Por Pedro Al Shara, CEO da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente
Quando uma empresa sofre um ataque cibernético, a primeira preocupação e mais urgente costuma ser entender o que foi comprometido na operação para então tomar as demais medidas de investigação, contenção, recuperação e restauração dos dados visando restabelecer o mais rápido possível a normalidade das atividades. Tem muita coisa em jogo, além de prejuízos financeiros. Reputação e credibilidade, por exemplo, valores intangíveis, mas que muitas vezes revelam-se tão decisivos para a sobrevivência ou não das organizações.
Esse cenário de crise, onde o tempo e a pressão jogam a favor do inimigo tem permeado as discussões de gestores e especialistas em segurança da informação. Com ataques cada vez mais sofisticados e velozes, as equipes de TI também precisam se preocupar com a infraestrutura física que comporta e permite que atacados se defendam nessa “guerra cibernética”. Essa realidade tem sido cada vez mais comum e frequente em ambientes corporativos onde os ataques e golpes digitais têm se sofisticado e ganhado escala jamais imaginada até então, grande parte facilitada pelo avanço da própria tecnologia, como a Inteligência Artificial (IA), que causou e continua provocando uma verdadeira revolução estrutural no ambiente corporativo, remodelando a forma como as empresas operam, competem e tomam decisões.
Essa ambiguidade da inovação, que ao mesmo tempo que acelera a eficiência operacional, também potencializa as ameaças digitais e a superfície de ataques, vem exigindo dos times de segurança de TI e também do board uma visão amplificada sobre os recursos que sustentam e mantém as corporações vivas, dentro do “game” do mercado. Tenho percebido essa preocupação refletida em eventos do setor, como o Mind The Sec, que passou a dar mais espaço em sua programação de conteúdo, para as trilhas sobre recuperação de desastres, continuidade de negócios e resposta a incidentes, sinal de que a segurança passou a ser pensada como ativo estratégico da capacidade de uma organização atravessar um ataque e seguir funcionando.
Quando analisamos mais a fundo os ambientes industriais, e como eles tratam e reagem ao problema dos ciberataques e golpes digitais, começamos a entender por que esse ciclo é tão complexo e merece nossa reflexão. O relatório State of ICS/OT Security 2025, do SANS Institute, mostra que 21,5% das organizações pesquisadas no período sofreram um incidente de cibersegurança onde mantinham ambientes de tecnologia operacional. E mais: quatro em cada dez casos sofreram interrupção da operação. Outro dado que chama atenção é para o tempo: quase metade dos incidentes foi detectada em até 24 horas, enquanto 20% levaram mais de um mês para serem totalmente remediados. O que eu quero dizer com isso? Que detectar uma ameaça, portanto, está longe de significar que o trabalho terminou.
Qualidade energética como ativo estratégico para a continuidade das operações
Em ambientes corporativos, independente do porte ou segmento, a retomada das operações envolve servidores, máquinas virtuais, sistemas de armazenamento, switches e uma série de outros componentes que precisam voltar a conversar entre si. Em uma operação industrial, por exemplo, isso pode ganhar uma complexidade ainda maior em razão de inúmeros controladores, sistemas e sensores eletrônicos que fazem parte do processo de produção e quem sem eles nada funciona. Cada ambiente carrega sua particularidade, e nem sempre é possível simplesmente religar tudo e esperar que o funcionamento seja restabelecido. E aí vem outro questionamento: mas o que pode estar impedindo a retomada, mesmo que gradual, das atividades?
Tão imprescindível como o ar que respiramos ou a água que bebemos, a energia que alimenta essa infraestrutura operacional é vital para que essa recuperação aconteça sem causar mais danos ou prejuízos, além daqueles que a organização já teve de enfrentar quando foi atacada. Basta imaginar um servidor que precisa ser inicializado depois de um incidente, ele depende de uma fonte de energia estável. O mesmo vale para um equipamento de armazenamento ou para dispositivos de comunicação que vão reconstruir a conexão entre diferentes partes da rede de conexão com a internet. Durante uma recuperação, muitos desses equipamentos podem passar por desligamentos, reinicializações e testes sucessivos. Uma instabilidade elétrica no meio desse processo pode acrescentar um problema a uma situação que já exige bastante das equipes técnicas.
Para quem acompanha a evolução da eletrônica e da infraestrutura elétrica, isso não é novidade. Equipamentos mais sofisticados concentram uma quantidade cada vez maior de componentes em espaços menores e trabalham com níveis de precisão que exigem condições adequadas de alimentação energética. Uma oscilação de tensão, um surto ou mesmo uma interrupção, ainda que muito breve, pode provocar uma reinicialização ou afetar um componente sensível. Em condições normais, já seria um transtorno. Durante uma recuperação, pode significar refazer uma etapa que levou horas para ser concluída.
Importante destacar que existe uma diferença relevante entre ter os dados disponíveis e ter uma operação disponível. Um backup íntegro não coloca sozinho uma empresa de volta ao trabalho. É preciso que os equipamentos capazes de acessar, processar, armazenar e transmitir essas informações estejam prontos para funcionar. A recuperação digital tem, portanto, uma dimensão bem complexa.
Essa percepção deveria fazer parte do planejamento de continuidade. Segurança cibernética, cópias de segurança, redundância de sistemas, conectividade e proteção elétrica cumprem funções diferentes, embora estejam ligadas pelo mesmo objetivo: reduzir o tempo e o impacto de um incidente. Se uma dessas camadas falha justamente no momento da retomada, o esforço feito nas demais pode perder parte de seu efeito.
A questão ganha ainda mais relevância conforme a tecnologia passa a ocupar um espaço maior dentro das empresas. Sistemas digitais já participam da produção, da logística, das comunicações, das transações financeiras e de processos que antes dependiam de outras formas de controle. A dependência cresceu sem que, muitas vezes, a infraestrutura necessária para sustentar essa operação recebesse a mesma atenção.
Resiliência energética
Resiliência, nesse sentido, não deveria ser medida apenas pela capacidade de impedir um ataque ou restaurar um arquivo. Ela também está na condição de colocar os equipamentos novamente em funcionamento, manter os sistemas estáveis e dar às equipes o ambiente necessário para reconstruir aquilo que foi interrompido.
No fim, a recuperação de um incidente cibernético acontece em um lugar bastante físico. Servidores precisam ligar, redes precisam permanecer disponíveis, equipamentos precisam processar informações e sistemas precisam voltar a se comunicar. A camada digital conduz boa parte dessa resposta, mas depende de uma estrutura concreta para sustentá-la. E nesse sentido, energia elétrica, por mais básica que pareça, continua sendo uma das condições que determinam se uma empresa conseguirá apenas recuperar seus dados ou realmente voltar a operar em segurança.



