Maior cooperativa de energia do país amplia operação, mas aponta dependência crítica das distribuidoras e defasagem tecnológica como entraves ao avanço da GD no Brasil
A Cogecom consolidou sua posição como principal operação do cooperativismo energético no Brasil ao atingir 432 MW em contratos de geração distribuída (GD). O marco reforça o avanço de modelos descentralizados no país, ao mesmo tempo em que escancara desafios estruturais que ainda limitam a escalabilidade do segmento, especialmente na interface com as distribuidoras.
Fundada em 2017, a cooperativa acumula uma gestão de aproximadamente 70 GWh por mês e registrou crescimento de 40% ao longo de 2025. Para o primeiro semestre de 2026, a projeção é de expansão adicional de 20%, sustentada por um modelo baseado no compartilhamento de excedentes de usinas parceiras e na distribuição de créditos energéticos entre cooperados em diferentes estados.
A trajetória da empresa reflete o amadurecimento do mercado de GD no Brasil, impulsionado por mudanças regulatórias e pela busca crescente por redução de custos e previsibilidade energética por parte dos consumidores.
Modelo cooperativista ganha escala no mercado de GD
O avanço da Cogecom ocorre em um momento de transformação do setor elétrico, marcado pela descentralização da geração e pelo protagonismo do consumidor.
O modelo de negócios adotado pela cooperativa permite que consumidores se beneficiem de créditos de energia provenientes de usinas remotas, reduzindo custos na fatura sem a necessidade de investimento direto em ativos de geração. Essa estrutura tem ganhado tração, sobretudo em regiões onde a instalação individual de sistemas fotovoltaicos não é viável.
A operação distribuída em oito estados demonstra a capilaridade do modelo e sua aderência a diferentes perfis de consumo, consolidando o cooperativismo como uma alternativa relevante dentro do mercado livre e do ambiente de GD.
Distribuidoras definem o ritmo do crescimento
Apesar da expansão consistente, o avanço da geração distribuída segue condicionado à capacidade de adaptação das concessionárias de distribuição. Nesse contexto, empresas como Copel e Celesc são apontadas como referências operacionais na integração com o novo modelo descentralizado.
Jean Rafael Fontes, gerente comercial da Cogecom, destaca o papel dessas distribuidoras na fluidez do mercado: “Essas concessionárias acompanham e contribuem de forma efetiva com os processos que garantem o bom desempenho e o crescimento de todo o mercado de geração distribuída de energia.”
A fala evidencia que o sucesso da GD depende de uma coordenação técnica eficiente entre geração e distribuição, com processos ágeis de validação, compensação de créditos e integração de sistemas.
O executivo também ressalta a necessidade de cooperação institucional para viabilizar o crescimento sustentável do setor: “É fundamental que as cooperativas e o mercado de GD tenham o apoio das concessionárias.”
Gargalos tecnológicos e operacionais ainda persistem
Embora haja avanços pontuais, o setor ainda enfrenta entraves relevantes. Entre os principais desafios estão os prazos elevados para processamento dos créditos de energia e a baixa integração digital entre sistemas das distribuidoras.
Essa defasagem tecnológica cria um descompasso entre a energia efetivamente gerada e a compensação na fatura dos consumidores, afetando a previsibilidade financeira e a confiança no modelo.
Além disso, interpretações divergentes das normas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e estruturas operacionais ainda voltadas para um sistema centralizado dificultam a padronização dos processos.
Ao detalhar a estratégia da cooperativa, Fontes reforça a simplicidade do modelo e sua eficiência econômica: “Estamos há seis anos consecutivos de crescimento com um trabalho reto e consciente. A COGECOM opera no mercado a partir do excedente de energia produzido pelas suas usinas parceiras e compartilha esses créditos de produção com os cooperados. Um modelo puramente cooperado que vem gerando uma economia em suas faturas e isso tem alcançado resultados muito positivos.”
Escalabilidade da GD depende de modernização sistêmica
O crescimento acelerado da geração distribuída nos últimos anos tem pressionado a infraestrutura e os processos das distribuidoras, exigindo investimentos em digitalização, automação e integração de dados.
A ausência de sistemas interoperáveis e fluxos automatizados limita o ganho de escala do setor, criando gargalos que tendem a se intensificar à medida que novos consumidores aderem ao modelo.
Na avaliação do executivo da Cogecom, a evolução tecnológica das concessionárias é condição indispensável para o avanço da GD: “A geração distribuída ainda carece do desenvolvimento das concessionárias para que possamos alcançar uma escalabilidade mais saudável. Dependemos bastante das concessionárias para operar de maneira eficiente. À medida que crescemos, percebemos que o crescimento das concessionárias não acompanha o nosso, seja em termos tecnológicos, de processos ou de informatização. Isso acaba gerando dificuldades no dia a dia.”
GD avança, mas exige coordenação regulatória e tecnológica
O caso da Cogecom sintetiza o estágio atual da geração distribuída no Brasil: crescimento robusto, modelos de negócio consolidados e forte demanda, contrapostos a limitações operacionais e tecnológicas na ponta da distribuição.
Para que o setor atinja um novo patamar de maturidade, será necessário alinhar regulação, infraestrutura e inovação digital, garantindo maior previsibilidade e eficiência na compensação de energia.
A evolução da GD, nesse contexto, não depende apenas da expansão da capacidade instalada, mas da construção de um ecossistema integrado capaz de sustentar o crescimento com qualidade operacional e segurança regulatória.



