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Papel do BESS em um setor energético com excesso de oferta e sistema projetado para escassez

Por Maria Guilhermina, Head de Energia da Tractebel Brasil, Chile e Canadá

Por Maria Guilhermina, engenheira especialista no setor de energia e Chile Country Manager na Tractebel Brasil, Chile e Canadá 

O crescimento de geração de energia limpa no Brasil gera benefícios e novos desafios ao setor elétrico brasileiro. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o setor já evitou a emissão de cerca de 105,9 milhões de toneladas de CO2 na geração de eletricidade e desde 2012 gerou mais de 1,9 milhão de empregos. 

No entanto, a infraestrutura de distribuição da energia não acompanhou o rápido desenvolvimento da geração de energia solar, principalmente da MMGD (Microgeração e Minigeração Distribuída), gerada pelos próprios consumidores e que já representa cerca de 42,3 GW, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).  

Apesar de parte desta energia ser consumida pelas residências ou empresas que possuem os sistemas fotovoltaicos, uma parcela é adicionada à matriz energética brasileira. Segundo levantamento da Absolar, o setor fotovoltaico adicionou no ano passado 10,6 GW ao sistema elétrico. A projeção da associação é que sejam adicionados os mesmos 10,6 GW em 2026. Para efeito de comparação a UHE Belo Monte, uma das principais usinas hidrelétricas do Brasil, tem capacidade instalada de 11,2 GW.  

Sistema construído para escassez  

O aumento da geração de energia solar torna a matriz energética do país cada vez mais limpa. Ao mesmo tempo gera desafios inéditos para o setor elétrico. A questão foi explicada pelo ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, em entrevista a um programa de rádio e TV paulista. Segundo Prates, há pelo menos três anos vivemos uma “crise contrária”, pois o sistema elétrico brasileiro foi historicamente estruturado para lidar com escassez, e não com excedentes de geração em horários específicos, o que, somado à ausência de armazenamento em larga escala, limita a capacidade do sistema de aproveitar essa abundância energética.  

De acordo com o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), o excesso de energia gerada e não armazenada fez com que no ano passado 20,6% da energia solar e eólica não fosse utilizada devido ao curtailment (restrição de geração). A medida é tomada pelo operador para preservar a segurança e a confiabilidade do SIN (Sistema Interligado Nacional). 

Neste cenário, os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS – Battery Energy Storage Systems) são uma alternativa estratégica para armazenar a energia gerada pelas fontes intermitentes, como a solar e eólica, e despachá-la nos momentos de maior demanda. Essa capacidade aumenta a flexibilidade operacional e contribui para a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). 

O sistema de armazenamento tem cada vez mais importância para a segurança elétrica dos setores produtivos e até de países. Essa solução não é feita apenas de baterias – que podem ser de Íon-Lítio, Lítio-Ferro-Fosfato e “de fluxo”, esta última considerada uma tecnologia emergente e baseada na troca de eletrólitos. Além do armazenamento, os sistemas também incorporam softwares e hardwares de controle que possibilitam o gerenciamento do fornecimento de eletricidade, aumentam a eficiência das redes elétricas e reduzem intermitências, fornecendo energia de reserva em caso de interrupções. 

O BESS é cada vez mais usado pelo setor produtivo e segundo estimativas da consultoria Clean Energy Latin America, o mercado de BESS deve ter movimentado em 2025 cerca de R$ 2,2 bilhões, volume três vezes maior do que no ano anterior, que foi de R$ 700 milhões. O sistema já é usado por empresas de setores como o agronegócio para armazenar energia gerada pelos painéis fotovoltaicos e usar quando não há luz solar. O BESS é usado nas empresas para armazenar energia, que é usada nos horários em que a tarifa energética é mais elevada. Outras aplicações incluem o uso como backup quando há queda no fornecimento da rede, evitando interrupções na linha produtiva.  

A aceleração do mercado é justificada pela redução de custos dos equipamentos. Segundo dados da Clean Energy Latin America, o preço das baterias caiu 61% entre 2015 e 2023, e mais 40% entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, chegando ao patamar de US$ 100 a US$ 120 por kWh para sistemas com 1 MWh/250 kW de capacidade.  

