Análise do professor João Alfredo Nyegray aponta efeitos sistêmicos do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã sobre mercados energéticos, inflação e ordem internacional
Um mês após o início da escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, os desdobramentos do conflito já extrapolam o campo geopolítico e passam a redesenhar dinâmicas centrais da economia global, com impactos diretos sobre o setor energético, a inflação e o custo da logística internacional.
Para o professor João Alfredo Nyegray, da PUCPR, o conflito deixou de ser uma crise regional para se tornar um choque sistêmico. Segundo o especialista, essa mudança de patamar altera o equilíbrio de poder global e impõe uma pressão estrutural prolongada sobre os mercados de energia.
Conflito evolui para dinâmica sistêmica
Na avaliação do especialista, o primeiro mês de guerra evidenciou um erro de cálculo relevante por parte de analistas internacionais: a subestimação da capacidade de resposta do Irã.
Ao analisar o comportamento do país no teatro de operações, Nyegray observa: “Havia uma expectativa de que o Irã teria uma resposta limitada ou enfrentaria instabilidade interna. O que vimos foi o oposto: uma resposta coordenada, com uso intensivo de mísseis, drones e ativação de aliados regionais, ampliando o conflito e elevando o custo estratégico para seus adversários”.
O desdobramento reforça uma lógica clássica das relações internacionais: atores com menor capacidade militar convencional podem compensar assimetrias por meio de estratégias indiretas e assimétricas.
Nesse sentido, o especialista destaca: “O Irã demonstrou capacidade de transformar vulnerabilidade em poder de pressão. Isso altera o cálculo estratégico de Estados Unidos e Israel”.
Multipolaridade ganha força com Rússia e China
O conflito também evidencia uma reconfiguração da ordem internacional, marcada pela crescente atuação de potências como Rússia e China. Embora não estejam diretamente envolvidos no confronto, esses países exercem influência relevante ao reduzir o isolamento do Irã e atuar como contrapesos geopolíticos às potências ocidentais.
Ao avaliar esse movimento, Nyegray ressalta: “A guerra evidencia que grandes potências não estão dispostas a permitir que uma única potência defina os resultados de crises regionais. Rússia e China operam como contrapesos indiretos, ainda que de formas distintas — Moscou mais alinhada politicamente e Pequim mais pragmática, sobretudo em função de seus interesses energéticos”.
Essa dinâmica reforça a transição para um sistema internacional mais fragmentado e multipolar, com implicações diretas para mercados globais, especialmente o de energia.
Petróleo acima de US$ 100 e choque energético global
Os efeitos econômicos da guerra já são visíveis no mercado de petróleo, com o barril ultrapassando novamente o patamar de US$ 100, impulsionado por riscos à oferta e pela elevação do chamado prêmio geopolítico. A instabilidade no Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do fluxo energético global, intensifica as preocupações com abastecimento e logística internacional.
Para Nyegray, o impacto desse cenário vai muito além dos combustíveis:“ o impacto vai muito além do preço do combustível. Trata-se de um choque que se espalha por cadeias produtivas inteiras, afetando transporte, alimentos, indústria e inflação global. É a geopolítica entrando de forma direta no custo de vida”.
A leitura converge com análises do setor energético, que já identificam pressões sobre custos logísticos, geração térmica e cadeias industriais intensivas em energia.
Brasil tem vantagem relativa, mas segue exposto
No caso brasileiro, a estrutura da matriz energética oferece um amortecedor parcial diante da crise internacional. A presença consolidada de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, reduz a dependência direta do petróleo em segmentos específicos.
Ao analisar essa particularidade, Nyegray destaca: “O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma matriz energética mais diversificada. O etanol e o biodiesel reduzem a dependência direta do petróleo e suavizam o impacto no consumidor”, explica.
Ainda assim, o especialista alerta para limitações importantes dessa vantagem: “Os biocombustíveis não eliminam o problema. O diesel continua sendo um ponto de vulnerabilidade, e o país segue exposto ao aumento de custos logísticos e à inflação global. O que o Brasil tem é uma vantagem relativa, não uma blindagem”.
A avaliação reforça que, mesmo com uma matriz mais diversificada, o Brasil permanece sensível às oscilações do mercado internacional de energia, especialmente no transporte e na inflação.
Energia no centro da nova ordem global
Para o especialista, o conflito atual explicita a interdependência entre energia, geopolítica e economia, um fator que tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos.
Ao concluir sua análise, Nyegray sintetiza o caráter estrutural da crise: “Estamos diante de um episódio que revela as transformações da ordem internacional. Energia, segurança e poder continuam profundamente interligados, e as empresas e governos que não incorporarem essa dimensão geopolítica em suas decisões estarão cada vez mais expostos a riscos”, conclui.
A leitura aponta para um cenário em que decisões estratégicas no setor elétrico e energético precisarão incorporar variáveis geopolíticas com maior intensidade, seja na contratação de energia, na diversificação da matriz ou na gestão de riscos.



