IEA propõe reservas e maior flexibilidade para reduzir risco de choques no mercado de gás

Agência recomenda combinação de estoques físicos, contratos flexíveis e mecanismos de emergência diante de um mercado mais exposto a riscos geopolíticos

Os governos precisam ampliar a capacidade de resposta a interrupções no fornecimento de gás natural por meio de uma combinação de reservas físicas, flexibilidade comercial e mecanismos de emergência. A recomendação consta de novo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), divulgado nesta quarta-feira (9), após dois grandes choques de oferta que alteraram a dinâmica do mercado global nos últimos anos.

O estudo Gas Reserve Mechanisms and Flexibility Options avalia medidas que países importadores podem implementar nos próximos cinco anos, combinadas a estratégias de longo prazo para diversificar fornecedores e reforçar a infraestrutura. A avaliação da IEA é que o custo de manter capacidade de reserva funciona como uma espécie de seguro, mas pode ser inferior aos impactos econômicos provocados por uma interrupção de abastecimento.

Armazenamento é base, mas não solução isolada

Entre as alternativas, a IEA mantém o armazenamento físico de gás como um dos pilares da segurança de suprimento. As opções incluem armazenamento subterrâneo, tanques de GNL e estruturas de armazenamento flutuante.

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A agência, porém, ressalta que a infraestrutura disponível e a capacidade de armazenamento variam significativamente entre países. Novos projetos também podem exigir investimentos elevados e vários anos de desenvolvimento, o que limita sua capacidade de responder a choques de curto prazo.

Por isso, o relatório recomenda complementar os estoques com maior flexibilidade nos contratos de GNL, inovação nas operações comerciais e ampliação das trocas de cargas de GNL. Essas ferramentas permitem redirecionar volumes disponíveis entre mercados durante períodos de estresse sem depender exclusivamente da construção de novas instalações.

Crises expõem vulnerabilidade do mercado global

A recomendação da IEA ocorre após a forte redução dos fluxos de gás russo por gasodutos para a Europa a partir de 2022 e, mais recentemente, das interrupções no transporte de GNL pelo Estreito de Ormuz durante o conflito no Oriente Médio em 2026.

Os episódios mostraram que a competição por cargas disponíveis pode elevar rapidamente os preços e, em situações mais severas, não ser suficiente para evitar déficits físicos de gás. O choque também reforçou a interdependência entre os mercados europeu e asiático, nos quais cargas flexíveis de GNL podem ser redirecionadas conforme as condições de preço e disponibilidade.

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Segurança do gás ganha peso para geração elétrica

A discussão tem impacto direto sobre os sistemas elétricos que utilizam termelétricas a gás para atender variações de demanda ou complementar fontes de geração. A maior exposição do mercado de gás a eventos climáticos e geopolíticos aumenta a necessidade de mecanismos capazes de garantir disponibilidade de combustível quando essas usinas forem acionadas.

Nesse sentido, a segurança do suprimento de gás passa a ser também uma questão de segurança elétrica, principalmente em sistemas nos quais o gás exerce função de flexibilidade para a geração. A AIE já aponta que a maior variabilidade da demanda e o papel do gás como fonte de respaldo podem exigir mais flexibilidade ao longo de toda a cadeia de gás e GNL.

IEA sugere reservas estratégicas e cooperação internacional

O relatório também avalia mecanismos que podem ser adotados pelos governos, como obrigações de armazenamento, reservas estratégicas de gás e estoques de GNL. Entre as alternativas para estudos futuros estão reservas estratégicas conjuntas, acordos de armazenamento transfronteiriço, reservas de GNL entre regiões e mecanismos de opções de compra para situações de emergência.

A agência ressalta que não existe um modelo único. A estrutura adequada dependerá da geografia, infraestrutura disponível, dependência de importações, desenho do mercado e capacidade de armazenamento de cada país.

Como próximos passos, a IEA recomenda maior transparência sobre reservas e condições de mercado, exercícios regulares de emergência e cooperação internacional para ampliar a flexibilidade do mercado de GNL. A agência também propõe aprofundar o debate sobre mecanismos voluntários internacionais de reservas, aproveitando experiências acumuladas com o sistema de segurança do petróleo.

O relatório foi publicado às vésperas da Conferência de Produtores e Consumidores de GNL, realizada em 11 de setembro e organizada conjuntamente pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão e pela IEA, com a segurança do fornecimento de gás e GNL entre os principais temas.

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