Por Ciro Neto, CEO da Bow-e
Até 2050, o consumo mundial de energia elétrica deve crescer impressionantes 75%, segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA). Esse salto iminente coloca governos, investidores e empresas diante de um dilema físico e operacional: a infraestrutura tradicional, baseada apenas em ativos e capacidade instalada, não será capaz de suportar a pressão da demanda global. A resposta a esse desafio do setor do setor não será feita de mais cabos e turbinas, mas de dados e inteligência artificial.
Estamos entrando na era em que a capacidade de capturar, interpretar e transformar dados em decisões de negócio define a sobrevivência de uma empresa energética.
No Brasil, essa transformação ganha ainda mais relevância diante da abertura total do mercado de energia prevista para 2028. O movimento deve permitir que aproximadamente 89 milhões de unidades consumidoras tenham acesso ao ambiente livre de energia, com potencial de movimentar mais de R$ 250 bilhões. Mais do que uma mudança regulatória, trata-se de uma reconfiguração estrutural na relação entre consumidores, fornecedores e comercializadores.
A dinâmica se aproxima do que ocorreu no setor de telecomunicações nas últimas décadas. A abertura de mercado, combinada à digitalização e ao aumento da concorrência, transformou um ambiente antes concentrado em um ecossistema mais dinâmico, orientado à experiência do consumidor e sustentado por inovação contínua.
No setor elétrico, essa lógica começa a se repetir. O consumidor deixa de ser um agente passivo e passa a assumir protagonismo na escolha de fornecedores, contratos, modelos de consumo e fontes de energia.
A abertura do mercado exige novos modelos operacionais
O crescimento do mercado livre de energia já demonstra esse potencial. Embora ainda represente uma parcela menor em número de consumidores, concentra uma fatia relevante do consumo nacional, evidenciando uma oportunidade significativa de expansão à medida que barreiras regulatórias são reduzidas.
O desafio, entretanto, não será apenas conquistar novos consumidores, mas atender essa escala com eficiência. Milhões de clientes com perfis distintos, diferentes necessidades e expectativas exigirão modelos mais inteligentes de relacionamento, comercialização e operação.
É nesse ponto que a inteligência artificial assume papel estratégico. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de automação e passa a ser uma infraestrutura de inteligência para sustentar o crescimento do setor.
Experiências internacionais já demonstram esse potencial. Na Bélgica, por exemplo, a operadora Elia desenvolveu uma solução baseada em IA que reduziu em 41% o erro de previsão de desequilíbrio do sistema elétrico, um avanço relevante para garantir estabilidade diante da maior participação de fontes renováveis.
Dados como base da nova competição
A energia do futuro será cada vez mais orientada por dados. A digitalização da comercialização permite capturar e analisar informações em tempo real sobre consumo, comportamento dos clientes, preços, sazonalidade e tendências de mercado.
A partir desses dados, empresas podem desenvolver modelos mais eficientes de previsão de demanda, estruturar contratos mais adequados ao perfil de cada consumidor e otimizar a gestão de portfólio energético.
Com o avanço das inteligências artificiais generativas, esse potencial aumenta ainda mais. Algoritmos passam a apoiar decisões comerciais, identificar oportunidades de economia, sugerir estratégias de migração entre produtos e antecipar movimentos do mercado.
Nesse novo cenário, a diferença competitiva estará na capacidade de transformar informação em ação. Empresas que dominarem seus dados terão maior eficiência operacional, mais capacidade de personalização e melhores condições para capturar oportunidades.
Por outro lado, organizações que permanecerem dependentes de modelos tradicionais terão mais dificuldade para acompanhar a velocidade das mudanças.
A experiência do consumidor passa a ser um diferencial estratégico
A abertura do mercado também desloca o foco das empresas para dois pilares fundamentais: aquisição e relacionamento com clientes. Em um ambiente mais competitivo, a conquista e a retenção de consumidores dependerão cada vez mais da capacidade de oferecer experiências simples, transparentes e personalizadas.
A inteligência artificial terá papel central nessa evolução. Ferramentas de automação permitem ampliar a capacidade de prospecção, identificar perfis com maior potencial de conversão e tornar o atendimento mais eficiente.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a adoção de IA em redes elétricas pode gerar economias de até US$ 110 bilhões por ano e liberar cerca de 175 gigawatts (GW) de capacidade de transmissão.
Esse impacto mostra que a tecnologia não representa apenas uma oportunidade comercial, mas também uma alavanca de eficiência sistêmica.
A experiência de outros setores reforça essa tendência. No mercado de telecomunicações, a inteligência artificial já vem sendo aplicada para melhorar eficiência operacional e gerar novas oportunidades de receita. No setor energético, essa transformação tende a ser ainda mais relevante pela complexidade do mercado e pelo impacto direto da energia na economia de empresas e consumidores.
Eficiência, sustentabilidade e inteligência caminham juntas
A transformação do setor energético possui uma característica adicional: ela precisa combinar competitividade econômica com responsabilidade ambiental. A expansão das fontes renováveis, como solar e eólica, aumenta a necessidade de sistemas mais inteligentes capazes de equilibrar oferta e demanda em um cenário de maior variabilidade.
Nesse contexto, a inteligência artificial contribui para otimizar recursos, reduzir desperdícios e integrar diferentes fontes de energia de maneira mais eficiente. A tecnologia passa a ser um elemento essencial para construir um mercado mais sustentável, resiliente e preparado para os desafios futuros.
Uma nova de tecnologia para o mercado de energia
A abertura do mercado brasileiro de energia representa muito mais do que uma alteração regulatória. Ela marca uma mudança profunda na forma como a energia será comercializada, consumida e gerenciada.
A história de outros setores mostra que, quando consumidores ganham poder de escolha, inovação deixa de ser um diferencial e passa a ser uma condição de sobrevivência.
No setor elétrico, essa transformação será guiada por dados e inteligência artificial. As empresas que conseguirem unir tecnologia, conhecimento de mercado e capacidade analítica estarão melhor posicionadas para liderar essa nova fase.
A energia do futuro será mais aberta, mais personalizada e mais inteligente. E, nesse cenário, quem controlar dados terá uma vantagem decisiva na construção das margens do futuro.



