Com estratégia de recuperação extrajudicial, gigante petroquímica propõe standstill de 90 dias a bancos e detentores de bônus; do lado físico, plano de negócios de longo prazo preserva operação e prevê complexo “Transforma Rio” para 2029.
A Braskem abriu ao mercado uma ampla ofensiva financeira e jurídica para estabilizar seu balanço patrimonial e reestruturar uma dívida corporativa consolidada de US$ 9,497 bilhões. A companhia iniciou um procedimento de mediação formal perante a Câmara Wind de Mediação e protocolou, de forma simultânea, um pedido de tutela de urgência cautelar na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O principal objetivo técnico da petroquímica é estabelecer um período de proteção legal (standstill) de 90 dias, blindando a empresa de execuções de garantias e bloqueio de contas por parte de credores financeiros enquanto costura um acordo global.
A alta administração da companhia enfatizou ao mercado que a medida possui escopo estritamente financeiro, não afetando a cadeia produtiva primária do setor elétrico e petroquímico. Desse modo, todos os contratos e obrigações operacionais diárias com fornecedores de utilidades e matérias-primas, além de clientes e parceiros comerciais, seguem integralmente preservados no curso normal dos negócios.
Os pilares da recuperação extrajudicial e as propostas aos bondholders
A modelagem de reestruturação desenhada pela Braskem prevê a homologação do plano por meio de uma Recuperação Extrajudicial no Brasil, com posterior pedido de reconhecimento internacional nas jurisdições estrangeiras onde os títulos de dívida estão listados. A premissa central apoia-se no princípio do tratamento igualitário (pari passu) para todos os credores sem garantia real (unsecured), classe que engloba os detentores de bônus internacionais (notes), debenturistas, detentores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e bancos comerciais em linhas bilaterais ou sindicalizadas.
Para equalizar o fluxo de caixa corporativo de curto e médio prazo, a proposta apresentada pela companhia assenta-se sobre quatro pilares financeiros rígidos:
- Extensão de Prazos: Prorrogação automática de cinco anos no cronograma de amortização de todos os instrumentos elegíveis.
- Flexibilização de Juros: Opção de diferimento de 100% dos cupons na modalidade Payment-in-Kind (PIK) entre julho de 2026 e dezembro de 2028, cumulada com uma proposta de corte de 200 pontos-base (bps) na taxa de juros nominal aplicável.
- Manutenção de Garantias: Preservação do status unsecured das obrigações, sem oferta de ativos fixos ou plantas industriais como garantia real, descartando também a aplicação de desconto (haircut) sobre o principal ou conversão de dívida em ações (equitização).
- Abertura de Linha de Crédito: Estruturação de uma nova linha firme de cartas de crédito (Committed Letters of Credit) de até US$ 1,5 bilhão, desenhada para absorver US$ 1,3 bilhão de LCs atualmente em aberto e aportar US$ 200 milhões em garantias acessórias adicionais.
Comitê de credores resiste e rebate premissas financeiras
A modelagem inicial desenhada pela petroquímica enfrentou forte rejeição imediata por parte do comitê de orientação do grupo ad hoc de credores (Steering Committee do AHG). Em documento divulgado por meio das comunicações de liquidação, os assessores financeiros e consultores jurídicos dos investidores internacionais classificaram os termos fiscais propostos como inaceitáveis, questionando severamente a tentativa de redução de juros contratuais.
Manifestando a insatisfação do comitê com os termos apresentados pela petroquímica, os representantes dos detentores de títulos sinalizaram as condições necessárias para o avanço das tratativas: “O Comitê de Orientação está reiterando sua posição apresentada nas reuniões da última quinta-feira. Estamos abertos a um engajamento construtivo com a Braskem e seus acionistas. No entanto, como transmitido na reunião, a proposta compartilhada pela Companhia foi totalmente insatisfatória. Entre outras coisas, a inclusão do conceito de redução de cupom, algo inédito em uma reestruturação de dívida corporativa, coloca em dúvida a seriedade com que a Companhia fez sua abordagem para engajamento, particularmente diante da presença de tantas partes sofisticadas envolvidas na preparação de tal proposta.”
Os investidores argumentam que qualquer extensão de prazo precisará conferir valor presente líquido (VPL) positivo ao grupo credor, exigindo o aumento, e não a redução, dos cupons de juros para fazer frente ao prêmio de risco da companhia.
Em contrapartida, a petroquímica avaliou formalmente as exigências enviadas pelos investidores e manteve sua postura de buscar uma saída coordenada. Ao analisar detalhadamente as demandas apresentadas pelo comitê de credores, o corpo diretivo da Braskem manifestou formalmente a recusa das condições estipuladas: “A Companhia agradece a disposição do Comitê de Orientação em participar de negociações construtivas com a Companhia para alcançar um caminho negociado e consensual para implementar a Reestruturação. No entanto, após revisar cuidadosamente e discutir a Contraproposta com seus assessores, a Companhia concluiu que tal Contraproposta não é aceitável e não atende aos melhores interesses da Companhia e de seus stakeholders, como um todo. A Companhia reafirma que está totalmente comprometida em continuar as discussões com seus credores financeiros para encontrar uma solução consensual, estruturada e ordenada para sua estrutura de capital, que garanta a continuidade de suas operações no curso normal dos negócios.”
Infraestrutura energética e o plano operacional até 2035
Como parte das obrigações de transparência atreladas aos acordos de confidencialidade iniciados em 11 de junho de 2026, a Braskem abriu ao mercado as projeções operacionais detalhadas de seu plano de negócios para a próxima década. Os dados indicam que a receita líquida deve expandir dos atuais US$ 15,491 bilhões projetados para este ano para US$ 20,700 bilhões em 2035. A curva do EBITDA acompanha a trajetória de recuperação, saindo de US$ 2,166 bilhões para US$ 3,030 bilhões, estabelecendo margens operacionais normalizadas em 14,6% ao final do horizonte analítico.
No plano físico, a petroquímica prevê estabilidade na capacidade instalada de suas plantas industriais localizadas no Brasil, Estados Unidos e Europa até 2029. A partir deste marco temporal, o plano estratégico prevê a entrada em operação comercial do complexo “Transforma Rio”, projeto de expansão que adicionará uma capacidade incremental de etileno de 220 mil toneladas por ano (220 kton/ano).
Para o setor de energia, o plano de longo prazo da Braskem reitera a relevância da empresa como um dos maiores consumidores industriais de energia elétrica e gás natural do país. As premissas operacionais da companhia indicam que o suprimento de utilidades e contratos de autoprodução ou mercado livre permanecerão indexados de forma direta ao volume físico produzido. Esse consumo de insumos críticos caminhará em paralelo a um Capex corporativo projetado em aproximadamente US$ 900 milhões até 2030, direcionado primordialmente a projetos de modernização e eficiência estratégica de ativos.



