Uso crescente de algoritmos em centros de operação exige novos modelos de governança; especialistas alertam que automação sem supervisão humana gera riscos sistêmicos
A inteligência artificial (IA) no setor elétrico brasileiro rompeu a fronteira da automação administrativa para ocupar o núcleo da operação de infraestruturas críticas. Hoje, algoritmos já comandam funções de manutenção preditiva, gestão de ativos e suporte à decisão em tempo real. No entanto, essa digitalização acelerada, impulsionada pela necessidade de respostas rápidas a eventos climáticos extremos, traz consigo um novo desafio: a segurança operacional das redes.
Nesse cenário, a gestão de algoritmos passa a ter peso equivalente ao da própria infraestrutura física (subestações e linhas de transmissão). Para a Tripla, empresa especializada em cibersegurança e governança, a visibilidade sobre esses sistemas automatizados é urgente.
Alexandre Murakami, diretor de soluções da companhia, define o momento atual: “A IA está assumindo o comando de infraestruturas vitais. O problema é que inteligência artificial sem governança não é inovação; é risco operacional puro e simples.”
O risco da “dependência algorítmica”
A grande preocupação do setor recai sobre a autonomia dos sistemas. Em situações de estresse da rede, como tempestades severas ou sobrecargas abruptas, as decisões operacionais passam a depender de modelos cujas lógicas nem sempre são auditáveis ou interpretáveis em segundos.
No ambiente de missão crítica das utilities, uma falha digital pode resultar em danos físicos imediatos a equipamentos caros e interrupções no fornecimento. O risco central não reside na tecnologia em si, mas na ausência de mecanismos que garantam a rastreabilidade e a capacidade de intervenção humana imediata.
Governança e o modelo ‘Human-in-the-Loop’
A modernização das distribuidoras e geradoras agora foca na governança digital. O setor começa a priorizar o modelo human-in-the-loop, estrutura que assegura que operadores humanos possam sobrepor decisões automatizadas em cenários adversos.
A segurança das redes de comunicação (OT Security), que sustentam o tráfego de dados entre sensores e centros de controle, tornou-se o novo pilar estratégico das operações.
Para Alexandre Murakami, a maturidade tecnológica das empresas será medida pela confiabilidade regulatória de suas IAs: “A vantagem competitiva não pertence a quem adota a tecnologia primeiro, mas a quem consegue operá-la com segurança. A maturidade em IA gera redução de falhas e, acima de tudo, confiança perante o regulador.”
A próxima etapa da transformação digital do setor dependerá menos da capacidade de automatizar processos e mais da habilidade de integrar inovação, segurança cibernética e resiliência climática em uma única camada de governança.



