Com recorde histórico de emissões em 2025, programa do Instituto Totum se consolida como ponte para o futuro CGOB e o mercado regulado de carbono; número de usinas cadastradas deve dobrar em 18 meses.
O mercado brasileiro de atributos ambientais e rastreabilidade para o gás renovável consolida uma trajetória de expansão acelerada. Dados fechados do programa GAS-REC, gerido pelo Instituto Totum, revelam que as emissões acumuladas do certificado já ultrapassaram a marca de 5,8 milhões de unidades desde o seu lançamento em 2022. O indicador acompanha de perto o amadurecimento da demanda corporativa por lastro de descarbonização focado em biogás e biometano no ambiente de contratação industrial.
A evolução histórica dos dados demonstra uma curva de crescimento consistente do programa voluntário. O volume anual saltou de 943 mil certificados emitidos em 2022 para 1,37 milhão em 2025, registrando o maior patamar anual de sua história. No balanço parcial de 2026, o ritmo se mantém aquecido com 1,46 milhão de certificados emitidos até o momento, montante alinhado à sazonalidade tradicional do setor e à preparação dos agentes de mercado para a introdução de novos instrumentos de governança.
Segurança jurídica e a dissociação do atributo ambiental
A maturidade do ecossistema de negócios verde no país reflete o avanço regulatório que deu contornos claros à comercialização desses ativos. Ao analisar a evolução histórica dos indicadores, o diretor geral do Instituto Totum, Fernando Lopes, aponta que o mercado vem compreendendo de forma cada vez mais clara o papel desses instrumentos na agenda de descarbonização. O executivo avalia que a evolução regulatória conferiu mais confiança a produtores e consumidores, impulsionada principalmente pelo reconhecimento legal da dissociação entre a molécula energética e o seu respectivo atributo ambiental.
O dirigente ressalta que o recorde de emissões observado ao longo de 2025 decorre diretamente desse processo de aculturamento e da antecipação de novos modelos de comércio de emissões no Brasil. Lopes argumenta que houve um esforço relevante de disseminação de conhecimento nos últimos anos, resultando em uma preparação natural dos agentes econômicos para a entrada de novas frentes de mercado, a exemplo do CGOB, o que ajudou a acelerar o ritmo de procura pelos certificados voluntários.
Transição para o CGOB e o mercado regulado de carbono
Apesar da consistência dos números auditados, a avaliação institucional é de que o mercado brasileiro de gás renovável se encontra em sua fase inicial de consolidação, com transações concentradas em grandes consumidores corporativos que lideram metas globais de sustentabilidade.
A expansão em larga escala deve ganhar tração definitiva nos próximos anos a partir de três pilares estruturais: a operacionalização do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), o avanço do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e a pressão das metas globais de escopo 1 e 2 das grandes indústrias.
O Instituto Totum vem se posicionando de forma estratégica para liderar essa transição. A entidade foi chancelada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) como o primeiro Agente Certificador de Origem (ACO) do CGOB. Além disso, obteve autorização para atuar como escriturador e registrador do sistema, centralizando as funções de controle de titularidade, emissão e rastreabilidade dos novos títulos regulados.
Diante desse redesenho normativo, Fernando Lopes antecipa um cenário de forte ganho de liquidez no curto prazo. Na visão do executivo, os próximos três anos serão decisivos para a consolidação desse ecossistema, projetando um salto relevante de escala e liquidez à medida que as novas regras entrarem em vigor e os inventários corporativos passarem a incorporar tais instrumentos de forma mais ampla.
Biometano lidera expansão de usinas e atrai transporte pesado
Atualmente, o portfólio do programa GAS-REC conta com 9 usinas ativas e cadastradas, das quais duas são dedicadas à produção de biogás e sete voltadas ao mercado de biometano. A estimativa do Instituto Totum é de que esse parque tecnológico dobre de tamanho nos próximos 18 meses, impulsionado pelo pipeline de investimentos em novas plantas de refino de gás renovável no país.
O protagonismo do biometano no volume de certificados emitidos é explicado por diferenciais técnicos intrínsecos à sua cadeia de produção. O diretor geral da instituição detalha que o modelo de certificação considera o poder energético do gás, segmento no qual o biometano possui maior concentração. Adicionalmente, o executivo pondera que as plantas desse combustível costumam ser estruturadas em maior escala, fator que naturalmente expande a oferta de títulos no mercado.
Na esteira dessa oferta ampliada, a demanda futura deve se concentrar em setores difíceis de descarbonizar (hard-to-abate). Lopes afirma que esses segmentos demandam soluções viáveis para mitigação imediata de emissões, identificando no biometano e em seus certificados uma alternativa sólida que alia rastreabilidade, integridade ambiental e ganhos operacionais.
De olho no mercado global, o executivo conclui apontando que o Brasil reúne condições únicas para exercer uma liderança global no setor, sustentado por uma forte base agroindustrial, grande potencial em resíduos sólidos urbanos e saneamento, além de uma engenharia regulatória robusta. O diretor aposta que o modelo desenvolvido em território nacional possui atributos para se transformar em uma referência internacional para a certificação de gás renovável.
Lançado originalmente em 2020, o programa GAS-REC opera sob um rigoroso processo de auditoria documental, análise laboratorial e controle digital. O modelo obteve reconhecimento internacional da Fundação I-TRACK, atestando sua conformidade nativa com o futuro padrão global I-TRACK(G) para a harmonização internacional do mercado de biogás.



