Usinas de acumulação em Minas Gerais operaram de forma integrada ao ONS para amortecer picos de vazão e garantir segurança hídrica para o período seco de 2026.
Com o encerramento formal do período chuvoso em Minas Gerais, o balanço operacional dos reservatórios sob concessão da Cemig recoloca em evidência uma das funções mais estratégicas, e por vezes menos compreendidas pelo público geral, da infraestrutura hidrelétrica: a gestão avançada de cheias. Para além do fornecimento de energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o controle hidráulico exercido pelas barragens funcionou como o principal amortecedor socioambiental contra eventos climáticos extremos ao longo das bacias mineiras nos últimos meses.
Durante a temporada de alta precipitação, as estruturas dotadas de capacidade de acumulação operaram como mecanismos de regulação de fluxo. Ao reter volumes massivos de água nos momentos de pico de tempestades e liberá-los de forma gradual, o sistema de engenharia mitigou o risco de transbordamentos severos e inundações em dezenas de perímetros urbanos situados a jusante das usinas.
O principal expoente desta engenharia hidráulica no ciclo recente foi a Usina Hidrelétrica Três Marias, localizada no Rio São Francisco. Em abril, o reservatório atingiu uma marca histórica de armazenamento ao registrar 102,34% de seu volume útil. O índice, que ocupa a faixa de volume de espera e sobrecheia, permaneceu estritamente dentro dos parâmetros de segurança estrutural da planta e das diretrizes operacionais do setor.
O impacto da amortização hidráulica no Rio São Francisco
A decisão de elevar o represamento até o limite operativo normal respondeu à necessidade de proteger as comunidades ribeirinhas do Alto e Médio São Francisco. Em vez de repassar a vazão afluente total de forma imediata, a hidrelétrica reteve as ondas de cheia, aplainando a curva de vazão defluente.
O gerente de Planejamento Energético da Cemig, Ivan Sérgio Carneiro, detalha como a estratégia evitou sinistros nas regiões que dependem diretamente da estabilidade do rio: “A operação de reenchimento do reservatório contribuiu para a mitigação de cheias em municípios localizados a jusante (abaixo) da barragem, especialmente em trechos mais críticos da bacia. Com o armazenamento do excedente de água, foi possível reduzir a intensidade das vazões em momentos de maior volume, colaborando para a proteção de áreas que já se encontravam em situação de atenção”.
Ademais, esse estoque hídrico acumulado no limite máximo serve como garantia de múltiplos usos da água para o restante do ano. Diante da perspectiva do período seco, o volume disponível em Três Marias assegura a perenização do rio, viabilizando o abastecimento humano, perímetros de irrigação agrícola, a navegação comercial e a integridade ecológica do ecossistema fluvial.
Governança integrada e o desafio regulatório das usinas “a fio d’água”
A gestão de ativos dessa magnitude exige uma articulação institucional complexa. No modelo regulatório brasileiro, a Cemig não atua de forma isolada; as manobras operacionais e a definição de defluências são coordenadas em tempo real junto ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), seguindo regras estabelecidas pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Este arranjo de governança estabelece “volumes de espera” nos reservatórios antes do início das grandes chuvas. Essa folga técnica garante que, ao chegar uma frente fria, a usina tenha capacidade física de absorver o impacto inicial do escoamento superficial. No entanto, o planejamento esbarra nas características de projeto de grande parte do parque gerador nacional. O desenho físico das usinas brasileiras divide-se em duas categorias operacionais distintas, o que impõe dinâmicas diferentes para o controle de eventos hidrológicos extremos.
Ao discriminar o portfólio de ativos da companhia e explicar como cada engenharia responde às variações de vazão, Ivan Sérgio Carneiro aponta as diferenças estruturais dessas plantas: “Na Cemig temos dois tipos de reservatórios: o de acumulação e o a fio d’água. Existem grandes diferenças entre eles e a empresa trabalha para que estes corpos hídricos possam ser úteis para toda a população, além do benefício de gerar energia”.
Diferente de Três Marias, que possui um reservatório plurianual e robusto, as usinas que operam sob o conceito “a fio d’água” possuem capacidade de acumulação mínima ou nula. Nestas estruturas, a água que entra no reservatório deve ser repassada quase instantaneamente para jusante, restando pouca ou nenhuma margem de manobra para conter grandes ondas de cheia. Por esse motivo, a preservação de grandes reservatórios de acumulação remanescentes no SIN consolida-se como um fator de resiliência climática essencial para a estabilidade operativa e social do país.



