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IEA: Quase 20% das tecnologias limpas já são comerciais, mas travam na falta de mercado

IEA: Quase 20% das tecnologias limpas já são comerciais, mas travam na falta de mercado

Relatório da Agência Internacional de Energia aponta que o principal gargalo da inovação energética deixou de ser tecnológico e passou a ser a criação de demanda e de políticas públicas capazes de acelerar a implantação das soluções.

A inovação no setor de energia enfrenta um novo obstáculo global. Embora dezenas de tecnologias limpas já tenham atingido maturidade comercial, a adoção pelo mercado avança em ritmo muito inferior ao desenvolvimento tecnológico. O resultado é um crescente estoque de soluções prontas para serem implementadas, mas que permanecem à margem da transição energética.

Dados do mais recente Guia de Tecnologias de Energia Limpa da Agência Internacional de Energia (IEA) mostram que quase um quinto das tecnologias monitoradas pela entidade já alcançou disponibilidade comercial, mas ainda não conseguiu avançar para uma implantação sustentada nos principais mercados mundiais.

Das cerca de 640 tecnologias acompanhadas atualmente pela agência, aproximadamente 115 já atingiram o mais alto nível de maturidade tecnológica, conhecido como TRL 9 (Technology Readiness Level), mas continuam enfrentando barreiras econômicas, regulatórias e comerciais que limitam sua expansão.

Para a IEA, o desafio da inovação energética deixou de estar concentrado apenas na pesquisa e desenvolvimento (P&D) e passou a depender cada vez mais da capacidade dos governos e do mercado de criar condições para que as tecnologias sejam efetivamente adotadas em larga escala.

Gargalo está na criação de demanda para novas tecnologias

O levantamento revela um descompasso entre o ritmo do desenvolvimento tecnológico e a velocidade de adoção das soluções pelo mercado. Entre os quase 400 projetos pré-comerciais acompanhados pela agência, cerca de 40% avançaram em maturidade tecnológica desde 2020. Por outro lado, apenas 20% das tecnologias que já eram consideradas comercialmente disponíveis em 2020 conseguiram evoluir para uma fase de implantação mais ampla nos últimos cinco anos.

Segundo a análise da IEA, aproximadamente 80 das tecnologias que permanecem nesse estágio já alcançaram maturidade comercial há mais de cinco anos. Quase metade delas está relacionada ao hidrogênio de baixa emissão, captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS), além de soluções voltadas à eficiência energética e à eletrificação de edifícios.

O cenário evidencia que a comercialização, por si só, não garante o sucesso de uma tecnologia energética. A ausência de demanda consistente, aliada à falta de incentivos econômicos e regulatórios, tem retardado a escalabilidade de diversas soluções consideradas estratégicas para a transição energética.

Políticas públicas serão decisivas para acelerar a transição energética

A Agência Internacional de Energia destaca que tecnologias inovadoras frequentemente enfrentam custos iniciais elevados e exigem tempo para conquistar a confiança de consumidores, investidores e reguladores. Nesse contexto, mecanismos de apoio governamental assumem papel central na criação de mercados capazes de sustentar a expansão das novas tecnologias. Instrumentos como compras públicas, créditos fiscais, pagamentos baseados em desempenho e incentivos regulatórios aparecem entre as principais ferramentas para reduzir riscos e estimular investimentos privados.

O relatório aponta que a ausência desses mecanismos tem sido particularmente prejudicial para setores como hidrogênio de baixa emissão, captura de carbono e gestão de emissões de metano, que ainda enfrentam mercados fragmentados e poucos incentivos econômicos para substituírem tecnologias convencionais. Em diversos casos, o problema não está na capacidade técnica das soluções, mas na dificuldade de alcançar competitividade econômica antes do ganho de escala.

A análise também mostra que gargalos regulatórios continuam limitando a adoção de tecnologias voltadas à modernização dos sistemas elétricos. Soluções que aumentam a flexibilidade e a resiliência das redes frequentemente esbarram em marcos regulatórios concebidos para privilegiar tecnologias consolidadas, dificultando a entrada de novos modelos operacionais.

Setor elétrico depende de maior flexibilidade regulatória

No segmento de infraestrutura energética, a implementação de tecnologias já comprovadas continua sendo impactada por barreiras regulatórias e estruturais.

No setor da construção civil, por exemplo, questões relacionadas à infraestrutura existente, aos longos ciclos de investimento e aos incentivos desalinhados entre proprietários e inquilinos dificultam a adoção de soluções voltadas à eficiência energética e ao armazenamento térmico. Já no setor nuclear, a aceitação social deverá desempenhar papel decisivo para o avanço dos pequenos reatores modulares (SMRs), considerados uma das apostas da indústria para a expansão da geração elétrica de baixa emissão.

A agência ressalta que o sucesso da inovação energética depende não apenas da maturidade tecnológica, mas também da capacidade de adaptação das políticas públicas e dos modelos regulatórios às novas demandas do mercado.

Baterias mostram como políticas orientadas pelo mercado aceleram a inovação

As baterias de íon-lítio são apontadas pela IEA como um dos principais exemplos de sucesso na combinação entre inovação tecnológica, políticas públicas e sinais claros de demanda.

Embora o desenvolvimento inicial tenha contado com investimentos públicos, a rápida expansão dos veículos elétricos e dos sistemas de armazenamento foi impulsionada por políticas governamentais voltadas à eletrificação dos transportes, criando um ciclo virtuoso de crescimento do mercado.

A expansão da demanda permitiu sucessivas reduções de custos, aumento da densidade energética, melhorias de segurança e avanços significativos na velocidade de recarga das baterias. Além disso, o crescimento do mercado de baterias impulsionou o desenvolvimento de tecnologias complementares, como infraestrutura de recarga para veículos elétricos, usinas virtuais e sistemas modernos de gestão das redes elétricas.

Atualmente, as tecnologias associadas às baterias representam quase metade das soluções que avançaram para implantação em larga escala nos últimos cinco anos, segundo o guia da agência. A rápida evolução do setor também estimulou novos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O número de composições químicas de baterias monitoradas pela AIE praticamente triplicou desde 2020, passando de cinco para quatorze tecnologias com perspectivas promissoras de comercialização no curto prazo.

Crises energéticas podem acelerar novas ondas de inovação

O relatório destaca ainda que grandes crises energéticas historicamente funcionam como catalisadores para o desenvolvimento tecnológico. Tecnologias hoje consolidadas, como energia solar fotovoltaica, energia eólica e baterias de íon-lítio, tiveram parte de seu desenvolvimento impulsionado pelas respostas políticas e econômicas à crise do petróleo da década de 1970.

A atual conjuntura internacional, marcada por preocupações relacionadas à segurança energética, eletrificação da economia e descarbonização, poderá exercer papel semelhante na aceleração de novas tecnologias limpas. Entre as soluções monitoradas pela Agência Internacional de Energia que apresentam potencial para transformar o setor energético nas próximas décadas estão a energia geotérmica avançada, os reatores nucleares de nova geração e, em uma perspectiva de longo prazo, a energia de fusão.

A análise da agência reforça que a inovação energética não termina quando uma tecnologia se torna comercialmente viável. O verdadeiro teste ocorre quando ela consegue superar as barreiras de mercado e alcançar escala suficiente para contribuir efetivamente com a transição energética global.