Em resposta ao USTR, entidades do setor sucroenergético apontam que alíquota segue regras do Mercosul e criticam barreiras históricas impostas pelos norte-americanos ao açúcar brasileiro.
As tensões comerciais envolvendo o mercado transfronteiriço de biocombustíveis ganharam um novo capítulo na agenda diplomática entre Brasília e Washington. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e a Bioenergia Brasil manifestaram um posicionamento conjunto contundente após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) apresentar questionamentos formais a respeito das condições de acesso do etanol norte-americano ao mercado consumidor brasileiro.
As associações setoriais argumentam que a política tarifária adotada pelo governo brasileiro atende estritamente a critérios multilaterais e regionais de comércio. No entendimento técnico apresentado pelas entidades, a alíquota que incide sobre o biocombustível importado está plenamente respaldada na Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul, desmistificando a tese de que haveria qualquer tipo de barreira comercial ou medida protecionista direcionada de forma específica aos Estados Unidos.
Barreiras ao Açúcar e Assimetria na Relação Bilateral
A contraofensiva do setor sucroenergético nacional também expôs assimetrias históricas mantidas pela política agrícola de Washington. As lideranças industriais brasileiras lembraram que o livre comércio alegado pelo USTR contrasta com os mecanismos de proteção aplicados pelos próprios norte-americanos em outras verticais do mesmo complexo agroindustrial.
Ao analisar o histórico de restrições de acesso ao mercado externo, a nota assinada pela UNICA e pela Bioenergia Brasil destacou o forte protecionismo norte-americano que sufoca o principal subproduto da cana-de-açúcar nacional: “Cabe ainda ressaltar que os Estados Unidos mantêm há décadas políticas de proteção ao açúcar, por meio de um sistema de tarifas proibitivas e cotas que limitam as exportações brasileiras para o mercado norte-americano a um volume que representa menos de 1% das exportações totais do Brasil.”
Ativo Estratégico para a Transição Energética Global
O posicionamento das indústrias nacionais vai além da disputa aduaneira, posicionando o biocombustível brasileiro como uma ferramenta tecnológica indispensável na agenda ESG e nos compromissos globais de descarbonização do setor de transportes. Frente aos ataques comerciais, as entidades reforçaram as credenciais operacionais de eficiência do ecossistema de etanol de cana e de milho do país.
As métricas de sustentabilidade e a pegada ecológica do combustível foram defendidas no documento como diferenciais competitivos consolidados nos mercados mais exigentes do mundo: “O etanol brasileiro é reconhecido internacionalmente como uma das soluções mais eficientes para a descarbonização dos transportes, combinando baixa intensidade de carbono, critérios robustos e auditáveis de sustentabilidade e contribuição efetiva para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Trata-se de um combustível alinhado às principais agendas globais de transição energética, segurança energética e desenvolvimento sustentável.”
Confiança na Diplomacia Comercial e Apelo ao Diálogo
Diante do imbróglio regulatório, os agentes produtores sinalizaram pleno alinhamento com a governança do Palácio do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), projetando uma resolução técnica conduzida pelos canais oficiais de negociação bilateral.
O encerramento do manifesto conjunto chancelou o apoio à atuação do corpo diplomático brasileiro e reforçou a necessidade de preservação da agenda climática comum estabelecida entre as duas maiores potências produtoras de biocombustíveis do planeta: “A UNICA e a Bioenergia Brasil reafirmam a confiança de que o governo brasileiro seguirá conduzindo esse processo com responsabilidade, firmeza e competência diplomática, em defesa dos interesses estratégicos do país. Eventuais divergências comerciais devem ser tratadas por meio do diálogo e da negociação, preservando uma relação bilateral historicamente relevante para ambos os países e uma agenda comum voltada à promoção dos biocombustíveis e da transição energética.”



