mercado, financiamento, tributação e segurança jurídica continuam pesando na decisão.
A novidade é que a energia passou a ter uma dimensão geográfica que havia perdido importância em um sistema cada vez mais integrado. Para algumas atividades, não basta perguntar quanto custará o megawatt-hora brasileiro. É preciso perguntar onde haverá energia disponível, em que horários, com qual possibilidade de conexão e com que grau de previsibilidade ao longo da vida do investimento.
O El Niño ajuda a revelar essa mudança porque coloca três realidades lado a lado. O Norte atravessa um período de menor disponibilidade hidrológica e precisa importar mais energia. O Sul vive situação oposta, com afluências muito acima da média. E o Nordeste consegue manter forte produção graças à expansão eólica e solar, mesmo quando sua própria hidrologia está abaixo do normal.
Um único país, conectado por uma mesma rede, pode, portanto, ter escassez relativa em uma região e excedentes em outra.
A consequência econômica é maior do que parece. Durante décadas, o Brasil planejou onde produzir energia e como levá-la até onde já estavam os consumidores. A expansão renovável abriu uma segunda lógica: para parte da nova indústria, a disponibilidade de energia também começa a influenciar onde o consumo será criado.
O El Niño vai passar. Essa mudança não.
O desafio para o Nordeste é transformar uma vantagem energética que hoje aparece como eletricidade exportada ou geração ocasionalmente restringida em uma vantagem econômica mais duradoura. Não se trata de reter energia artificialmente nem de escolher indústria em lugar de transmissão. Trata-se de reconhecer que, quando a geografia da geração muda, a geografia do investimento industrial também pode mudar com ela.



