Plano Decenal estima investimentos de até R$ 2,4 trilhões em exploração e produção entre 2027 e 2036. Pré-sal deve concentrar 73% da oferta de petróleo, enquanto expansão do gás depende de infraestrutura, aproveitamento de recursos e reposição de reservas.
O Brasil poderá produzir 4,9 milhões de barris de petróleo por dia em 2036, volume cerca de 30% superior ao registrado em 2025. A projeção consta do Caderno de Produção de Petróleo e Gás Natural do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2036, publicado nesta quinta-feira (5) pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
O documento também estima avanço expressivo da produção de gás natural. A oferta bruta poderá chegar a 308 milhões de metros cúbicos por dia (m³/d) em 2036, alta de 72% em relação a 2025. Já a produção líquida, descontados o consumo próprio, a reinjeção, as perdas e a queima, deverá alcançar 135 milhões de m³/d, crescimento de 125%.
As projeções indicam a manutenção de um patamar elevado de produção de hidrocarbonetos ao longo da próxima década. A concretização desse cenário, porém, dependerá da entrada de novas unidades de produção, da continuidade dos investimentos em exploração e produção (E&P) e da incorporação de novas reservas, em um contexto de desafios econômicos e de descarbonização das operações.
Pré-sal mantém protagonismo na produção de petróleo
A produção brasileira de petróleo deverá se aproximar de 5 milhões de barris por dia já em 2028, impulsionada principalmente pela entrada em operação de novas plataformas no pré-sal. Depois de atingir esse nível, a produção tende a permanecer próxima do pico, com previsão de 4,9 milhões de barris por dia em 2036.
O pré-sal responderá por 73% da produção nacional no fim do horizonte do PDE. Considerando o ambiente marítimo, águas profundas e ultraprofundas concentrarão 94% do volume produzido. A produção terrestre, por sua vez, deverá alcançar 153 mil barris por dia, equivalente a 3% do total.
A concentração da oferta em áreas offshore reforça a importância dos projetos de grande porte e da infraestrutura marítima para a trajetória prevista. Ao mesmo tempo, a manutenção da produção dependerá da capacidade de repor os volumes extraídos por meio de novas descobertas e do desenvolvimento de áreas ainda não incorporadas à produção.
Produção líquida de gás pode crescer 125% até 2036
No mercado de gás natural, a expansão projetada também será liderada por campos marítimos. As bacias de Santos e Campos, além de Sergipe-Alagoas e Parnaíba, aparecem entre as principais regiões responsáveis pelo crescimento da produção bruta, que deverá atingir 308 milhões de m³/d em 2036.
O pré-sal deverá responder por 76% desse volume. Na produção líquida, entretanto, sua participação será de aproximadamente 55%. A diferença reflete o peso dos volumes consumidos nas próprias instalações, reinjetados nos reservatórios, perdidos ou queimados antes que o gás fique disponível para o mercado.
A produção terrestre deverá alcançar 26 milhões de m³/d, cerca de 20% da oferta líquida nacional projetada. O avanço desse segmento amplia a relevância das bacias em terra na composição da disponibilidade futura de gás.
Gas Hub em Mero pode ampliar aproveitamento do gás
O caderno da EPE apresenta cenários de sensibilidade para iniciativas capazes de elevar a produção e o aproveitamento dos recursos nacionais. Entre as oportunidades está a implantação de um Gas Hub no campo de Mero, na Bacia de Santos.
A estrutura permitiria processar e disponibilizar gás proveniente de unidades que não possuem capacidade própria para separar o dióxido de carbono (CO₂). O potencial indicado pelo estudo é de exportação de até 15 milhões de m³/d.
Outra frente é o aumento do fator de recuperação dos campos, indicador que mede a parcela do petróleo e do gás originalmente presente nos reservatórios que pode ser efetivamente produzida. De acordo com o caderno, cada ganho de um ponto percentual nesse fator poderia acrescentar cerca de 207 milhões de barris de óleo equivalente (boe) aos volumes recuperáveis nas bacias terrestres e aproximadamente 2,3 bilhões de boe nas áreas marítimas.
Na Bacia de Campos, a revitalização de campos maduros, a conexão de novas descobertas à infraestrutura existente, por meio de projetos conhecidos como tiebacks, e a eletrificação de plataformas estão entre as alternativas para prolongar a vida útil dos ativos. O estudo também destaca a captura e o armazenamento de carbono (CCS) como possibilidades para reduzir a intensidade de emissões das operações.
Reposição de reservas será determinante para sustentar a produção
Apesar da perspectiva de produção elevada, as estimativas de reservas indicam a necessidade de manter o ritmo de exploração. As reservas provadas de petróleo poderão chegar a aproximadamente 23 bilhões de barris em 2036, com relação entre reservas e produção (R/P) de cerca de 13 anos. Para o gás natural, a projeção é de 1 trilhão de m³ em reservas provadas e relação R/P próxima de oito anos.
Esses indicadores reforçam a importância de novas descobertas e da conversão de recursos potenciais em reservas. Sem reposição, a produção acumulada ao longo do período tende a pressionar a base de reservas disponível, comprometendo a sustentação da curva projetada.
O PDE estima que os investimentos em exploração e produção no país poderão alcançar até R$ 2,4 trilhões entre 2027 e 2036. Uma parcela relevante será direcionada à entrada em operação de 29 novas unidades estacionárias de produção (UEPs), do tipo FPSO (Floating Production Storage and Offloading), previstas para dar suporte à expansão e à manutenção da oferta de petróleo e gás.
A projeção depende, portanto, não apenas da execução dos projetos já previstos, mas também da continuidade das campanhas exploratórias, da contratação de novas áreas e do desenvolvimento de descobertas capazes de ampliar a base de recursos recuperáveis.
Descomissionamento abre nova frente de investimentos
Além da expansão da produção, o documento aponta o descomissionamento de instalações offshore como uma atividade que deverá mobilizar investimentos e serviços especializados ao longo do horizonte decenal.
A retirada de plataformas e estruturas que chegam ao fim de sua vida útil pode abrir oportunidades para empresas fornecedoras, inovação tecnológica e qualificação da indústria nacional. A atividade também exige planejamento técnico e regulatório para a destinação adequada das estruturas e a gestão dos impactos ambientais.
O cenário traçado pelo PDE 2036 combina, assim, expansão da produção, revitalização de ativos maduros e desenvolvimento de novas fronteiras. A manutenção de volumes próximos a 5 milhões de barris por dia de petróleo e o crescimento da oferta de gás dependerão da execução dos investimentos projetados e, sobretudo, da capacidade de transformar potencial geológico em reservas e produção efetiva.


