IA e transição energética posicionam América Latina no centro da geopolítica global de commodities

Estudo da Arcadis aponta que combinação entre matriz renovável e reservas estratégicas de cobre, lítio e terras raras atrai investimentos voltados para data centers, eletrificação e tecnologias de baixo carbono

A expansão acelerada da inteligência artificial (IA), a eletrificação da economia e as metas globais de descarbonização estão redefinindo o mapa geopolítico dos recursos energéticos e minerais. Nesse novo cenário, a América Latina surge como uma das regiões mais estratégicas do planeta ao reunir dois ativos essenciais para a próxima etapa da transformação econômica global: uma matriz elétrica predominantemente renovável e grandes reservas de minerais críticos.

Levantamento da consultoria Arcadis destaca que a combinação entre abundância de recursos minerais e baixa intensidade de carbono na geração elétrica coloca os países latino-americanos em posição privilegiada. A região está no centro das atenções para atender ao crescimento simultâneo da demanda por data centers, baterias, veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia e infraestrutura de transmissão.

A avaliação ganha relevância em um momento em que corporações globais buscam mitigar emissões de Escopo 3 ao longo de toda a sua cadeia produtiva. Isso inclui auditar a origem dos minerais utilizados na fabricação de equipamentos de ponta e a fonte energética que alimenta os servidores de dados.

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IA amplia demanda por energia e minerais estratégicos

A digitalização e o avanço dos grandes modelos de linguagem (LLMs) exigem uma robusta infraestrutura física. Além do consumo massivo de eletricidade pelos data centers, a expansão dessas tecnologias depende diretamente de minerais como cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras, fundamentais para semicondutores, sistemas de armazenamento e redes elétricas.

Dados citados no relatório mostram que a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta um crescimento de quatro a seis vezes na demanda global por minerais críticos até 2040, impulsionado pelas metas de neutralidade de carbono.

Ao analisar essa convergência entre transformação digital e transição energética, o Diretor Global de Mineração da Arcadis, Leonardo Lima, destaca o papel estratégico do continente: “Sem mineração não há inteligência artificial. Os data centers dependem de minerais específicos para existir, e o nosso uso diário de ferramentas de IA já consome muita energia e minerais críticos. A América Latina tem a matéria-prima, tem a energia renovável e tem a capacidade técnica. O que ainda precisamos avançar é em legislação mais clara e estável para que investidores de longo prazo possam tomar decisões com segurança.”

A posição regional é sustentada pelo protagonismo de Chile e Peru na produção de cobre e lítio, enquanto o Brasil concentra reservas estratégicas de nióbio, minério de ferro de alto teor e terras raras, insumos cruciais para a mobilidade elétrica e equipamentos de geração renovável.

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Energia renovável fortalece competitividade da mineração

Além da disponibilidade mineral, a região se destaca pela crescente integração entre as próprias operações de extração e as fontes limpas de energia. Segundo a Arcadis, a utilização de contratos de longo prazo de compra de energia (PPAs), associados à geração solar e eólica, tem permitido que grandes mineradoras reduzam custos operacionais, diminuam a exposição à volatilidade do mercado livre e avancem em suas metas de descarbonização.

No caso brasileiro, onde aproximadamente 90% da geração elétrica provém de fontes limpas, a pegada de carbono reduzida da matriz representa um diferencial competitivo frente às exigências de financiadores internacionais. Empreendimentos capazes de comprovar baixa intensidade de emissões acessam capital em condições mais favoráveis e encontram maior aderência às políticas de compras sustentáveis adotadas por Big Techs e fabricantes globais.

ESG e licenciamento ganham peso nas decisões de investimento

A evolução das exigências ambientais e sociais está transformando a forma como os projetos de mineração são avaliados pelo mercado e por órgãos reguladores. Para Lima, a busca por celeridade na implantação dos empreendimentos precisa estar rigorosamente associada à qualidade dos estudos socioambientais e ao fortalecimento da governança: “A velocidade é necessária, mas não é uma autorização para fazer mineração de qualquer jeito. As grandes empresas globais já entenderam isso. O que observamos agora é que os governos também estão assimilando e apoiando ativamente essa agenda, uma tendência que ficou clara na recente sinalização do Ministério de Mineração do Chile de que este é o único caminho viável.”

Nesse contexto, diagnósticos socioambientais robustos realizados ainda nas etapas iniciais (PFS e DFS) vêm se consolidando como instrumentos para mitigar riscos jurídicos, evitar conflitos territoriais e acelerar processos de licenciamento ambiental. A eficiência obtida ao longo desse ciclo acelera o retorno socioeconômico para as regiões receptoras dos aportes: “Um ano ganho nisso é um ganho para toda a sociedade: mais emprego, mais produção, menos impactos.”

À medida que cresce a necessidade mundial por insumos de baixo carbono, a América Latina consolida-se como o elo que sustentará a infraestrutura da próxima geração de tecnologias digitais e energéticas do planeta.

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