Adaptação climática assume protagonismo econômico e redefine agenda de desenvolvimento no Brasil, aponta especialista

Eric Daza alerta para perdas trilionárias já em curso e defende que o país trate adaptação como política estrutural, não como tema ambiental acessório

A adaptação climática deixou definitivamente o campo das discussões ambientais e entrou no centro da agenda econômica global. Essa é a avaliação do especialista brasileiro em transição energética e políticas climáticas Eric Fernando Boeck Daza, que afirma que o mundo convive hoje com uma “conta socioeconômica crescente” resultante da ausência de investimentos consistentes em adaptação, e que o Brasil não está imune a esse cenário.

Em entrevista concedida em dezembro de 2025, Daza destacou que as perdas diretas causadas por desastres climáticos já atingem US$ 200 bilhões por ano, número que cresce para US$ 2,3 trilhões quando considerados impactos indiretos, segundo estimativas da ONU. Ao abordar o problema, o especialista reforçou.

“A cada ano o mundo redescobre o óbvio: desastres climáticos estão mais caros, mais frequentes e mais desiguais. Adaptar não é tema ambiental, é tema de economia, emprego e política pública.”

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Segundo ele, os países seguem tratando adaptação como despesa marginal, quando deveria ser tratada como prioridade estratégica.

A pressão da desigualdade: quando o risco climático encontra vulnerabilidades históricas

Um dos alertas mais contundentes do especialista diz respeito ao impacto humano da falta de adaptação. Daza cita projeções do Banco Mundial segundo as quais mais de 100 milhões de pessoas podem ser empurradas para a pobreza extrema até 2030 se políticas estruturadas não forem implementadas.

O especialista afirmou que o quadro de vulnerabilidade social e climática já se manifesta no cotidiano da população. Ao comentar o efeito das chuvas intensas e enchentes sobre comunidades precárias, ele destacou que o desastre é resultado de omissões históricas.

“Quando uma enchente arrasta casas em áreas de ocupação precária, não é apenas o clima agindo. É o resultado acumulado de décadas de omissões em habitação, drenagem, saneamento e planejamento urbano.” E completou com uma síntese que expõe a lógica do problema. “O clima é o gatilho; a estrutura socioeconômica é o pavio.”

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Para Daza, a combinação entre risco climático e desigualdade territorial explica por que os impactos são tão assimétricos entre regiões e grupos sociais.

Financiamento global da adaptação ainda está muito abaixo do necessário

A distância entre o que é necessário investir e o que de fato é aplicado permanece enorme. O Adaptation Gap Report, do PNUMA, estima que países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 a 365 bilhões anuais até 2035 para enfrentar riscos climáticos. Em contraste, em 2023 o financiamento global somou apenas US$ 26 bilhões, aproximadamente 10% da necessidade.

Ao comentar esse desequilíbrio, Daza criticou a visão míope sobre investimentos em adaptação. “Em qualquer outro setor, investir 1 dólar e receber 4 em retorno seria visto como grande oportunidade. Em adaptação, seguimos tratando como gasto residual. É irracional do ponto de vista econômico.”

Ele argumenta que adaptação precisa ser vista como política de eficiência econômica, não como despesa ambiental.

O Brasil no espelho: potência verde, mas vulnerável no território

Embora possua uma matriz elétrica majoritariamente renovável e grande potencial para energias limpas, o país convive com fortes vulnerabilidades climáticas e urbanas. Daza chama atenção para cidades que paralisam com chuvas intensas, áreas rurais sujeitas a secas prolongadas e periferias expostas a ondas de calor.

Segundo ele, reduzir o debate de adaptação apenas ao clima é ignorar o cerne do problema. “No Brasil, falar de adaptação sem falar de desenvolvimento regional, proteção social e política urbana é falar pela metade. O risco climático encontra a vulnerabilidade social justamente onde vivem milhões de brasileiros.”

O especialista lembra que cada evento extremo gera repercussões em cadeia: aumento no preço dos alimentos, perda de renda agrícola, pressão sobre programas sociais e impacto direto no funcionamento de pequenas empresas.

Adaptação como estratégia de desenvolvimento, e não um plano B

Para Daza, inserir adaptação climática no planejamento econômico não é apenas urgente: é indispensável. Ele afirma que infraestrutura resiliente, sistemas de drenagem adequados, políticas de crédito adaptativas e equipamentos públicos preparados para eventos extremos devem ser tratados como investimentos estratégicos.

“Adaptação é planejamento econômico. Uma escola preparada para calor extremo é um ambiente melhor para aprender; sistemas de drenagem são política de saúde e de emprego; seguros e crédito adaptados ao risco climático são estabilidade para agricultores e consumidores.”

Na visão do especialista, a adaptação precisa assumir protagonismo semelhante ao que energia renovável ganhou ao longo da última década.

Decisões tomadas nesta década moldarão a resiliência do país

Em sua avaliação final, Daza reforça que adiar ações apenas amplifica custos futuros, financeiros, sociais e territoriais. A mensagem, segundo ele, é clara: “Se o clima já mudou, a política pública não pode continuar igual. Adaptar significa proteger gente, renda e futuro. Significa ter cidades que continuam funcionando mesmo quando o tempo vira. É a chave para um país mais justo e resiliente.”

A declaração resume a urgência: adaptação climática deixou de ser agenda ambiental e passou a ser pilar estratégico da economia brasileira.

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