Em contrapartida, no fim de janeiro deste ano, o Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, aprovou em sua 233ª Reunião Ordinária a alteração na Resolução GECEX nº 512/2023, que prevê o regime de redução da alíquota do imposto de importação de bens de capital (BK) e bens de informática e de telecomunicações (BIT). A decisão elevou o preço de equipamentos importados para projetos de energia solar, incluindo sistemas de armazenamento de energia (BESS), cuja alíquota de importação subiu de 16% para 20%. 

Segurança para o Sistema Interligado Nacional 

Além de oferecer mais segurança para o setor produtivo o BESS também aumenta a segurança de sistemas elétricos de países. Na Europa o sistema é usado para suprir energia no inverno e aumentar a estabilidade da rede ao maximizar a integração de energias renováveis no sistema elétrico.  

Países com mais similaridade com o Brasil, como a Austrália e o Chile também usam o BESS para aumentar a estabilidade do sistema elétrico. Na Austrália, que também é um dos grandes geradores de energia solar distribuída, o armazenamento de energia possibilita reduzir o curtailment e mitigar os riscos de blackout. No país vizinho a energia solar é majoritariamente gerada em uma região, no Norte, e consumida no centro do país, cenário parecido com o brasileiro, onde a energia é gerada no Nordeste, mas o maior consumo acontece no Sudeste e no Sul. Outra similaridade é que a expansão das linhas de transmissão não acompanhou, com a mesma velocidade, a capacidade de geração.   

Medidas para acelerar o uso do BESS como reserva de capacidade para o sistema elétrico nacional têm sido promulgadas pelo governo. A Lei 15.269/2025, que oficializa o armazenamento de energia, incluindo o BESS como parte da infraestrutura elétrica brasileira, possibilita o enquadramento do sistema no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), que reduz a carga tributária sobre equipamentos e projetos de infraestrutura, é a principal delas.  

Mas, ainda, é necessária uma regulamentação detalhada com requisitos técnicos, forma de contratação, integração com a rede, que será elaborada pela ANEEL. A agência tem um papel decisivo na conformação dos modelos de negócio, no desenho tarifário e na delimitação dos direitos e deveres dos agentes econômicos. 

Está previsto para os dias 2 de dezembro e 4 de dezembro a realização de dois leilões de reserva de capacidade de baterias. No primeiro poderão participar sistemas de armazenamento de energia em baterias que atendam aos requisitos mínimos de nacionalização, conforme critérios de credenciamento no âmbito do Sistema CFI do BNDES, mas sem a obrigatoriedade de financiamento pelo banco. Já o segundo é aberto a todos os projetos do sistema de armazenamento em baterias.  

É importante que até a realização do leilão haja um consenso de temas que geram debates entre os agentes do setor elétrico, como o artigo 3º da Lei 10.848/2004, o qual estabelece que, nos leilões de reserva de capacidade com uso de baterias, os custos da contratação serão divididos apenas entre os geradores e não entre todos os consumidores, como ocorre com outros sistemas. 

Engenharia especializada 

Projetos de BESS em grande escalda são complexos e precisam ser bem desenvolvidos para que os resultados sejam entregues em todo o seu ciclo de vida. Esses projetos precisam estar de acordo com as melhores práticas internacionais de engenharia, mitigando riscos técnicos, operacionais e de desempenho, e garantindo uma entrega robusta e segura.  

A definição correta da arquitetura, da tecnologia de baterias, das estratégias de conexão e despacho, bem como a mitigação de riscos de degradação, desempenho e integração à rede, são fatores decisivos para transformar o potencial do BESS em ativos confiáveis e financeiramente sustentáveis. Para que isso ocorra é necessário engenharia especializada, capaz de integrar requisitos regulatórios, desempenho técnico, segurança operacional e viabilidade econômica desde as fases iniciais. 

O BESS é uma das principais formas de reduzir o curtailment no Brasil e aumentar a segurança do Sistema Interligado Nacional. A demanda crescente de energia torna essencial o desenvolvimento de sistemas que possibilitem modernizar, aumentar a resiliência e promover a descarbonização da matriz elétrica brasileira.  A armazenagem para o posterior uso da energia limpa é uma das formas de transformar os recursos naturais brasileiros em benefícios para o setor produtivo e a população.