Compradores internacionais responderam por 30,7% das aquisições de controle no setor em três anos, mas tiveram ticket médio seis vezes maior que investidores domésticos
O capital estrangeiro concentrou 60% do valor divulgado das aquisições de controle no setor de energia no Brasil nos últimos três anos, embora tenha representado 30,7% do número de transações. O levantamento da Acorn Advisory, baseado em dados da TTR Data entre julho de 2023 e junho de 2026, identificou 189 operações de M&A no período.
A diferença entre participação em volume e valor revela uma concentração dos investidores internacionais em ativos de maior porte. O ticket médio das operações com compradores estrangeiros foi de R$ 1,2 bilhão, contra pouco mais de R$ 200 milhões nas transações domésticas.
Para Gabriel Silva, sócio da Acorn Advisory, o perfil dos investidores varia conforme o porte dos ativos: “O investidor estrangeiro se concentra principalmente nos ativos de maior porte, enquanto os consolidadores locais continuam muito ativos no mid-market.”
Capital internacional ganha espaço
As 189 aquisições de controle representam uma média superior a cinco negócios por mês, mesmo diante de um ambiente de custo de capital elevado e da proximidade do calendário eleitoral.
O movimento internacional ganhou intensidade em 2025. Foram 24 aquisições por compradores estrangeiros, contra 13 em 2024. Com isso, a participação estrangeira nas aquisições de controle em energia avançou de 21% para 36%.
A avaliação da Acorn é que o mercado permanece ativo, mas com maior seletividade na alocação de capital. Silva aponta dois vetores principais para a dinâmica recente: “É um mercado profundo, mas bastante seletivo. Não se trata de euforia. Por trás desse volume, há dois movimentos principais: a reciclagem de portfólio pelos grandes grupos e um mercado de renováveis ainda fragmentado, que segue oferecendo ativos para consolidação.”
Geração concentra operações cross-border
Das 58 operações cross-border identificadas no período, aproximadamente metade está relacionada à geração de energia. A solar lidera entre as fontes, seguida por eólica e hídrica.
Transmissão e distribuição representam cerca de 17% das transações, mas concentram algumas das operações de maior valor. Um dos principais exemplos é a aquisição, pela espanhola Iberdrola, da participação da Previ na Neoenergia por R$ 11,95 bilhões. Com a operação, a Iberdrola elevou sua participação na Neoenergia para aproximadamente 84%, reforçando a estratégia do grupo em redes, eletrificação e expansão da demanda.
A escassez de ativos maduros e a previsibilidade das receitas ajudam a explicar a atratividade do segmento de transmissão. Silva destaca o efeito dessa combinação sobre os valores dos negócios: “Transmissão continua sendo um dos segmentos mais disputados porque há pouca oferta de ativos maduros e de qualidade. Isso faz com que boas concessões sejam negociadas a múltiplos elevados, muitas vezes acima do valuation das próprias companhias listadas.”
Ativos regulados atraem capital de longo prazo
Outro negócio de grande porte foi a aquisição da Mantiqueira pela chinesa State Grid, por aproximadamente R$ 7 bilhões. A operação reforçou a presença de investidores asiáticos nas transações de maior valor do mercado brasileiro.
Fundos e investidores financeiros também ampliaram sua atuação. Entre os movimentos recentes estão a participação de Actis e GIC no fechamento de capital da Serena e a estratégia de expansão do Grupo Energía Bogotá no país. A Europa permanece como principal origem dos compradores estrangeiros, com estratégias direcionadas por segmento. A Iberdrola mantém foco em redes, enquanto EDF, Statkraft e Equinor atuam em diferentes frentes de geração e renováveis.
O perfil dos ativos ajuda a determinar o tipo de capital interessado. Transmissão e distribuição, por exemplo, oferecem receitas reguladas e maior previsibilidade, características que favorecem fundos de infraestrutura, fundos de pensão e investidores com estratégias core e core-plus.
Já projetos expostos a mercados competitivos, como geração destinada ao ambiente de contratação livre e comercialização de energia, carregam riscos associados a preços, balanço energético e cortes de geração. Nesse caso, compradores estratégicos e gestores especializados tendem a ter maior participação.
Eleição pode postergar grandes negócios para 2027
Para o segundo semestre, a expectativa é de maior foco na conclusão de processos que já estão em andamento. A avaliação da Acorn é que as empresas devem evitar iniciar novas operações de grande porte às vésperas das eleições. Com prazos mais longos de negociação, diligência e aprovação, parte dos processos relevantes que eventualmente começarem nesse período poderá ser concluída apenas em 2027.
O cenário mantém o mercado brasileiro de M&A em energia ativo, mas direcionado principalmente para ativos de qualidade, negócios de maior escala e oportunidades alinhadas às estratégias de consolidação dos grupos que já possuem presença no país.



