Qual o papel dos grandes reatores e dos SMRs no futuro energético brasileiro? 

Por Ivan Dybov é presidente da Rosatom América Latina e Celso Cunha é presidente da ABDAN – Associação Brasileira para o Desenvolvimento De Atividades Nucleares

Nos próximos anos, o Brasil enfrentará um desafio estratégico que vai muito além da expansão da oferta de eletricidade. Será necessário construir um sistema energético capaz de responder simultaneamente a três demandas: garantir segurança de suprimento, sustentar o crescimento econômico e avançar na descarbonização da economia.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035) aponta para uma ampliação significativa da infraestrutura energética nacional. Ao mesmo tempo, novas demandas surgem em velocidade acelerada. Um exemplo é o avanço da economia digital. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a carga total declarada dos projetos de data centers que solicitaram conexão à rede básica ultrapassa 26 GW, um crescimento expressivo em relação aos anos anteriores.

Esses empreendimentos representam uma nova categoria de consumidores: instalações que exigem fornecimento contínuo, previsível e altamente confiável, operando 24 horas por dia. Paralelamente, setores industriais intensivos em energia também buscam alternativas capazes de reduzir emissões sem comprometer a competitividade.

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Por isso, os olhares se voltam a um debate que já ocupa espaço crescente nas agendas energéticas internacionais: qual deve ser o papel da energia nuclear em uma matriz cada vez mais diversificada?

A questão não envolve substituir fontes renováveis como a solar e a eólica, cuja participação continuará crescendo. O desafio está em complementar essas fontes com geração firme e de baixo carbono, capaz de assegurar estabilidade ao sistema elétrico independentemente das condições climáticas.

Diferentes necessidades exigem diferentes soluções

Um dos aspectos mais relevantes da discussão atual é que não existe uma única resposta tecnológica para um país com as dimensões e características do Brasil.

O Sistema Interligado Nacional, os grandes centros urbanos e os polos industriais demandam soluções de grande porte. Já regiões isoladas, projetos de mineração, portos, instalações industriais remotas e, futuramente, alguns complexos digitais podem exigir alternativas mais compactas e modulares.

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Essa realidade tem impulsionado, em diversos países, uma abordagem baseada em diferentes escalas de geração nuclear.

Os grandes reatores continuam desempenhando papel central na expansão da geração de base. Com capacidade para fornecer energia estável durante décadas, essas unidades são particularmente adequadas para sistemas elétricos nacionais e grandes centros consumidores.

Ao mesmo tempo, cresce o interesse pelos chamados Pequenos Reatores Modulares (SMRs, na sigla em inglês), que vêm sendo considerados uma das principais inovações da indústria nuclear nas últimas décadas.

O avanço dos pequenos reatores modulares

Os SMRs despertam interesse porque oferecem uma lógica diferente da adotada nos grandes empreendimentos nucleares tradicionais.

Em vez de depender exclusivamente de grandes unidades construídas sob medida, os SMRs foram concebidos para permitir maior modularidade, fabricação seriada de componentes e implantação gradual da capacidade instalada.

Essa característica pode representar uma vantagem importante para sistemas elétricos regionais ou para aplicações industriais específicas, onde a demanda energética cresce de forma progressiva.

Além da geração de eletricidade, os pequenos reatores vêm sendo estudados para aplicações como produção de calor industrial, dessalinização, mineração, infraestrutura portuária e suporte energético a data centers.

O interesse internacional pela tecnologia é crescente. Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e diversos outros países já avançam em programas regulatórios e projetos de demonstração comercial.

Embora os desafios tecnológicos, regulatórios e econômicos ainda sejam relevantes, os SMRs passaram a ocupar posição estratégica nos debates sobre segurança energética e descarbonização.

Uma oportunidade para regiões remotas

O Brasil possui um dos maiores sistemas elétricos integrados do mundo. Ainda assim, cerca de 200 localidades permanecem fora do Sistema Interligado Nacional, concentradas principalmente na Região Norte.

Muitas dessas localidades dependem de geração a diesel, com elevados custos logísticos e ambientais.

Não se trata necessariamente de abastecer estados inteiros, mas de fornecer energia confiável para operações industriais, polos de mineração, instalações portuárias ou comunidades associadas a esses empreendimentos.

Energia e transformação digital

O crescimento acelerado da inteligência artificial e dos serviços em nuvem está aumentando significativamente a demanda global por eletricidade. Grandes empresas de tecnologia já anunciaram investimentos e acordos relacionados à energia nuclear em diferentes mercados.

A razão é simples: data centers exigem fornecimento contínuo de energia, com alto nível de confiabilidade e baixa emissão de carbono.

Embora não exista uma solução única para atender essa demanda, cresce internacionalmente o entendimento de que fontes firmes de geração terão papel relevante na sustentação da infraestrutura digital das próximas décadas.

Mais importante que a tecnologia é a estratégia

Independentemente do porte dos reatores utilizados, o debate central para o Brasil talvez não seja tecnológico, mas estratégico.

O país reúne ativos importantes: reservas de urânio, experiência operacional acumulada em Angra, domínio de etapas relevantes do ciclo do combustível, instituições de pesquisa consolidadas e capacidade industrial em diversos segmentos relacionados ao setor nuclear.

A questão fundamental é como esses ativos poderão ser utilizados para apoiar uma política energética de longo prazo.

Isso inclui discutir quais tecnologias serão priorizadas, qual participação da indústria nacional será estimulada, quais competências precisarão ser desenvolvidas e qual papel a energia nuclear deverá desempenhar dentro da matriz energética brasileira nas próximas décadas. O desafio está em construir uma visão integrada capaz de combinar segurança energética, desenvolvimento tecnológico, competitividade industrial e sustentabilidade ambiental.

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